Sociedade | 23-12-2018 10:00

“Os agricultores estão no fio da navalha”

“Os agricultores estão no fio da navalha”
IDENTIDADE PROFISSIONAL

António Cartaxo tem 55 anos e é técnico comercial há nove na Benagro- Cooperativa Agrícola de Benavente

Está ligado à agricultura desde os 18 anos e teme pelo futuro da actividade devido ao desinteresse das novas gerações. António Cartaxo diz que as indústrias pagam um valor justo pelo produto e que em Portugal não é possível um agricultor sobreviver sem subsídios públicos.

O número de agricultores na região tem decrescido e há cada vez menos jovens entre eles. Grande parte já ultrapassou a idade da reforma e sobrevive com os subsídios dados pelo Estado e União Europeia. Conseguir um bom preço pelo arroz na indústria é um desafio constante para as organizações de produtores. Essa é a perspectiva de António Cartaxo, 55 anos, técnico comercial há nove anos na Benagro - Cooperativa Agrícola de Benavente. Natural de Coruche, leva uma vida dedicada ao sector agrícola, em especial à cultura de arroz na lezíria ribatejana.

António Cartaxo diz que “há 10 anos que não aparece gente nova na agricultura”. Recentemente teve a confirmação: “Numa sala com 150 agricultores apenas quatro tinham menos de 40 anos. Antigamente filhos de agricultores seguiam as pisadas dos pais. Uma realidade que deixou de ser viável porque, hoje, pouco sobra depois de serem saldados os custos de produção”, refere.

“Não há nenhum agricultor que não tenha saudades do tempo passado. Há muita dificuldade em rentabilizar o lucro. Os agricultores estão no fio da navalha, porque a agricultura deixou de ser sustentável, por culpa do mercado”, sublinha.

O percurso profissional de António Cartaxo começou a desenhar-se na sua infância, em Coruche, onde cresceu no meio do campo a ajudar os pais, ora na sementeira e na colheita, ora na ordenha das vacas leiteiras. Estudou até ao 12º ano e sem possibilidade de seguir para o ensino superior foi trabalhar para a Sanivegetal, empresa agrícola já extinta. “Foi o meu berço profissional. Era responsável por cinco aviões que faziam a sementeira do arroz”, diz.

Acabou por interromper o seu percurso para cumprir, à época, o serviço militar obrigatório, em Lamego. “Foram 17 meses e 13 dias de tropa, que valeram pelos valores transmitidos e pelas amizades. Ali dava-se sentido ao lema: um por todos e todos por um”, conta. O telemóvel toca, durante a conversa com O MIRANTE e ouve-se a música “Satisfaction”, dos The Rolling Stones. Entre risos, António Cartaxo explica que era a música que tocava no quartel a meio da noite e que os obrigava a ir para a parada. “Voltávamos para as camaratas tomos molhados e cobertos de lama, mas felizes”, recorda.

Numa tentativa de perseguir o seu sonho de infância - ser piloto - António Cartaxo concorreu à Força Aérea Portuguesa. Chumbou por ter quatro quilos de peso a mais. Regressou à Sanivegetal e continuou a voar ao lado do piloto que traçava a rota aérea entre os campos de arroz.

“Os subsídios agrícolas não bastam”
A O MIRANTE assegura que é apaixonado pela agricultura e que só é bom no que faz porque a prática no campo e “as lições dos agricultores” fizeram dele o profissional que é hoje. “Chamavam-me engenheiro, mesmo antes de o ser”, conta. O desafio estava indirectamente lançado e António Cartaxo aceitou-o. Aos 46 anos entrou para a Escola Superior Agrária de Santarém e licenciou-se em Engenharia Agronómica, com média final de 12 valores. “Não me esforcei muito, reconheço. Mas sem dúvida que aprofundei os meus conhecimentos”, diz.

É na Benagro, como técnico comercial, que trilha o seu caminho profissional desde 2009. “De Fevereiro a Outubro, os dias de trabalho duram 16 horas e o telefone toca mais de duas centenas de vezes, todos os dias”, conta. “A produção de arroz é sazonal, como tal, nos restantes meses do ano o trabalho acalma”, acrescenta.
É responsável por 4.500 hectares de plantação de arroz, de 74 produtores. Como técnico, realiza análises à água e aos solos antes da cultura, aconselha os fertilizantes indicados e acompanha todo o ciclo até à colheita.

Depois ainda tem a missão de negociar com as empresas o melhor preço para comercializar o produto. “O arroz já chegou a ser vendido a um euro, infelizmente hoje fixa-se nos 30 cêntimos. Não é um valor justo, mas já esteve mais baixo”, refere.

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