Arquivo | 03-12-2013 10:54

Tratamento desigual leva imigrantes a adiar cuidados de saúde maternoinfantis

O sentimento da sujeição a “tratamentos desiguais e opressores” leva as imigrantes em Portugal a apenas recorrerem aos cuidados de saúde maternoinfantis em situações extremas, com a agravante de regularmente encontrarem profissionais “impreparados” para as suas especificidades.Esta conclusão extrai-se de dois estudos da investigadora do Porto Joana Topa, um sobre “Cuidados de Saúde Maternoinfantis à População Imigrante residente em Portugal” (junto de imigrantes brasileiras, cabo-verdianas e ucranianas) e um segundo sobre “O outro lado do cenário: discursos, perspetivas e vivências de profissionais de saúde” (analisando ambos os lados durante o período de gravidez, parto e puerpério).“Apesar do seu descontentamento com a situação, revelam conformismo e silêncio. Esta cumplicidade acarreta, inevitavelmente, perigos. Perpetua uma não-efectivação dos seus direitos e não informa as instituições e políticas de saúde sobre as suas vulnerabilidades e dificuldades específicas”, explica a psicóloga Joana Topa, realçando, no entanto, a “avaliação geral positiva” feita aos serviços.A investigadora conta que nos primeiros contactos “são muitas as barreiras conjunturais que limitam as suas escolhas e oportunidades, não só de acesso, como de frequência dos serviços”, lamentando ainda a “clara falta de informação sobre os direitos das imigrantes grávidas no acesso e frequência do SNS”.Nos estudos são apontadas barreiras como a falta de médicos de família, problemas de comunicação entre o profissional e as pacientes, burocracias, insuficiência informativa ou a não-acessibilidade a serviços específicos como aulas de preparação para o parto ou cheque dentista.“Dificuldades de comunicação (pelo não domínio da língua), menor sensibilidade e competência para lidar com a diversidade cultural das pacientes bem como a exibição de atitudes discriminatórias” são alguns dos comportamentos detectados nos profissionais que, ainda assim, “tentam fazer o melhor no auxílio a essas mulheres”.Sob o efeito de “estereótipos generalizados”, Joana Topa deparou-se com situações de “exercício do poder assente em sexismo, classicismo e etnocentrismo”, mesmo que “não intencional”.De acordo com a psicóloga e docente no Ensino Superior, geralmente estes profissionais partilham das crenças sociais de que “a comunidade imigrante é associada à insegurança, desemprego e perda de valores, como se a condição migratória constituísse uma ameaça à convivência e à coesão social”.“A desigual base hierárquica de poder influencia os discursos de ambas as partes”, sublinha, sendo que as imigrantes se deparam com discursos em forma de “diapositivos disciplinares, disciplinantes e normalizantes”.Perante um país envelhecido e face ao contributo destas mulheres para o crescimento demográfico, a investigadora enfatiza a “necessidade dos serviços/profissionais/legislação de saúde utilizarem uma matriz analítica que tenha em conta as diferentes categorias identitárias das pacientes, uma vez que estas propiciam necessidades diferenciadas bem como vivências díspares”.O número de mulheres a viver a maternidade em contexto multicultural e migratório é uma realidade com uma expressão internacionalmente crescente.

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