Entrevista | 08-07-2019 15:00

Nos corredores do poder a influenciar com pezinhos de lã

Nos corredores do poder a influenciar com pezinhos de lã

António Gameiro, deputado e presidente da distrital de Santarém do PS, usa os conhecimentos num Governo que lhe dá abertura.

Chega de fato e gravata, mas fica em camisa quando começa a entrevista. António Gameiro é dos políticos socialistas mais antigos na região e de Ourém catapultou-se para junto do poder em Lisboa, onde tem sido deputado. Filho de pais emigrantes, foi criado pelos avós. Considera-se um social-democrata dentro do PS e por isso senta-se mesmo ao lado da bancada do PSD no Parlamento, onde as intervenções são cada vez mais brejeiras. Quase a fazer 49 anos, Gameiro já foi advogado, é professor universitário e autor de livros. Foi notícia por surgir nas escutas da Operação Marquês a falar com Carlos Santos Silva, de quem é amigo. Foi condenado por se apropriar de dinheiro na venda de um apartamento, mas diz que foi tramado. Nesta entrevista diz que é um lobista do distrito de Santarém em Lisboa e que anda na política com pezinhos de lã.

O que é que tem feito que não se dá por si?

Há muita gente que se desdenha para tirar uma fotografia ao pé de um ministro ou secretário de Estado. Isso não faz parte da minha maneira de ser. Se queremos uma sociedade em que se reconheça o mérito devemos fazer por ele primeiro, para depois podermos dar o exemplo aos outros.

Também anda cá há mais anos do que outros…

Há muitos que andaram cá muitos anos e só cá vinham uma vez por mês ou quando havia reuniões do PS. Eram do distrito e estavam o tempo todo em Lisboa.

Quando tem uma aula e uma actividade política ou parlamentar para a mesma hora como se organiza?

A actividade parlamentar nunca coincide com a académica porque dou aulas à noite. Tenho a tarimba para ver se devo faltar a uma aula porque é importante que esteja em representação do Parlamento ou do partido. Depois sou muito transportador de problemas do distrito para Lisboa, para resolver situações.

“SOU UM LOBISTA DO DISTRITO EM LISBOA”

Ou seja usa os conhecimentos nos bastidores…

Quando se resolve um pequeno problema é muito melhor do que ter uma fotografia ao lado do primeiro-ministro. Ainda agora ajudei a resolver a questão das três turmas de Fátima. Também ajudei com o quartel da GNR de Salvaterra de Magos e com o de Alcanena que é o sítio mais indigno que conheço. Aquilo não é um quartel, é um galinheiro.

É um influenciador…

Sinto-me um lobista de Santarém em Lisboa, um solucionador. Uma parte do trabalho que faço é andar de volta das pessoas a explicar as situações.

Sente-se mais influente com este Governo?

Nunca tive tanta influência nem fui tão bem percepcionado quanto aos problemas do distrito de Santarém. Com a maioria absoluta do engenheiro Sócrates era muito difícil. Estavam todos muito concentrados nas grandes linhas da acção e pouco motivados para o trabalho. Tive uma má relação com esse Governo, que levou ao meu afastamento de deputado em 2011, porque sou daqueles que não faço barulho na rua, faço barulho em casa e, às vezes, as pessoas não gostam.

Só ainda não conseguiu resolver o problema do seu concelho, que não tem saneamento básico em cerca de metade do território.

O concelho foi o último a ter PDM (Plano Director Municipal). Por isso esteve afastado de fundos comunitários. Em 2003, quando passámos a ter PDM, não havia fundos comunitários para saneamento. No quadro comunitário de 2013/2020 houve financiamento e fizemos obras de 15 milhões para a rede Espite - Cercal - Fátima e mais três milhões para duas redes muito pequenas dentro de Fátima.

Com tantos anos como deputado e líder distrital já domina o PS?

Sou dirigente nacional desde 1998, mas não dependo da política para viver, porque tenho carreira académica e actividade empresarial fora de Portugal. Não preciso de diminuir-me relativamente a alguns sentimentos que tenho de coisas que são injustas para com o distrito de Santarém.

Não acha que essas coisas se misturam?

Nunca fiz algum negócio em razão da política. Em Angola, a formação que fui lá fazer não teve nada a ver com política. Foi um amigo jurista que me desafiou para se fazer formação na área da Justiça naquele país.

Usa o Facebook para dar conta de onde está, mas não se vê intervenção política, opinião crítica. Assim não se compromete…

Não sou capaz de dar opinião quando alguém põe, por exemplo, no Facebook: “sou a favor do aeroporto de Tancos”. Não me ponho no papel daqueles que decidem sem saber e só falo do que sei. Primeiro, é preciso fazer estudos, é preciso fazer uma comparação com o que é melhor para a região, se é Monte Real, se é Tancos.

O seu conterrâneo, líder do PSD distrital, fez um debate a defender o aeroporto em Tancos.

Há, subjectivamente e eventualmente, razões para ele pensar em Tancos. Havendo uma comissão nomeada pelo Governo, com cinco especialistas na área da aeronáutica e da aviação civil, é preciso esperar pelas conclusões, porque não basta dizer.

Mais uma vez não toma uma posição clara para não ferir susceptibilidades.

As pessoas estão fartas de políticos que estão sempre na crista da onda a dizer tudo e mais alguma coisa. Não acho que isso seja uma boa maneira de construir uma carreira política ao serviço das populações. Prefiro fazer o trabalho, pensar, estudar, ler e só depois dar uma opinião fundamentada.

UM PROGRAMA OPERACIONAL PARA O RIBATEJO E OESTE

O que é preciso para afirmar mais o distrito?

Há muitos anos em Santarém assinámos um acordo com o PSD que reivindicava um programa operacional específico para o Ribatejo e o Oeste. Em 2002, Miguel Relvas foi para o Governo e a primeira coisa que fez foi retalhar o distrito: Metade para o centro, metade para o Alentejo. Temos vindo a trabalhar com o presidente da distrital do PSD e estamos em vias de poder ter um programa operacional específico para Santarém e Oeste. Se tivermos um programa operacional que tenha um gestor em Santarém, com técnicos, isto é trabalhar a favor de uma visão estratégica.

O distrito de Santarém tem protagonismo político?

Tem. Isso não quer dizer que seja obrigado a andar nas capas dos jornais todos os dias e a autopromover-me. Nos últimos oito anos lancei 20 livros e nenhum foi apresentado no distrito de Santarém. Sabe porque é que não fiz? Porque não gosto...

Mas as pessoas devem saber o que se passa.

Eu sei, mas não gosto nem quero que um dia digam que sou de tal maneira populista que até utilizo a minha faceta académica. Já fui convidado para dar aulas no ISLA em Santarém e não aceitei.

Santarém já devia ter um museu do 25 de Abril

Conhece o espaço da antiga Escola Prática de Cavalaria em Santarém?

Sim. Esperava-se que a câmara tivesse um programa de raiz para aquele espaço que envolvesse três perspectivas. Uma de serviços, uma de cultura e social e outra de aproveitamento do resto do terreno para um projecto estruturante para o concelho. Hoje toda a gente diz que Santarém morreu.

O que faria naquele espaço?

Explicaria, de forma muito clara, que que não é possível a câmara ser detentora daquele espaço e não haver aqui um museu do 25 de Abril. Não me calaria junto dos jornais nem junto do Governo a reivindicar um projecto desportivo e social para aquele espaço.

O que está a dizer é que Santarém não tem uma estratégia turística?

O grande obreiro do 25 de Abril foi Salgueiro Maia e Santarém não soube até agora afirmar isso. Não percebo que não se traga um arquitecto internacional de marca que faça um desenho, um pensamento.

Mas o seu amigo Moita Flores deixou a câmara atolada em dívidas.

O actual presidente da câmara tem vindo a baixar as dívidas e vejo-o a gastar dinheiro noutras coisas. Não sei se um arquitecto internacional, que custará 100 ou 200 mil euros, põe em causa as finanças da câmara.

O que acha do facto do acesso a Santarém pela Nacional 118 estar fechado há tanto tempo?

O presidente da Câmara de Santarém sai muito mal desta fotografia, porque tem culpa neste atraso na reabertura da estrada, independentemente dos papéis que ele faz, das emoções que leva à assembleia municipal e dos comunicados que faz empurrando a culpa para os outros.

OS PROJECTOS ADIADOS HÁ DÉCADAS

Há questões que andam a ser faladas há décadas, como a modernização da linha norte no distrito de Santarém, a nova ponte sobre o Tejo a norte e do IC3.

Temos neste momento no Plano Nacional de Investimento cerca de 530 milhões de euros para o distrito de Santarém. Está garantido que vamos ter 260 milhões de euros para desviar a linha em Santarém e vamos fazê-lo.

Pessoas que não sabem estar no Parlamento

Como é que se posiciona na Assembleia da República?

Faço uma coisa que falta um pouco ao Parlamento português, que é a noção do sítio onde estamos e da responsabilidade que temos. Há uma linguagem que não é aceitável dentro do Parlamento e que, infelizmente, desde 2005 tem vindo a resvalar para comentários e até intervenções com uma linguagem que não é cuidada.

Sente-se mal no Parlamento?

Sinto-me constrangido. Os portugueses não merecem que os seus representantes se expressem dessa maneira e que em vez de acrescentarem algo ao debate tragam mesquinhez. Tem havido um crescente recrutamento de pessoas que não têm noção do que estão a fazer no Parlamento.

Isso também é uma crítica ao PS?

São todos os partidos. Há expressões que não são aceitáveis num estado democrático e nós estamos no exercício de funções públicas remuneradas, de representação do voto e da confiança que nos deram.

O perdão dos militantes de Abrantes, a presidente que chega a secretária de Estado e a cobrança de favores

Já perdoou os militantes de Abrantes que não foram votar nas eleições para a distrital?

No mesmo dia. A atitude dos militantes de Abrantes fica com eles.

Mas isso teve a ver, provavelmente, com divergências anteriores com Maria do Céu Albuquerque.

Fiz sempre na gestão da federação do PS aquilo que me ensinaram em casa; ser magnânimo com todos e, portanto, nunca tive nenhuma disputa dentro da minha liderança. Acho que aquilo já denotava alguma questão interna do PS de Abrantes, não era bem comigo.

O que pensa do abandono do mandato a meio para ir para secretária de Estado?

Ela não podia recandidatar-se à câmara e era preciso olhar para o dia seguinte. O convite para o Governo tem a ver com a qualidade que ela demonstrou na gestão no trabalho político.

Mas sabe que ela já andava há algum tempo a tentar ir para o Governo.

Sabia que tinha essa pretensão de sair da câmara para outro lugar. Falei a alguém disso, a seu tempo, há muito tempo, mas não para esse caso concreto. Isto só depende do primeiro-ministro e ele achou, e muito bem, que ela era merecedora da sua confiança pela qualidade e pelo conhecimento que tinha nos dossiês na área do desenvolvimento regional.

Mas já deve ter ajudado alguns…

Há pessoas que hoje são chefes de gabinete de membros do Governo porque os ajudei a terem um protagonismo distrital e nacional. Não sou de cobrar favores. Mesmo quando as pessoas são injustas comigo.

Como é que consegue dar-se bem com Deus e com o Diabo?

Não conheço o Diabo, só conheço Deus. No hemiciclo sento-me na cadeira mais à direita, encostado ao PSD. Não faço nada na minha vida por acaso e faço isto porque sou um social-democrata no PS. É da combinação das políticas sociais e da intervenção do Estado na economia, regulando-a, que as sociedades evoluem.

É PRECISO OLHAR PARA OURÉM COM VISÃO CRÍTICA

Sente-se responsável por o PS ter perdido as eleições em Ourém?

Tenho a minha quota de responsabilidade, claro. Como dirigente distrital e como dirigente local. Claro que perdemos porque o nosso candidato não pôde ir a jogo (o tribunal recusou a candidatura por estar insolvente). O Paulo Fonseca sempre me deu, do ponto de vista pessoal e político, todas as razões para confiar nele e continua a dar.

Tem a noção que agora será muito mais difícil reconquistar a câmara?

A sensação das pessoas é que não se passa nada. Mudou a gestão da câmara, mas não houve mudança. Não há nenhum projecto novo financiado por fundos comunitários. É preciso olhar para o concelho de Ourém com uma visão crítica e construtiva.

A amizade com Carlos Santos Silva e a condenação por venda de um apartamento

Em 2015 foi apanhado em escutas telefónicas da Operação Marquês, em conversas com Carlos Santos Silva.

Sou amigo de Carlos Santos Silva há muitos anos. Conheci-o por causa de um projecto de um prédio do meu pai. As 67 chamadas que estão gravadas são todas sobre almoços e jantares. Sei que houve extracção da certidão para investigação, mas já lá vão cinco anos e nunca me perguntaram nada.

Isso afectou a sua imagem?

Não. No dia em que gravaram essa conversa, o engenheiro Carlos Santos Silva teria estado numa reunião com um tipo da Venezuela e a seguir telefonou-me. Tínhamos marcado um jantar. Partiram do pressuposto que a pessoa da reunião vinha jantar connosco. Com o engenheiro Sócrates só falei uma vez enquanto ele era primeiro-ministro e duas antes dele ser eleito.

Nunca mais falou com o ex-primeiro-ministro José Sócrates?

Já falei várias vezes depois dele ter saído da prisão. Não o fui visitar porque não o considero meu amigo, mas fui visitar Carlos Santos Silva quatro vezes porque é meu amigo, uma pessoa que prezo muito e um grande ser humano.

Porque é que não se dava com Sócrates?

Acho que ele foi enganado. Houve várias pessoas que o circundavam e que, por diversas razões, lhe deram más informações minhas.

Como é que um deputado se mete numa caldeirada que o leva a ser condenado por se apropriar de dinheiro na venda de um apartamento?

A senhora pôs uma acção contra mim a reivindicar o dinheiro onze anos depois. A história é simples. Telefonou-me um amigo de França a dizer que o pai de uma amiga dele tinha sido preso por pedofilia. A filha vem no dia a seguir de Paris e queria o melhor advogado do país e indiquei o Romeu Francês. Mas ela não tinha dinheiro para pagar. Passado um ano consegui vender um apartamento dela no pior prédio de Leiria por 45 mil euros para pagar a defesa. Nunca fiquei com um cêntimo de alguém na minha vida.

Mas foi à Austrália com uma mala com dinheiro para fazer contas com a senhora.

Foi um envelope com 12.500 euros, que era o dinheiro que sobrava e entreguei-lho. Não fiquei com dinheiro nenhum. Ela pediu-me que pagasse em dinheiro. A questão foi que ela nunca mais veio a Portugal e não pagou os impostos. Depois viu-se confrontada com a penhora das casas dos pais e achou que a tinha enganado e que eu tinha que pagar os impostos pela venda do apartamento.

Mas foi descontado dinheiro de obras no apartamento, mas não havia facturas.

Havia factura, havia tudo. O tipo que foi condenado a nove anos de prisão efectiva por pedofilia e o António Gameiro, como é político, é um tipo que não tem credibilidade.

Foi tramado?

Guardei os papéis num caixote na empresa do meu padrinho de casamento e de baptismo da minha filha. Ele mudou as instalações da empresa duas vezes. Não encontrei os documentos a tempo do julgamento. Fiz um requerimento ao BPI para me dar o extracto das transferências de 2003 e 2004 que fiz para ela. Só que o banco não tinha isso informatizado. Acabei por pagar. Não tinha o dinheiro, mas alguém me emprestou. Aquilo foi mesmo má-fé. Acha que vou daqui para a Austrália e não faço contas com ela e deixo passar onze anos para a mulher me pôr uma acção?

Barragens no Tejo para a agricultura deve ser um projecto mobilizador

O que pensa do projecto de criar um sistema de abastecimento de água do Tejo, uma espécie de Alqueva?

É um projecto que também tem a minha mão. Numa primeira fase tinha sido percepcionado de maneira errónea por parte do Governo. Foi possível explicar aos membros do Governo o que estava em causa e trazer o senhor ministro da Agricultura para este projecto e já disse que os fundos comunitários estão disponíveis para candidaturas de construção faseada dos diques. Temos condições para uma candidatura no quadro comunitário de 2021 a 2027. É um projecto de uma dimensão, até do ponto de vista intelectual, que nos deve mobilizar.

Jorge Lacão foi quem colocou o Tejo na agenda política, mas nada foi feito e parece que o rio deixou de ser importante.

O PS e eu próprio temos defendido sempre o Tejo. Outros políticos andaram com o Tejo na boca, mas não fizeram nada. O mandato onde houve investimento no Tejo foi neste. Investiram-se 12 milhões nas limpeza das lamas que eram uma das principais fontes de poluição. Terminámos um conjunto de investimentos nas margens do Tejo e as 55 ETAR’s que têm vazamento para o Tejo foram requalificadas. Sublinho o papel determinante dos presidentes das câmaras de Lisboa e de Vila Franca de Xira, que chamaram à atenção para a questão do assoreamento. Acho que no próximo quadro comunitário de apoio vamos ter fundos para desassorear o Tejo.

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