Opinião | 07-11-2019 07:00

Última Página: Empobrecer devagarinho no Ribatejo

Os agricultores não têm quem os defenda. A CAP é uma associação de negócios gerida por profissionais de negócios. Os preços dos produtos agrícolas estão nas mãos dos donos disto tudo.

Os produtores de arroz entregam todos os anos o cereal nas fábricas desconhecendo o preço que vão receber por cada quilo. É assim há muitos anos e pelos vistos assim vai continuar. Ouço com frequência os produtores de milho queixarem-se dos habituais esquemas das cooperativas e indústrias com a taxa de humidade do produto dando a entender que estão nas mãos de quem controla as máquinas e os critérios e não têm como contrariar aquilo que muitos consideram abuso de confiança.

Os produtores de tomate são cada vez menos e o milho, a aveia e o girassol quase que desapareceram como culturas alternativas para descansar a terra das culturas mais agressivas. A nossa agricultura, como escrevemos neste jornal recentemente, não encontra mão-de-obra com facilidade e quem a sustenta neste momento são as pessoas maiores de 65 anos e muitos imigrantes que, pelo que sabemos, são quase escravizados.
Não há para o sector agrícola, como para outros sectores importantes da economia do nosso país, políticas de defesa dos agricultores mas também dos consumidores.

Ao Governo interessa o controlo das associações e às associações interessam Governos que lhes dêem dinheiro fácil para manterem as suas estruturas associativas sem grandes dores de cabeça. É o caso da CAP, Confederação dos Agricultores de Portugal, que se tornou uma associação de negócios em vez de uma associação de defesa dos agricultores. Com todas as dificuldades que o sector agrícola atravessa, com os problemas dos preços controlados pelos industriais e pelas cooperativas, com a falta de mão-de-obra, com a falta de controlo no uso de pesticidas e afins, a CAP e todas as associações do género são estruturas ricas, cheias de gente acomodada, que sustenta políticos e políticas que se marimbam para a agricultura e para os agricultores.

Os olivais de Santarém mudaram-se para o Alentejo por que construíram por lá o maior lago da Europa. Não é para os alentejanos voltarem à terra e terem qualidade de vida. É para os agricultores espanhóis transferirem os olivais da Andaluzia para o Alentejo, porque em Espanha a água escasseia. No Ribatejo, mais ano menos ano, vai acontecer exactamente o mesmo drama. Com a falta de agricultores, e a falência do negócio da agricultura familiar, vamos ter a lezíria do Tejo por conta dos grupos que dominam os negócios da saúde, das auto-estradas, dos supermercados, das barragens, das exportações e importações, e tudo o que realmente mexe e dá dinheiro.

A prova de que a CAP e os capitalistas encostados às organizações de agricultores estão a aproveitar-se do país mal governado é a politica de preço dos produtos agrícolas. Como os pequenos agricultores não têm voz que se ouça junto dos poderes, e a CAP só existe para defender os seus negócios, um dia destes vamos todos viver para o litoral e sobreviveremos da pesca. As propriedades da lezíria começarão a ser vedadas como já são as da charneca e os ribatejanos vão trabalhar para a Uber ou, em alternativa, pastarão ovelhas na beira das estradas. JAE

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