Cartas do Brasil | 27-11-2015 11:11

Sibipirunas

Só quem já se sentiu tão próximo de uma árvore como de uma pessoa querida, e teve de sofrer sua perda, pode compreender a importância de iniciativas como a do escritor mineiro que adotou o Rio de Janeiro e suas muitas árvores.

Li pela primeira vez a palavra dendrolatria num texto de Rubem Fonseca, dendrólatra assumido e militante, pois costuma tirar partido de sua fama como escritor para botar a boca no mundo em defesa das árvores, sua grande paixão. Faz dois ou três anos o escritor em pessoa comandou uma campanha para salvar um ipê-roxo de cinco anos de idade plantado na praça Antero de Quental, no Leblon. A árvore seria abatida para dar lugar às obras do metrô. Rubem Fonseca, que havia adotado a árvore e dela cuidava pessoalmente, com a ajuda de um vendedor de mudas de um quiosque próximo, mobilizou amigos e fez que o ipê fosse transplantado na vizinha rua General San Martin a salvo das escavadeiras. Só quem já se sentiu tão próximo de uma árvore como de uma pessoa querida, e teve de sofrer sua perda, pode compreender a importância de iniciativas como a do escritor mineiro que adotou o Rio de Janeiro e suas muitas árvores. Na mesma época em que ele salvava o seu ipê, lá no Leblon, eu lamentava não ter o mesmo poder de mobilização que me permitiria salvar uma esplêndida sibipiruna que havia em minha rua, no Grajaú, quase de frente a nossa casa. Majestosa no seu manto de flores amarelas, que flamejava nas manhãs de sol, aquela sibipiruna foi, sem qualquer exagero, mesmo antes de a vermos florida, uma das razões para que comprássemos a casa um ano antes, contando que teríamos aquela beleza diante dos nossos olhos por muitos anos ainda, visto ser uma árvore robusta e sadia. Só duas ou três vezes pudemos vê-la florescer. Um belo dia, ao chegar em casa, somos abordados por certo homenzinho tagarela, sibilante, cujas credenciais – “Sou oblato do Mosteiro de São Bento...” – de religioso leigo, devia crer, lhe davam certa salvaguarda para o crime que tencionava cometer: pôr abaixo a sibipiruna, sob a alegação de que as raízes da árvore começavam a invadir a área de sua casa e ameaçavam a integridade do imóvel. Negamos o nosso autógrafo ao abaixo-assinado que ele levava de porta em porta, em busca da aprovação dos vizinhos para o seu ato infame. Não chegamos a nos preocupar: ninguém apoiaria aquela insanidade. A beleza da sibipiruna era a garantia de sua salvação, era maior do que a insanidade daquele frade amador. O esplendor da copa florida bastava para manter a árvore de pé. Ledo engano. Subestimamos o poder maquiavélico de uma mente voltada para o mal. A pretexto de construir uma rampa de garagem na sua calçada, o homenzinho ordenou aos pedreiros serrarem partes das raízes da sibipiruna. Chamados pela vizinhança, os fiscais da prefeitura lhe aplicaram a multa regulamentar, mas a árvore – como queria o infeliz – perdeu a estabilidade e foi condenada. Estou um dia no trabalho – à distância de alguns quilômetros – quando recebo a notícia de que “nossa sibipiruna” estava sendo cortada. Senti, literalmente, o meu peito doer. A rua mudou, pareceu estranha, abriu-se um espaço imenso no lugar antes ocupado pela copa resplandecente. O pretenso frade não se importou, ou nem deu pela diferença. Afinal, embora proprietário da casa ameaçada, havida de uma herança, ele não morava na nossa rua e, sem dúvida, não conhecia a palavra dendrólatra. Só nos restaram, como paisagem vista da sacada, as paredes cegas de um conjunto de prédios que a sibipiruna ocultava. Restaram também alguns pedaços de tronco e galhos serrados, que recolhemos como suvenires e que, aos poucos, soltaram a casca e secaram em nosso canteiro. É verdade, restou também uma agradável surpresa, ainda que tardia. Tínhamos diante de casa uma segunda sibipiruna, não tão majestosa quanto a outra, mas uma sibipiruna é sempre uma sibipiruna. Por sinal que esta outra também já se acha parcialmente abatida, não pela insensatez humana, mas pelos ventos enfurecidos do Grajaú, cujos arrastões periódicos deixam um rastro de destruição pelo bairro. Faz pouco tempo, de entre os pedaços secos da velha matriarca, germinou uma inesperada sibipiruninha. Rompida a semente, a plantinha surgiu intrépida, urgente, feliz, numa evidente demonstração de que tem a força e a majestade das grandes árvores. Cuidaremos dela, e quem viver verá.

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