Sociedade | 16-02-2019 15:00

Pais desinteressados pensam que a escola é um depósito para largar os filhos

Pais desinteressados pensam que a escola é um depósito para largar os filhos

Paulo Pinheiro confessa desânimo perante o alheamento dos encarregados de educação.

Presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Escolas Dom António de Ataíde, em Castanheira do Ribatejo, lamenta que a maioria dos encarregados de educação esteja desligado da escola. Diz que a autoridade do professor não existe, que são os filhos a mandar nos pais e que muita gente ainda encara a escola como um depósito.

Os pais desinteressam-se pela escola dos filhos e muitos ainda olham para os estabelecimentos de ensino como depósitos onde deixar as crianças enquanto vão para o trabalho. O lamento é de Paulo Pinheiro, 43 anos, presidente da Associação de Pais do Agrupamento de Escolas Dom António de Ataíde, em Castanheira do Ribatejo, que tem mais de 800 alunos. Para este encarregado de educação, está na altura dos pais olharem de outra forma para a escola e envolverem-se na vida escolar dos filhos.

“Tudo o que tenha a ver com a escola não interessa aos pais e muitos acham que não é um problema deles. Consideram que a escola é um depósito onde podem deixar os filhos para receberem formação e educação mas não é assim. A formação é dada na escola, a educação é dada em casa. Só conseguimos acompanhar os nossos filhos se formos ao sítio onde eles passam a maior parte do tempo”, defende.

A maioria dos pais só aparece na escola depois de existir um problema e é esse individualismo que está a deixar desanimado o dirigente. “O que vejo é que quando há uma criança que bate noutra os pais da agredida vão à escola criticar, sem espírito construtivo, mas sim com espírito de ofensa. Cada um quer é saber da sua casa. Infelizmente, é isso que está a acontecer”, lamenta.

“Sinto que o que fazemos cai em saco roto”
Projectista de fibra óptica, Paulo vive em Castanheira do Ribatejo desde criança e tem dois filhos. Está ligado à associação de pais há seis anos mas actualmente confessa sentir-se cansado da falta de ligação dos pais para com a associação. “Na última assembleia geral tivemos de andar à procura de nomes para preencher os 12 que fazem parte da lista. Os pais não aparecem, gostam de falar nas redes sociais e nos cafés mas estar onde os problemas existem não. Faz falta os pais participarem. Esse é um problema muito grande que estamos a atravessar”, lamenta a O MIRANTE.
A associação tem um estatuto privilegiado no seio escolar, não apenas enquanto ponte de ligação directa com a direcção da escola mas também permitindo identificar problemas e pugnar pela sua resolução. Na última assembleia saiu desanimado porque apareceram poucos pais. “Sinto que o trabalho que estamos a fazer está a cair em saco roto”, lamenta.

Professores perderam autoridade
Para Paulo Pinheiro, a autoridade do professor já não existe e passou-se de um período de autoridade severa para o completo oposto. “Não direi que muitos professores perderam a vontade de dar aulas, mas não se sentem bem a fazê-lo. A autoridade do professor não existe hoje em dia. Fomos do oito ao oitenta. Não digo que não haja professores isentos de culpa, mas é certo que temos de perceber as diferentes situações. Temos miúdos muito mimados hoje em dia. São as crianças a mandar nos pais. E estes para não se chatearem fazem o que eles querem”, defende.

O presidente da associação acredita que, apesar de tudo, o futuro está salvaguardado. “Eles têm outra forma de pensar e os ecrãs são o seu mundo. Acredito que vão ser uma geração capaz. O mundo muda e eles já estão a mudar a forma como se vê o mundo. Nós, pais, vamos ter de nos ir adaptando também”, conclui.

Falta de professores e auxiliares é um problema

Para o dirigente há problemas no Agrupamento de Escolas de Castanheira a necessitar de resolução urgente: a reparação das telhas de fibrocimento no pavilhão, que estão a deixar entrar água e contêm amianto, uma substância cancerígena; e a falta de professores e auxiliares.

“Há alunos que não são acompanhados no recreio e refeitório. Isso implica que crianças com 10 e 11 anos têm autonomia para pegar na comida e voltar a colocá-la no sítio porque não gostam. E não comem. Esse é um problema grave, estamos a conversar com o agrupamento para tentar arranjar uma pessoa adicional que os acompanhe. Actualmente estão três pessoas no refeitório, uma a lavar loiça, outra a servir e outra a cozinhar”, revela.

Os casos de violência e bullying não chegam ao conhecimento da associação mas não quer dizer que não existam, ressalva. “Não sentimos que exista violência, haverá algumas quezílias que acontecem fora do recinto da escola. Mas aí não se consegue controlar. Temos conversado com a GNR por causa dessas situações”, explica. Para Paulo Pinheiro o agrupamento já esteve “muito pior do que aquilo que está” e elogia o trabalho da actual direcção.

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