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A mecânica não se aprende só nos livros é preciso sujar as mãos

A mecânica não se aprende só nos livros é preciso sujar as mãos

Nuno Jorge tem 43 anos e dá continuidade ao negócio familiar em Vale do Paraíso, que gere em sociedade com o pai e o irmão

Edição de 23.01.2019 | Identidade Profissional

Com 16 anos começou a sujar as mãos na oficina do pai, enquanto sonhava fazer carreira militar nas Forças Armadas. Desistiu do sonho à medida que ia crescendo a aptidão para a mecânica. O mecânico de Vale do Paraíso, Azambuja, defende que os jovens não devem ser pressionados a entrar no ensino superior e refere que essa pressão faz com que profissões como a de mecânico de automóveis estejam a enfrentar uma crise de mão-de-obra.

“Nem todos temos de ir para a faculdade. Incute-se nos jovens que o ensino superior é o caminho certo a seguir e isso é errado”, afirma. Um mecânico, explica Nuno Jorge, “se souber desempenhar bem o seu trabalho consegue ser tão bem pago quanto um licenciado”.
Nuno Jorge, mecânico há 25 anos, já perdeu a conta aos carros que lhe passaram pelas mãos, mas garante que essa profissão é uma paixão que está para durar. Emprego só teve este, como mecânico na oficina Jorge & Filhos, em Vale do Paraíso, que gere em sociedade com o pai, José Jorge, e o irmão, Sérgio Jorge.
Aos 16 anos saía da escola e ia directo para a oficina. Aos poucos foi aprendendo a arte, mas na altura o sonho era outro: “Queria ser militar num ramo das Forças Armadas ou na GNR. Sempre tive fascínio por fardas”, conta a O MIRANTE. Na escola gostava de história e geografia e fugia a sete pés da matemática. “Ainda ponderei em seguir o ramo do ensino, mas hoje não acho que tivesse vocação para dar aulas”, conta.
Teve o apoio da mãe, que o incentivou a seguir o ensino superior, mas Nuno não se convenceu. “O meu pai investiu muito dinheiro nesta oficina e precisava de ajuda para vencer os pedidos dos clientes. Decidi vir aprender para um dia, juntamente com o meu irmão, podermos dar continuidade ao negócio”, diz.
Nuno Jorge teve uma infância feliz, num ambiente pacato e rural. Com 14 anos aprendeu a ler música e a tocar saxofone na Filarmónica de Vale do Paraíso. Um gosto que perdura até hoje. Embora não consiga acompanhar todos os ensaios da banda, porque tem de dividir o tempo entre o trabalho e a família, tenta ir pelo menos a um ensaio por semana.
Desde 1994 a trabalhar na oficina fundada pelo seu pai há 29 anos, especializou-se na metalurgia como mecânico bate-chapas. Entra ao serviço às 08h00 e antes das 19h00 não sai da oficina. Trabalho “felizmente não falta”, mas a mão-de-obra é escassa. “Temos connosco um funcionário há vários anos, mas precisávamos de mais um ou dois. Nos dias de hoje é muito difícil contratar um profissional com experiência no ramo da mecânica. Já passaram por cá muitos que tentamos ensinar, mas desistem facilmente”, lamenta.

“É a experiência que dá o calo”
Nuno Jorge é da opinião que em qualquer actividade, os profissionais devem procurar aprofundar o seu conhecimento. Frequenta regularmente acções de formação na área da mecânica, mas confessa que nunca sentiu necessidade de tirar um curso superior. “Nesta profissão não há um livro que ensine. É a experiência que dá o calo”.
Especialista em bate-chapa, também trabalha situações de mecânica rápida, como a mudança de óleo e substituição de peças, e é responsável pela parte administrativa, que inclui pagamentos, identificação de peças e pedidos de encomenda aos fornecedores.
Depois de ter esquecido a carreira militar fez da oficina o seu teatro de operações e garante que o negócio corre bem. “Este ano estamos a ter mais 30 por cento de trabalho do que em igual período do ano passado. Temos uma boa carteira de clientes e todos bons pagadores”, diz.
Nuno Jorge diz ser um homem que mantém a calma perante o caos e que não gosta de falhar no prazo de entrega do veículo. “O cliente deposita em nós a sua confiança e nós temos que provar que a merecemos. Não descanso enquanto não tiver o carro reparado no prazo que estipulei e só perco a calma quando uma peça não chega no tempo previsto, mas essa situação não depende de mim”, afirma.
O grau de exigência que a família Jorge coloca no seu trabalho faz com que os clientes se fidelizem e “tragam novos clientes”. Na oficina Jorge & Filhos a transparência é fundamental. “Quando o cliente entrega o carro faz-se o diagnóstico e o orçamento”. E quando sai “já sabe quanto vai ter de pagar aquando da entrega”.

A mecânica não se aprende só nos livros é preciso sujar as mãos

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