Cartas do Brasil | 23-08-2015 01:30

As aves que aqui gorjeiam

As aves que aqui gorjeiam
Outro dia, indo ao hortifrúti aqui do bairro, descubro que a banana d’água está mais cara do que a banana-prata. É muitíssimo estranho, pensei. A banana-d’água, mais popular, sempre foi também a mais barata. Quase se pode dizer que a diferença de preço entre as duas é histórica, a prata sempre mais cara. Por que mais barata agora? No Brasil costuma ser assim, os cenários mudam de repente como o preço das bananas. Este ano, os sabiás cantaram mais cedo. Em geral, começam no mês de agosto. Desta vez, em junho já soltavam seus trinados. Notei a antecipação porque todo ano espero ouvir o primeiro sabiá. Não sei se a mudança é nacional, mas pelo menos os sabiás do Rio – ou para maior rigor, os do meu bairro – começaram a nos alegrar mais cedo, aqui em casa. Quando se fala em sabiá, logo penso em Tom Jobim, que adorava passarinho, e tem até uma música maravilhosa com esse nome, em parceria com Chico Buarque. (Ver em http://letras.mus.br/tom-jobim/86267/). A letra de Chico Buarque não chega a ser uma paródia, é uma citação da “Canção do exílio”, de Gonçalves Dias, poema brasileiro tão popular como a banana d´agua. Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Mário Quintana, Ferreira Gullar e muitos outros fizeram paródias da “Canção do exílio” ou a citam em belos poemas. Enquanto faço minha caminhada vespertina pelo bairro, tento achar o assunto do que escreverei para um jornal em Santarém, Portugal. Com as bananas, logo um obstáculo: será que o leitor de Portugal sabe o que é hortifrúti? Com os sabiás e a “Canção do exílio”, vejo que vou remeter o eventual leitor à ideia de que nós brasileiros vivemos a olhar com eternas saudades para o mar, pensando em Portugal e na Europa. Não seria requentar uma teoria duvidosa, a pretexto de escrever uma crônica? A favor dos sabiás, resolvo que o título – “As aves que aqui gorjeiam” –, pelo menos, ficaria bonito. Também achei que seria possível escrever em “pílulas”, palavra que no jargão do jornalismo significa texto de parágrafos breves, estilo Twitter – com a vantagem de variar de assunto e não cansar o leitor. Mas, pelo amor de Deus, pílulas?! Logo me veio à ideia que a gíria embute o nome de um político brasileiro – Lula – que anda em baixa no momento. Não, assunto que anda em baixa, de jeito nenhum. Mas é incrível como tudo isso pode de algum modo se relacionar. A crise política do momento, que pôs na berlinda o PT de Lula e da presidente Dilma, é tão parecida com todas as anteriores que leva a lembrar os terríveis anos do mar de lama denunciado por Carlos Lacerda, no governo Vargas. Lacerda, célebre orador, ficou conhecido como O Corvo. De tanto crocitar na tribuna, levou ao suicídio de Vargas – embora não seja possível atribuir o suicídio a isso, com certeza. A chamada morte voluntária não tem necessariamente uma só causa, ela “é uma flor que cresce no silêncio do coração”, como escreve Camus. Seja como for, entre corvos e sabiás, fiquemos com os sabiás, que são mais doces. Ainda assim termino a caminhada indeciso. Corvos, bananas, sabiás, exílio? Não, mais vale pensar melhor no assunto. Então lembrei-me ter lido, faz pouco tempo, uma interessante matéria na revista dominical que vem encartada num dos nossos grandes jornais. A matéria falava de uma aldeia portuguesa, que me chamou a atenção pelo nome sonoro e estranho: Piódão. Li a matéria com enorme prazer e curiosidade, e vi fotos belíssimas. Me deu uma saudade!

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