“O rugby é um jogo de brutos jogado por inteligentes”
Ribatejano Salvador Palha esteve no Campeonato do Mundo
O jogador de Samora Correia que representou a selecção de Portugal no último jogo com a Roménia partilha com O MIRANTE a emoção sentida no mundial onde o objectivo era perder por poucos. Salvador Palha, 23 anos, ambiciona ser profissional de rugby no estrangeiro e garante que este é um jogo onde a inteligência conta mais que a força.
Salvador Palha, o que representa para si a participação no Campeonato do Mundo de Rugby?Foi a concretização de metade de um sonho porque o sonho por inteiro era ter ido no início e eu só fui a meio do mundial para substituir um colega que se lesionou.O que é que sentiu quando recebeu a chamada para se apresentar?Estava como primeiro reserva e sabia que era provável ser chamado. Numa competição destas as lesões são frequentes e eu continuei a treinar a pensar que a qualquer momento seria chamado.Ficou desiludido por não ter integrado a comitiva desde início?É lógico que fiquei muito triste, mas encarei as opções com normalidade. Tenho dois bons jogadores na minha posição e o técnico optou por me deixar de fora.Esperava esta reacção do país à participação no Mundial?Isso é que foi uma surpresa muito gratificante. Fomos reconhecidos em todo o mundo pelos portugueses e pelos outros povos. Fomos aplaudidos até pelos nossos adversários.O apoio dos portugueses em França foi incansável. Parecia que jogavam em casaCompletamente. Estádios cheios com bandeiras portuguesas. Os jogos acabavam o público permanecia para nos aplaudir à espera que déssemos uma volta ao campo.Como é que foi ouvir o hino português antes do jogo?Para um jogador de rugby, o hino é o início do jogo e representar o país é uma sensação forte. É para isso que trabalhamos todos os dias e fazemos um grande esforço. Adoro representar o meu país e é uma emoção cantar o hino com 40 mil pessoas a vibrarem com um símbolo do meu país.Os ‘lobos’ cantaram o hino com uma garra pouco habitual nos atletas de outras modalidades…Para nós cantar o hino foi um sonho que alimentámos durante muito tempo. Estar no mundial foi uma alegria enorme. Para um futebolista da selecção é apenas mais um jogo, talvez por isso não exista tanta emoção.É oriundo duma família de aficionados ligados aos toiros e aos cavalos. Como é que surge o rugby na sua vida?Nasceu com uns primos que toda a vida jogaram rugby. Um deles, Domingos Megre, jogador do CDUL Abertura, foi internacional e um jogador de grande nível. Foi ele que começou a levar-me para o CDUL. Foi lá que aprendi, fiz a minha escola e formei-me como jogador. Depois fui para o Direito onde ainda estou.É aficionado pela festa brava?Agora estou mais aficionado por causa do meu irmão (o cavaleiro Francisco Palha). Gosto de o acompanhar nas corridas para lhe dar apoio e espero que ele tenha sorte. A presença da família e dos amigos é muito importante nas arenas e nos relvados do rugby.Nunca teve a tentação de ser toureiro?Fui forcado. Fiz algumas pegas nos grupos de Vila Franca (juvenis) e Santarém.É mais difícil pegar um toiro ou placar um adversário?Não tem comparação. Para ambas é preciso muita coragem, arte e inteligência.O rugby é um jogo de brutos ou de inteligentes?O rugby é um jogo de brutos jogado por inteligentes e o futebol é um jogo de inteligentes jogado por brutos. Cada vez se vê mais maldade e anti-jogo no futebol enquanto que no rugby não há essas macaquices. É um jogo de união de esforços dos 15 jogadores para vencer um combate corpo a corpo.Gostava de vir a ser profissional de rugby no estrangeiro?Eu adorava ser profissional e dedicar-me mais ao rugby. Penso que o mundo descobriu em Portugal um conjunto de jogadores que podem vir a ser convidados para jogar no estrangeiro. Somos um mercado a explorar porque temos boa matéria-prima e barata.Como é que se motiva um jogador para perder por poucos?Em Setembro do ano passado jogámos com a Itália para ganhar e perdemos 83-0. A motivação da equipa técnica era para ganhar o jogo. Neste mundial traçámos outros objectivos mais modestos e conseguimos melhores prestações.A vitória com a Roménia fugiu por pouco?Esse jogo era para ganhar, mas não conseguimos. Perdemos por quatro pontos. Não é nada, mas não deixa de ser uma derrota.Trabalha como gestor de produto. Como é possível conciliar a profissão com a exigência das competições e dos treinos?Felizmente tenho uma empresa que me apoiou ao máximo. Trabalho na Carmo (empresa de transformação e comércio de madeiras) desde Junho e dera-me a possibilidade de fazer a preparação no Canadá durante 15 dias mais uma semana no Algarve. Depois estive no campeonato do mundo. Em três meses estive 1,5 meses fora da empresa e eles compreenderam e ajudaram-me imenso. Sem este apoio teria perdido o emprego para poder ir ao Mundial.
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