Sociedade | 20-07-2019 15:00

Idosos vivem em condições desumanas em lares ilegais em Benavente

Idosos vivem em condições desumanas em lares ilegais em Benavente
LAR

Instituto da Segurança Social já fiscalizou as instalações e deliberou encerramento administrativo que não foi cumprido.

Há pelo menos cinco anos que duas moradias, junto à Estrada Nacional 118, na entrada sul de Benavente, funcionam como lares ilegais. Lá dentro cerca de duas dezenas de idosos vivem em condições desumanas, com falta de cuidados médicos e de salubridade. As habitações não cumprem com as obrigações legalmente exigidas para funcionarem como lar de idosos. A Segurança Social sabe-o e deu ordem de encerramento administrativo.

As imagens a que o nosso jornal teve acesso mostram que algumas das camas não têm estrado, mas tijolos, papelões e cobertores em sua substituição. Para resguardo dos colchões são utilizados sacos de plástico, “um foco de contaminação por bactérias”. Nenhuma das camas tem protecção lateral. Durante a noite os idosos ficam sozinhos, sem luz de presença ou possibilidade de se deslocarem à casa de banho. Têm de urinar e defecar na fralda e assim ficam até perto das 07h00 da manhã, quando entra a primeira funcionária. Apenas um dos idosos tem escova de dentes e os banhos são raros, normalmente dados em dia de visita dos familiares.

Nesses dias, explica uma ex-funcionária a O MIRANTE, são acomodados na sala e nenhum familiar entra nos quartos. Pagam entre 460 a 600 euros “para viverem nestas condições deploráveis, enquanto morrem aos bocados por dentro e por fora”, diz a mesma fonte. O MIRANTE contactou a responsável pela exploração do lar que opta por não se identificar e nega a falta de cuidados aos idosos.

A antiga funcionária despediu-se e denunciou a situação à Segurança Social. “Não aguentava ver os idosos naquelas condições”, diz. Muitos estão acamados e “precisam de cuidados médicos urgentes que lhes são negados”, acrescenta, explicando que só são levados ao hospital ou para consultas de rotina marcadas pelos familiares, ou “já mortos”. Nenhuma das auxiliares tem formação em cuidados geriátricos e são em número insuficiente para cuidar dos utentes. Segundo a lei, deve existir um ajudante de acção directa por cada oito residentes.

Depois de receber novas denúncias, o ISS voltou a instaurar dois novos processos, o último concluído em Abril deste ano, “tendo-se confirmado a manutenção da actividade em desobediênciaà ordem de encerramento emitida”. Na resposta a O MIRANTE, o ISS esclarece ainda que o “processo contra-ordenacional, por exercício de actividade não licenciada e demais irregularidades detectadas foi participado ao Ministério Público, pela prática do crime de desobediência”.

Familiar denuncia

Foram quatro anos de sofrimento, com infecções por todo o corpo, a comer apenas uma vez por dia e sem acesso a cuidados básicos de higiene. No dia 2 de Julho, um homem de 70 anos foi transportado ao hospital pelo INEM. “Estava a apodrecer ali dentro cheio de dores. Não lhe davam a medicação e confessou que só comia uma vez por dia”, conta uma familiar do septuagenário.

O relatório médico acusou infecção urinária grave, intestinos obstruídos, infecção na garganta e uma hérnia junto ao estômago. Está a ser medicado e a tomar suplementação vitamínica. Um mês depois ainda não consegue ingerir mais do que uma refeição por dia. “O organismo habituou-se a sobreviver assim e não suporta mais alimentos”, diz.

Depois do internamento hospitalar, o idoso já não regressou àquela casa de acolhimento ilegal. “Ficou feliz quando soube que não ia voltar. Confesso que não sabia que ele estava naquelas condições uma vez que não o visitava com regularidade por motivos profissionais”, afirma a familiar, que pediu para não ser identificada.

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