O MIRANTE TV | 25-10-2021

Jornalistas são Prémio Nobel da Paz pela primeira vez

Prémio Nobel da Paz, Maria Ressa, esteve em Portugal em 2018 no congresso Mundial de Jornalista onde ganhou a Caneta de Ouro da Liberdade.

"Os novos guardiões da democracia são as empresas de tecnologia”; foi com estas palavras que Maria Ressa, jornalista das filipinas que ganhou este ano o prémio Nobel da Paz, em conjunto com o jornalista russo Dmitry Muratov, discursou em Março de 2018 no Estoril onde se realizou o 70º Congresso Mundial de Jornalistas que reuniu em Portugal os mais influentes profissionais do sector de todo o mundo. Uma das iniciativas mais importantes do congresso, que teve o patrocínio de O MIRANTE, foi a atribuição da Caneta de Oiro da Liberdade a Maria Ressa. David Callaway, presidente do World Editors Forum, apresentou a jornalista e directora executiva da empresa Rappler, das Filipinas, como uma jornalista verdadeira exemplar. Na altura David Callaway deu conta que Maria Ressa e a sua empresa sofreram vários ataques do poder político das filipinas. “Nos piores períodos ela contou 90 ataques pessoais por hora, desde mensagens virtuais até notícias nos media. Estupro e ameaças de morte, mensagens direccionadas para si e para a sua família, extensivas aos repórteres do Rappler, fazem com que o trabalho de informar seja uma actividade perigosa nas Filipinas”, disse na altura David Callaway, perante uma plateia repleta dos mais influentes jornalistas e editores do mundo.

JORNALISTAS DE TODO O MUNDO TRABALHAM EM CONJUNTO

A atribuição do Prémio Nobel da Paz a dois jornalistas, coisa inédita e surpreendente, está longe do impacto da revelação contida nos Panamá Papers e Pandora papers, nomeadamente dos nomes famosos da política e da sociedade, envolvidos em esquemas de corrupção financeira.

O total de informação é de tal modo gigantesca que as empresas de comunicação, que tiveram acesso aos documentos, organizaram-se num consórcio internacional de jornalistas que juntam os títulos mais prestigiados do mundo; Até há pouco tempo estavam envolvidos nestas investigações jornalistas de mais de 90 jornais e outros órgãos de informação de mais de 120 países. Os milhões de documentos comprometedores para centenas de dirigentes políticos e empresários fez com que fosse criada uma gigantesca base de dados estruturada que permite aceder em poucos segundos aos documentos, um labor de classificação e inter-relação entre os documentos, inédita na história do jornalismo.

O caso Rui Pinto, também com repercussão mundial, é outro exemplo do paraíso perfeito em que vivem alguns dirigentes políticos e desportivos, seja ao nível do mau funcionamento da Justiça seja dos governantes que não promovem a reforma do sistema e permitem as maiores injustiças

Enquanto a actividade jornalística vai provando que esta é uma das melhores formas de defender a democracia, e de lutar contra o poder dos mais ricos e corruptos, o jornalismo perde todos os dias a batalha da sobrevivência. Tal como disse Maria Ressa no Congresso de Jornalistas no Estoril, em Março de 2018, as empresas de tecnologia tomaram conta do mercado que dominam a seu belo prazer; primeiro conquistaram o mercado publicitário e agora vão conquistar o mercado dos leitores que vão ler apenas aquilo que eles entenderem que é informação e jornalismo. Bem-vindos ao século XXI e ao ano em que dois jornalistas, uma das profissões que atravessa a maior crise de sempre, ganham o Prémio Nobel da Paz.


Quem são os dois jornalistas que ganharam o Prémio Nobel da Paz

Os jornalistas Maria Ressa e Dmitri Muratov foram distinguidos com o prémio Nobel da Paz. O galardão foi atribuído de forma conjunta “pelos seus esforços de salvaguarda da liberdade de expressão” que o Comité Nobel Norueguês considera ser uma “condição para a democracia e a paz duradoura”. Os laureados representam, assim, “todos os jornalistas que defendem este ideal num mundo onde a democracia e a liberdade de imprensa enfrentam cada vez mais condições adversas”.

Maria Ressa é a directora e fundadora do site filipino Rappler. A jornalista, crítica de Rodrigo Duterte e da “campanha antidroga do regime”, foi acusada de “ciberdifamação” e chegou a ser detida na redacção onde trabalhava em 2019 devido a um artigo publicado anos antes, em 2012, sobre um empresário filipino e as suas ligações a um juiz. Ressa foi detida à luz de uma lei aprovada quatro meses após a publicação da notícia e foi libertada algumas horas depois da sua detenção.

Numa reacção em directo para o Rappler, Ressa declarou depois de saber da atribuição do prémio: “Digo desde 2016 que estamos a lutar pelos factos”. Nesta guerra “onde os factos são discutíveis, quando o maior distribuidor de notícias do mundo prioriza as mentiras misturadas com a ira e o ódio e dissemina-as mais rápido e mais longe do que os factos, então o jornalismo torna-se activismo.”

Dmitri Muratov é um jornalista russo e chefe de redacção do jornal Novaia Gazeta – considerado pelo Comité de Protecção de Jornalistas como “o único jornal crítico com influência nacional na Rússia actual”. Fundado em 1993 por um grupo de jornalistas saídos do Komsomolskaia Pravda, o jornal contou com uma ajuda inicial do Prémio Nobel da Paz de 1990, atribuído ao antigo presidente Mikhail Gorbatchev.

O jornal afirmou-se através de investigações sobre temas como corrupção ao mais alto nível, violações dos direitos humanos e abuso de poder. Não sem consequências: pelo menos três jornalistas do Novaia Gazeta morreram — a última vítima foi Anna Politkovskaia, que escrevia sobre a Tchetchénia e o Cáucaso Norte.

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