Morreu o poeta Alexei Bueno
Morreu na noite do dia 26 de Junho, no hospital do Rio de Janeiro, o poeta e ensaísta Alexei Bueno. Era uma das maiores figuras da cultura em língua portuguesa e porventura o poeta mais culto do Brasil.
Morreu Alexei Bueno (nasceu a 26 Abril de 1962). A sua morte ocorreu ainda na noite do dia 26 de Junho, no hospital, pouco tempo depois de ter chegado à urgência para onde foi transportado desde sua casa, no Rio de Janeiro. Um câncer no fígado, que evolui rapidamente, estará na origem da sua morte, O poeta e crítico é um dos mais conceituados do Brasil e da língua portuguesa. A sua Obra própria de poesia é tão grande como a de ensaio que dedicou aos grandes vultos da cultura brasileira e mundial. A sua vasta cultura fazia dele uma figura ímpar na vida cultural brasileira embora vivesse muito à margem da elite literária do país. Mesmo assim era convidado frequentemente para partilhar a sua vasta Obra, cultura e saberes. A última vez que esteve em Portugal foi a 2 de Junho deste ano, mês da sua morte, para participar como convidado no IX Encontro Internacional de Camonistas, que se realizou na Biblioteca Nacional, em Lisboa, onde apresentou uma comunicação.
À Margem
Um grande poeta: um grande prazer e desafio ser seu Amigo
Apaixonado, irreverente, culto, estudioso, imprevisível, insubmisso, pornográfico, amigo, eis alguns dos epítetos que na hora da morte me surgem para classificar a genialidade de Alexei Bueno, o poeta brasileiro que morreu na noite de ontem, dia 26, e cuja notícia do falecimento caiu no meu telemóvel na madrugada deste dia 27 de Julho, alguns dias depois de viajar de Lisboa para o Rio de Janeiro onde veio participar num colóquio sobre Camões, um dos poetas que mais amou e sobre quem mais escreveu e falou a vida inteira.
Sou um dos amigos que tem a sua Poesia Completa e Traduzida, livro fora do mercado que ele organizou e publicou em 2023 por alturas da comemoração dos seus 60 anos de vida. Foi-me oferecido em 23 de Janeiro de 2024, talvez num dos nossos encontros no Bairro da Glória, ou em casa do nosso comum amigo André Seffrin, onde nos conhecemos há mais de um quarto de século.
Alexei Bueno vai ficar na história da literatura brasileira, será estudado e provavelmente será muito admirado em todo o país, quando passarem algumas luas e nascerem e crescerem aqueles que continuarão esse trabalho inglória de contar e escrever a História do nosso passado. Ele próprio, há pouco mais de três anos, assumiu essa mesma marginalidade e distanciamento em relação às academias que o ignoravam, às editoras que não o procuravam, aos literatos que ele abominava.
“E assim vem à luz esta Poesia Completa e Traduzida, cujo autor é, pelo menos, um exemplo em regra de distanciamento em relação ao establishment e ao famoso estilo de época, o que não deixa de ter certo valor num país como o nosso, onde os bem-pensantes jamais admitiriam que um escritor compusesse uma série de elegias romanas ou um divã persa, um vasto hino sobre aquele pretérito arquipélago em que floresceu a Grécia, quanto mais um romance de ambiência púnica, uma biografia ficcional de um imperador latino do segundo século, ou um conto sobre os aedos nórdicos…Fica aqui esta liberdade auto-outorgada, à revelia da maré morta das modas”.
Este é o parágrafo final da apresentação da sua Poesia Completa e Traduzida, e um texto onde melhor se pode avaliar a postura de Alexei Bueno, que nunca foi de se render perante as dificuldades, como provam estas edições de autor, assim como nunca desistiu de se valorizar sabendo que com isso alimentava ainda mais o seu refinado prazer de não figurar na lista dos poetas da moda.
Joaquim António Emídio


