O inferno à porta de casa
Moradores do Flecheiro, Tomar, estão fartos das promessas da câmara
A paciência dos moradores do Flecheiro chegou ao fim. São os tiros dos ciganos, a usurpação do seu espaço pelos vendedores ambulantes, e os montes de lixo deixados à porta de casa.
Os moradores da zona do Flecheiro, em Tomar, estão fartos de viver enclausurados todas as sextas-feiras. Não podem tirar os carros das garagens, ficam com as ruas literalmente ocupadas pelas bancas dos vendedores e, no final do dia, têm de ver onde põem os pés para não pisar o lixo. Há mais de uma década venderam-lhes o paraíso. Hoje dizem viver num inferno.O Volkswagen Passat azul, modelo recente, estava estacionado no parqueamento em frente a um dos prédios do largo do Flecheiro. Pouco depois das nove da manhã chega a polícia e reboca o automóvel, bem estacionado, para cima do passei. Uma manobra “artística” para que, no lugar antes ocupado pelo carro, se possa montar uma banca de venda ambulante.A caricata situação aconteceu na última sexta-feira em Tomar e foi a gota de água que fez transbordar a paciência dos moradores do Flecheiro. Depois de anos a sofrer em silêncio, os habitantes daquela zona prometem ir à luta e defender um local que há uma década atrás era um paraíso e que pouco a pouco se transformou num inferno.“Todas as sextas feiras nós, os moradores, ficamos aqui aprisionados”, refere alguém que ali vive vai para mais de 15 anos. Além de acordar de madrugada com o barulho dos feirantes a montarem as tendas, os moradores vêem-se impedidos de se poder deslocar de automóvel, uma vez as bancas ficam em frente aos portões das garagens.“E quem tem o carro cá fora ou sai de casa pela madrugada ou tem de se deslocar pela cidade a pé”, afirmam, adiantando que a situação está a piorar de semana para semana. “Estão a tirá-los (aos vendedores) do lado de lá do rio e a pô-los aqui, à frente das nossas casas”, desabafam os moradores sem quererem, contudo, dar a cara.Preferem fazer as coisas “do modo mais correcto”. Por isso preparam já um abaixo-assinado que será entregue numa das próximas reuniões públicas de câmara por alguns representantes. “A câmara será a primeira a saber quem somos e o que queremos”.O que querem é viver sem os sobressaltos provocados pelas zaragatas de tiros e facadas das famílias ciganas que habitam a poucos metros da rua, poderem sair e entrar quando lhes apetece de suas casas e não terem, todas as sextas-feiras, uma lixeira à porta de casa, que deixa no ar um cheiro nauseabundo provocado por restos de comida, fraldas sujas e “outras porcarias”“A autarquia anda há anos a dizer que o mercado vai sair daqui mas não passa das palavras. Pelo contrário, agora além do mercado semanal também cá temos a feira de Santa Iria. Quem é que aguenta isto?”, referem.Há dois anos o executivo camarário decidiu mudar a feira de Santa Iria da Várzea Grande, junto ao Tribunal, para a zona do Flecheiro. Na altura a autarquia justificou a decisão com o facto de ir ser construído naquele espaço um parque de estacionamento. Dois anos volvidos, a Várzea Grande continua em terra batida e com estacionamento desordenado.Enquanto isso, os moradores do Flecheiro continuam a levar com carrosséis, carros de choque e afins. E com tiros perdidos. A acordar com os feirantes, a não poder sair com os seus carros e a pisar os montes de lixo deixados a cada sexta feira de mercado. Margarida Cabeleira Câmara admite que actual situação é insustentável de manterMercado semanal sai do FlecheiroO mercado semanal de Tomar, realizado todas as sextas feiras na zona do Flecheiro, vai sair daquele local. É esta a solução encontrada pela autarquia para acabar com os montes de lixo deixados pelos feirantes.Num raio de cem metros aglomeram-se caixotes de papelão, grandes sacos de lixo pretos. Uma profusão de sacos de plástico transparentes e mais um sem número de detritos. É uma autêntica lixeira a céu aberto que, quando o vento está de feição, se arrasta até às águas do rio Nabão, que passa ali ao lado.Os cães juntam-se solidários e revoltam ainda mais o lixo, à procura de restos de comida, misturando-se com a meia dúzia de pescadores amadores que, também eles, tentam fisgar algo para o jantar.A autarquia já tentou de tudo - pôs mais contentores, distribuiu sacos do lixo aos feirantes. Mas o cenário pouco mudou, como admite o vereador do pelouro. Ivo Santos confirma que a feira vai ter de mudar de local a breve prazo. Mas não adianta datas...Enquanto ainda se estuda locais alternativos para a transferência do mercado, a câmara avança agora com uma solução “provisória” para minorar a situação, “insustentável de manter por muito tempo”. O reordenamento do espaço é a palavra mágica.“Logo após a feira de Santa Iria vamos contactar os vendedores, no sentido de reordenar as barracas e tendas sem pôr em causa o bom funcionamento do mercado”. O objectivo, diz o vereador, é fazer com que cada feirante fique responsável pela limpeza do espaço que lhe é atribuído.Uma responsabilização que poderá ditar a permanência ou não de cada feirante no mercado das sextas feiras. Quem cumprir, irá ter melhores condições de venda, quem continuar a não se importar com a limpeza e higiene do espaço que ocupa deixará, simplesmente, de vender em Tomar. A autorização que o município fornece aos feirantes para a venda ambulante é passada semanalmente. Por isso, quem não cumprir com as novas regras numa sexta-feira pode ver negada a autorização para a semana seguinte.Questionado sobre se o mercado não correrá assim o risco de ficar cada vez mais pobre, em termos de venda, Ivo Santos afirmou não acreditar que os vendedores continuem a ser irresponsáveis. “Se isso acontecer, o mercado só tem a ganhar. Podem ficar menos vendedores mas ficam os melhores”.Quanto à mudança de local o vereador considera-a inevitável, mais tarde ou mais cedo. A grande incógnita parece mesmo ser para onde. Apesar das várias alternativas postas em cima da mesa, o próprio executivo camarário continua a não apontar uma localização definitiva.
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