Entrevista | 30-06-2020 12:30

“Dói ver um aluno desistir da escola”

“Dói ver um aluno desistir da escola”
IDENTIDADE PROFISSIONAL

José Ramalho é professor e presidente do conselho geral do Agrupamento de Escolas de Benavente.

É um erro baseado num estigma que há muito devia ter sido ultrapassado, obrigar os alunos com notas baixas a frequentar o ensino profissional. Primeiro porque um curso profissional exige a consciência de uma vocação, depois porque se olha para este modelo de ensino como um depósito de insucessos escolares, desvalorizando-o. A opinião é de José Ramalho, professor e actual presidente do conselho geral do Agrupamento de Escolas de Benavente, docente há 40 anos e cujo percurso escolar passou, precisamente, pelo ensino profissional.


“Escolhi o curso geral de mecânica porque desde que me lembro gostava de montar e desmontar coisas. Embora já soubesse que queria ser professor, isso não me impediu de frequentar um curso mais prático que me cativava”, explica, criticando o facto de se continuar a achar que o ensino profissional “é para os alunos que não têm sucesso no ensino regular”.


“É um estigma absurdo, com base na pura ignorância”, atira, evidenciando que “nem todos podem ser doutores” para fazer a vontade às expectativas dos encarregados de educação. “A sociedade também precisa de serralheiros, electricistas e mecânicos”, que se tiverem sucesso podem até ser “mais bem pagos que enfermeiros”, diz o professor de Educação Visual e Tecnológica e Tecnologias de Informação e Comunicação.

“É cada vez mais difícil ser-se professor”

José Ramalho, natural de Lisboa a viver em Santo Estêvão há mais de 15 anos, dá aulas a duas dezenas de alunos dos Cursos de Educação e Formação (CEF) de Serralharia Mecânica e Cuidador de Crianças. “Este ano foi uma vitória ter tido apenas uma desistência. Dói muito a um professor ver um aluno desistir da escola”, diz, observando que alguns além de pertencerem a famílias desestruturadas, não querem ser serralheiros nem cuidar de crianças. E, neste último ponto, “é a falta de oferta que obriga a escolhas erradas”, afirma, apontando o dedo às restrições impostas pelo Ministério da Educação na abertura de cursos.


Começou a dar aulas aos 18 anos, na Escola Secundária de Santa Maria, em Sintra, mas acredita que “é cada vez mais difícil ser-se professor, porque a sociedade tem vindo a perder valores e a desenvolver mais problemas sociais” que se reflectem na relação aluno-docente. “O professor já foi considerado um Deus a quem os encarregados de educação davam presentes e eram agradecidos. Agora educamos jovens que não são educados em casa”, com a agravante de a valorização da profissão ter caído a pique.


O professor nota que as regras deixaram de ser impostas para passarem a ser “negociadas entre professores e alunos” ou dificilmente são respeitadas. Uma mudança que não o aflige, mas que se distancia do tempo em que começou a leccionar. O que não pode faltar é, acima de tudo, o respeito. “Essa é uma linha que tem de estar muito bem definida nesta profissão e jamais pode ser ultrapassada. Para quem gosta do que faz, como eu, é fácil, mas para quem não tem vocação torna-se difícil lidar com 20 jovens, com formas de agir e pensar diferentes”, diz a O MIRANTE.


José Ramalho, que chegou a frequentar o curso superior de Engenharia Civil, nunca teve outra profissão que não a de professor, mas já deixou de leccionar para exercer outros cargos ligados à educação. Foi director do Agrupamento de Escolas de Benavente e trabalhou na antiga Direcção Regional de Educação de Lisboa, onde ajudou à implementação de um projecto para a aplicação de novas tecnologias para alunos com necessidades educativas especiais.


Diz-se um homem que não gosta de estar parado, motivo que o levou a ligar-se ao associativismo e à política. Integra os órgãos sociais da Sociedade Filarmónica de Santo Estêvão, onde também faz teatro e é eleito pelo PSD na Assembleia Municipal de Benavente. A participação activa na política pode até, admite, deixar de lhe soar bem, já o toque de entrada na escola vai ser sempre melodia para os seus ouvidos. “Gosto de ser professor. Sinto que tenho vocação e nunca equacionei deixar de o ser”, conclui.

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