Sociedade | 17-03-2019 10:00

Um actor que também inventa o seu horário de trabalho

Um actor que também inventa o seu horário de trabalho
ENTREVISTA COMPLETA
José Teles confessa que teve que inventar um horário de trabalho

José Teles é actor, encenador, cenógrafo e recentemente foi eleito presidente da Federação Portuguesa de Teatro

Pisou o palco pela primeira vez com apenas seis anos. Aos 57 é um homem que anseia poder continuar a vestir a pele de personagens. Já passou por várias companhias de teatro da região e diz que não lhe resta outra opção senão trabalhar até ao fim da vida. A conversa com O MIRANTE decorreu em Vila Franca de Xira, onde vive.

E m 2018 estreou o espectáculo “Recolector de Histórias” onde encarna a personagem de um contador de histórias que partilha memórias de lugares por onde passou e interage com o público, incentivando-o a contar as suas. Esta é a mais recente criação de José Teles, apoiada pelo Teatro Zero e que espera conseguir levar às escolas do concelho de Vila Franca de Xira. O personagem, um coleccionador de contos que gosta de os ouvir e partilhar assemelha-se ao próprio José Teles. “Gosto de ouvir as histórias contadas pelo público. É ele que me permite acrescentar e renovar constantemente esta peça”, diz.

É no cais de Vila Franca de Xira, junto à casa onde mora sozinho, que José Teles conta a O MIRANTE que teve de “inventar um horário de trabalho”. Sem trabalho certo, diz que mantém a “cabeça ocupada a criar e recriar” peças que não sabe se algum dia saltarão do papel para os palcos.

Natural de A-dos-Loucos, nesse concelho, descobriu aos seis anos que queria ser actor. Ao lado do avô, Adelino Manquinho, que dirigia o antigo grupo de teatro amador de A-dos-Loucos pisou o palco pela primeira vez. Aos 12 anos confessou aos pais que queria ser actor. “Chamaram-me louco e disseram que isso não era profissão que tivesse futuro”.

Não desistiu. Foi para a escola de formação de actores em Évora e, mais tarde, para o Conservatório de Lisboa. Passou por diversos grupos e companhias de teatro de norte a sul do país, e na região integrou o Teatro do Cegada, em Alverca, e o Ateneu Artístico Vilafranquense, em Vila Franca de Xira. A 17 de Março deste ano, toma posse como presidente da Federação Portuguesa de Teatro.

Actores têm de trabalhar até ao fim da vida

“Ser actor é viver na incerteza de acordar e não ter trabalho. É uma profissão ingrata em Portugal. Muitos de nós mal conseguem ter dinheiro para pagar as contas, porque vamos trabalhando à peça, saltando de teatro em teatro, sem um contrato de trabalho que nos dê estabilidade financeira”, diz, lamentando que a cultura esteja “desfalcada de capital”.

Difícil é o trabalho das companhias de teatro que pela falta de apoio financeiro encolheram o elenco. “A maioria tem dois ou três actores fixos, o resto é contratado à peça e só recebe após o espectáculo que pode ter muitas ou poucas representações”. Os bilhetes são vendidos ao preço da chuva, “sob pena de o público ser escasso”. E saldados os gastos que envolve um espectáculo, “pouco sobra para se poder investir na companhia de teatro”, diz.

José Teles não pensa em reformar-se. Não porque não anseie o descanso, mas porque a reforma de quem leva a vida a trabalhar a recibos verdes não vai ser confortável. “É um mal da profissão que obriga os actores a trabalhar até ao fim da vida. Temos de continuar, por mania e vontade, e porque a pensão não vai chegar para pagar as contas”, lamenta.

Assusta-o a solidão e sentir a ausência dos palcos. Sentir-se longe do público que diz ser o maior parceiro do teatro e que tanto gosta de fazer rir. Conta que já caiu em palco, de cima de uma bicicleta, “porque não sabia andar”. Na vida, diz que também se cai, mas como actor e encenador tem-se “sempre um bicho-carpinteiro a martelar na cabeça, pronto a inventar novos projectos. E tenho tantos que ainda quero pôr em prática”, finaliza.

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