Entrevista | 30-09-2010 10:48

“Estado de graça de Moita Flores está a chegar ao fim”

Militante socialista, António Carmo ficou ligado à pior derrota sofrida pelo PS no concelho. Nada que o tenha marcado, pois afirma-se disponível para ser recandidato em 2013. Pelo meio critica os camaradas que não quiseram queimar o currículo nas últimas autárquicas, quando a derrota estava anunciada. E admite que nas próximas eleições o cenário vai ser diferente, porque quando cheira a vitória “o PS aparece sempre com mais candidatos e as pessoas até brigam umas com as outras”.Como se sente a trabalhar com um presidente de câmara que diz que “a verdadeira latrina política do país está no PS de Santarém”?Critico naturalmente esse tipo de linguagem. Não me revejo nessa forma de estar. Sou uma pessoa que respeita toda a gente, independentemente da sua opinião ou ideologia. Nunca utilizarei essa linguagem e nem sequer respondo a essas provocações. Acha que esse tipo de discurso não enobrece as funções autárquicas?Esse tipo de discurso não é digno de um presidente de câmara. Eu como presidente de câmara não teria esse tipo de linguagem. E há outras coisas que foram ditas que eu nem sequer repito, nem sei se serão publicáveis num jornal. Está desiludido com a actuação do presidente da câmara Moita Flores?Não tenho que ficar desiludido nem tenho que confirmar o que pensei. Se não votei no presidente Moita Flores, no projecto que ele apresentou, por algum motivo foi. Há aqui diferenças.Quando falo em desiludido, é mais em termos de relacionamento.No relacionamento comigo como vereador tem-me respeitado.Se bem que às vezes não o deixe falar…Ele tem-me respeitado. E isso é o que deve fazer sempre. Porque eu também o respeito, enquanto pessoa e enquanto presidente de câmara. Mesmo não estando em concordância com ele em muitos aspectos. Mas já não posso aceitar que me impeça de falar. Foi a segunda reunião do executivo consecutiva em que sou informado que não me é dada a possibilidade de intervir. Isso significa também a interpretação que as pessoas têm de democracia. E, no caso do presidente da câmara, para ser democrata deve deixar-me falar quando peço a palavra. O presidente Moita Flores já anunciou que não é recandidato em 2013. É uma boa oportunidade para o PS recuperar a Câmara de Santarém?É uma boa oportunidade para o PS nas próximas eleições voltar a liderar os destinos do concelho. Mas é uma boa oportunidade não só pelo facto do presidente Moita Flores não ser candidato. E vamos ver se não é. De qualquer forma, o que considero é que irá ser feita uma avaliação aos dois mandatos do PSD. Nos primeiros quatro anos houve muito argumento utilizado que colocava em causa a gestão do PS. Muitas das suas decisões eram justificadas pelo que o PS tinha feito. Como a questão da dívida, que aumentou 28 milhões de euros em quatro anos.Esta contestação popular que se tem observado, designadamente quanto ao alargamento do estacionamento pago na cidade, pode indiciar que o estado de graça de Moita Flores está a chegar ao fim?Julgo que sim. A população de Santarém vai começar a perceber quais são os projectos do PSD. Durante o primeiro mandato muitas das obras inauguradas vinham do mandato anterior. Veja-se o caso dos jardins. Também muitos dos centros escolares já resultavam de uma carta educativa que tinha sido trabalhada durante a gestão do PS. E algumas obras inauguradas no mandato anterior devem-se ao Governo socialista. Mas é esta câmara que tem de pagar a factura…Sim. Mas o que pergunto é que obra foi feita pelo PSD, que tivesse origem no PSD.Há a requalificação de espaços públicos na cidade, o convento de São Francisco, o antigo presídio militar, por exemplo.O Convento de São Francisco já antes tinha sido aberto ao público…Por pouco tempo e sem este tipo de utilização.Mas vejamos quais foram as verdadeiras obras do PSD. E é isso que a população vai ter de avaliar. Porque, verdadeiramente, a grande obra do presidente da câmara foi o Jardim da Liberdade. Essa sim, não tem nada a ver com o PS. Mas veja-se o custo dessa obra, que ficou um espaço agradável. As pessoas vão começar agora a sentir o custo dessa obra. Nós já alertámos para isso durante a campanha eleitoral, mas as pessoas não nos quiseram ouvir.Preferia não ter a obra e não haver mais estacionamento pago à superfície?Entendo que antes de se fazer qualquer intervenção naquele espaço em frente ao tribunal era preferível intervir no Campo Infante da Câmara. Se queríamos um verdadeiro parque verde da cidade, devia ser feito noutro lugar, como a Escola Superior Agrária ou nos terrenos da antiga Escola Prática de Cavalaria. E fazer o parque de estacionamento subterrâneo no Campo Infante da Câmara. O que vamos fazer agora é pagar o estacionamento à superfície a uma empresa privada. O dinheiro nem sequer fica em Santarém. A empresa vai pagar uma renda anual de 241 mil euros à câmara por isso.Todos conhecemos os termos do contrato e é um negócio muito penalizador para as pessoas de Santarém. As pessoas começam a aperceber-se disso. Tal como se começam a aperceber do custo da entrega a um parceiro privado de parte do capital da empresa Águas de Santarém. Daqui por três anos as pessoas poderão avaliar a gestão do PSD e o que fez o PS. O complexo aquático é agora apontado como uma maravilha de Santarém, mas ninguém se esqueça que foi uma obra do PS. E já agora pergunto, porque o PS não teve oportunidade de executar essa obra, onde está o complexo desportivo municipal? O que fez o PSD?Pelo menos desbloqueou a situação do campo Chã das Padeiras. E foi colocado um relvado sintético no campo da Escola Agrária.Mas o que já se fez relativamente a parques desportivos em Santarém? O parque desportivo de Pernes, prometido há tanto tempo, que é feito dele? Estamos a falar de promessas não cumpridas. Já agora deixe-me falar de outro grande projecto do PSD, que foi a praia de Santarém. O que é hoje? Foi um projecto ridículo. Tudo isto deverá ser devidamente avaliado daqui a três anos.“Daqui por três anos posso voltar a ser o candidato do PS à Câmara de Santarém”Está disponível para voltar a ser o candidato do PS à Câmara de Santarém?Como sabem sou um homem muito ligado ao desporto. O que digo é que neste momento estou na pista a correr. Provavelmente vai haver mais camaradas disponíveis.Na altura vamos ter que equacionar tudo. Eu não digo que não. Poderei estar disponível. Já lá estou, tenho vindo a trabalhar no âmbito do partido como vereador da oposição, em articulação com a assembleia municipal. Estamos a trabalhar verdadeiramente em equipa, eu, o vereador Ludgero, que tem sido um excelente companheiro de bancada, e o Carlos Nestal como líder da bancada na assembleia municipal.Tem consciência que nas últimas autárquicas foi lançado às feras pelos seus camaradas? O que digo é que aceitei ser candidato porque entendi que deveria estar disponível para prestar um serviço ao concelho e ao PS, que precisava de um candidato. Mas também quero dizer que sabia que ia para o deserto encontrar areia. Ninguém pense que eu estava iludido. Eu ouvia a população, ouvia o que as pessoas diziam. Quem andava iludido era o povo. Mas mais tarde vão ver. E já começam a sentir isso. Então sabia ao que ia?Sabia que só era candidato porque o que se perspectivava era uma derrota. Reconhece então que é mais fácil aparecerem mais candidatos no partido em 2013?O PS em época de vitória aparece sempre com mais candidatos e as pessoas brigam umas com as outras. No momento em que se perspectivava uma derrota toda a gente se afastou. Uns foram convidados e não aceitaram. Outros fizeram de conta que não ia haver eleições autárquicas. E isso, enquanto socialista, muito me custou. O que eu quis dizer aos socialistas foi que num momento difícil, em que todos ou quase todos estão a voltar as costas ao PS, eu, António Carmo, estou disponível para esta dura batalha, sabendo que vou para o deserto encontrar areia. E sabendo que é nos momentos em que cheira a vitória que as pessoas surgem. Há apoios de todo o lado. Aceitou facilmente não ter sido uma primeira escolha?Pouco me importa que tenha sido a terceira, quarta ou quinta escolha. O que me custou foi sentir quer alguns militantes se afastavam da possibilidade de serem candidatos. E também quero dizer que tanto para a lista da câmara, como para a assembleia municipal e para as freguesias houve muita gente que disse não. Se calhar não quiseram queimar o currículo.Provavelmente não quiseram ficar associados à derrota. Daí fazer um rasgado elogio a todos os que se disponibilizaram a participar nas listas e na campanha eleitoral do PS.Acha que em 2013 pode acontecer o mesmo?Estou crente que não. Mas estou cá para assistir. Como disse, estou a fazer um trabalho de oposição séria, construtiva, de estudo dos dossiês, de muita preocupação com o futuro do concelho. Daqui por três anos estarei em condições de dar continuidade a um projecto, melhorando-o e reforçando-o.Não se está a expor demasiado?Poderia neste momento dizer que daqui por três anos não quero ser candidato. Não digo isso. Digo que daqui por três anos posso ser o candidato do PS à Câmara de Santarém. Há o exemplo do Paulo Fonseca em Ourém, que já tinha sido derrotado e agora ganhou a câmara. Estou a trabalhar para fazer um bom mandato e depois farei a necessária avaliação.Poderá ser apontado, se entrar na corrida daqui a 3 anos, como o candidato que ficou na história por ter obtido o pior resultado para o PS em Santarém.Não fui eu que perdi as eleições. Só não as consegui ganhar. É bom que as pessoas não esqueçam isso. Quando fui candidato o PS já estava na oposição. PS de Santarém perdeu peso devido às guerras internasEm Junho, num almoço de homenagem aos fundadores do PS em Santarém, o militante número um, José Faustino, lamentou que não tivessem comparecido “algumas pessoas que muito trataram da sua vidinha graças ao PS”. Há muita gente a tratar da vidinha à custa dos partidos?Eu estava presente nesse almoço. Começo logo por aí. E ouvi essas palavras e muito me custaram. Não foi por aquilo que ele disse. Foi por alguma razão que teve na sua intervenção. E eu pergunto: onde estavam essas pessoas durante a campanha autárquica do PS em 2009? Onde é que estavam muitos militantes que deviam ter participado mesmo sabendo que íamos perder?De qualquer forma, o partido também tem sido generoso consigo. De professor a director distrital da Segurança Social não é para todos.Já fui também delegado regional do Inatel…Ou seja, também se pode enquadrar nesse grupo de pessoas que tratam da vidinha à conta do PS?Não vejo as coisas nesses termos. Fui durante dez anos presidente do conselho directivo de uma escola em Santarém. Fui eleito aos 31 anos e fui presidente até aos 39 anos. Fui delegado distrital do Inatel também na fase dos meus 30 anos. E fui presidente da Associação Académica de Santarém. Fiz um trabalho que me enriqueceu. Penso que foi esse currículo, esse trabalho que desenvolvi, que levou a que me convidassem para director da Segurança Social em Santarém. E quando saí dessas funções fui convidado para chefe de divisão na Câmara de Rio Maior. Para uma área onde tinha estado o professor Albino Maria, de quem tenho imensas saudades e que foi um grande escalabitano.Agora é director da Segurança Social em Lisboa.Tenho 50 anos e o que posso dizer é que fui professor durante muito pouco tempo. Porque mesmo como presidente do conselho directivo, para a parte final já não leccionava. Estava só na área da gestão. Mas não me importo de regressar à minha escola e voltar a leccionar, porque gosto muito de ser professor. Lançaram-me outros desafios que aceitei. Os cartões partidários ajudam a abrir muitas portas. Essa foi uma imagem que se foi construindo na nossa sociedade. A verdade é que quem gere algo escolhe pessoas da sua confiança para trabalhar mais directamente consigo.Antes as pessoas chegavam à política e aos cargos de decisão após carreiras profissionais consolidadas. Hoje há gente muito jovem que o primeiro emprego que tem é na política.Sei onde quer chegar. Não se deve confundir a árvore com a floresta. Não há regra sem excepção. Não podemos é daí extrapolar.Fica chateado quando dizem que arranjou um grande “tacho”?Não valorizo, porque tenho um currículo do qual me orgulho muito, que fala por mim e que dá a resposta a quem eventualmente diga isso. E se estamos a falar de política, penso que o facto de me ter disponibilizado a ser candidato em Santarém demonstra como estou na política.Há aí uma costela de mártir.No momento em que ninguém queria ser candidato em Santarém disponibilizei-me. Bem sei que alguns disseram que eu ia ser um mártir, mas eu não considero isso. Não podia assobiar para o ar.Os presidentes das câmaras de Ourém e de Torres Novas, Paulo Fonseca e António Rodrigues, respectivamente, foram apontados como candidatos à liderança da distrital de Santarém do PS. Não é mais do mesmo?Porque é que não aparecem outras candidaturas? Provavelmente porque as pessoas entendem que ainda não chegou o momento de surgirem alternativas. Mas penso que o PS a nível distrital tem feito um trabalho positivo. E querendo Paulo Fonseca continuar como presidente da federação merece todo o nosso apoio.Não se perde uma oportunidade de o PS se rejuvenescer e de aparecerem novos protagonistas?E onde é que estão os novos protagonistas do PS no distrito de Santarém? Eles têm que surgir também pelo trabalho desenvolvido.O partido não consegue formar quadros?O partido consegue formar quadros. O Paulo Fonseca quando foi candidato à Federação do PS em Santarém era um jovem. Hoje ainda não tem 50 anos. O que Paulo Fonseca conseguiu demonstrar foi a capacidade de um jovem em liderar o partido no distrito. E essa é a demonstração de que o PS consegue formar quadros e continua a conseguir. Há bons quadros do PS no distrito e alternativas para num futuro muito próximo surgirem a liderar um projecto de âmbito distrital.Santarém mais uma vez não apresenta um candidato à liderança distrital. Tem perdido peso no partido?Santarém perdeu peso quando começou com as suas lutas internas. O concelho de Santarém conseguiu liderar o distrito com Ladislau Botas, que era considerado o Papa, e com José Miguel Noras, quando era presidente da câmara. O cisma causado pela guerra entre Rui Barreiro e José Miguel Noras ainda se faz sentir.O PS ainda está a sofrer as consequências das suas divergências internas. Porque nós, como uma das maiores concelhias do distrito, tínhamos todas as condições para liderar os processos a nível distrital. Só que estas lutas nos últimos anos foram prejudiciais a uma liderança distrital.E à própria afirmação do partido no concelho.Precisamente. Aliás, é o que vai acontecer agora no PSD com o aparecimento de dois candidatos à concelhia, em que um está ao lado de Moita Flores e o outro é apoiado por Ricardo Gonçalves, que é vice-presidente da câmara. Temos duas candidaturas, uma apoiada pelo presidente da câmara e outra apoiada pelo vice-presidente. Vai deixar marcas no seio do PSD que vão ser prejudiciais e ninguém tenha dúvidas disso. É assim porque cheira a poder. Os partidos têm muitas vezes esta tendência de se desunir, de criar diversas facções no sentido de uma delas conseguir alcançar o poder.

Mais Notícias

    A carregar...

    Edição Semanal

    Edição nº 1381
    13-12-2018
    Capa Médio Tejo
    Edição nº 1381
    13-12-2018
    Capa Vale Tejo