Entrevista | 12-07-2011 00:35

“Gosto que os meus livros sejam conhecidos, mas eu não”

A sua vida podia dar um livro, mas Jacinto Rego de Almeida prefere inventar a vida das personagens que povoam os seus livros de ficção. O seu mais recente romance, “A verdadeira história do bandido Maximiliano”, chegou há pouco às livrarias e tem uma trama repartida entre Portugal e o Brasil. Tal como a vida do autor se tem dividido por essas paragens. Abandonou a Marinha e tornou-se exilado político nos tempos de Salazar, foi conselheiro económico da Embaixada de Portugal no Brasil após o 25 de Abril e hoje vive no remanso da terra natal, Alcanhões, no concelho de Santarém.Jacinto Rego de Almeida recebe-nos na espaçosa moradia cor de rosa mandada construir há perto de cem anos em frente à igreja de Alcanhões pelo seu avô paterno, feitor de uma das quintas mais importantes da zona. A conversa decorre na sua sala de trabalho, onde tem o computador e estantes carregadas de livros.Antes de enrolar o primeiro cigarro, o escritor pergunta ao que vimos e do que queremos falar. O importante para ele, sublinha marcando o território, é o seu novo livro e não a sua vida que, na opinião do jornalista, tem alguns episódios dignos de serem contados. E por isso acaba por falar, sem se alongar muito, da sua fuga da Marinha, do exílio em França e no Brasil, de Alcanhões e de Santarém. Uma conversa com um homem discreto, que gosta de viver sossegado com a esposa tratando da casa, dos terrenos e da vida das personagens que vai inventando para os seus textos de ficção. Jacinto Rego de Almeida nasceu em 23 de Dezembro de 1942 na espaçosa moradia em frente à igreja de Alcanhões, concelho de Santarém, para onde regressou em 2004 após 30 anos como funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Durante esse período prestou serviço no Brasil, no Rio de Janeiro e em Brasília, a trabalhar para a embaixada de Portugal como conselheiro para a área económica. É casado, pai de dois filhos e avô de 4 netos.A infância foi vivida até aos 6 anos em Alcanhões, vila ribatejana de onde o pai também era natural. A mãe era lisboeta. A família rumou à capital para proporcionar uma melhor instrução aos dois filhos. Instrução escolar cumprida, Jacinto foi chamado para o serviço militar tendo integrado os quadros da Marinha, onde chegou a oficial e de onde fugiria para o exílio em 1968, primeiro para França e depois para o Brasil, por ser contra o regime salazarista e a guerra colonial. Entre 1968 e 2004 viveu no estrangeiro, exilado até 1974, e no exercício do cargo de conselheiro económico da Embaixada de Portugal no Brasil após a Revolução de Abril. Começou a escrever “há 20 e tal anos”, sempre na área da ficção. A excepção é o livro de viagens “Mistérios da Amazónia – Cadernos de uma expedição nas Guianas e no Brasil”, que produziu com o jornalista e “grande amigo” Carlos Cáceres Monteiro, que recriou com fotos e texto, 50 anos depois, o roteiro de fuga de Papillon no célebre romance com o mesmo nome. “Sou um contador de histórias, sou um ficcionista. Não escrevo ensaios, não escrevo livros de memórias”, diz Jacinto Rego de Almeida, 68 anos.O primeiro livro de ficção foi publicado no Brasil em 1987, uma colectânea de contos (“O Afiador de Facas”) que no ano seguinte foi reeditado em Portugal. E desde aí editou mais duas colectâneas de contos, começou a escrever crónicas para o Jornal de Letras e também narrativas mais longas, como o quarto romance, agora editado, intitulado “A Verdadeira história do bandido Maximiliano” e que foi apresentado recentemente em Lisboa no Festival do Silêncio. Na forja está já mais um romance.No último livro usa pela primeira vez fotografias a preto e branco para ilustrar a trama que ajudam incorporar personagens ou ambientes. Usa a estrutura do romance policial para falar da sociedade. “É uma boa forma de retratar a sociedade e eu gosto do policial”. Como leitor, prefere a literatura contemporânea, alguma policial, mas sempre de ficção. “Acho que a ficção dá uma grande liberdade a quem escreve e também a quem lê”.O livro “A Verdadeira história do bandido Maximiliano” é um “thriller” sobre o crime dos nossos dias, o crime organizado, como negócio, como actividade empresarial clandestina. É uma trama onde se fala das máfias modernas, do tráfico de droga e de mulheres, da imigração clandestina. O principal personagem, diz Jacinto Rego de Almeida, é um português simples que parece sofrer de melancolia, empregado de balcão numa discoteca que acaba por ascender no mundo do crime e cuja única relação familiar é uma velha tia. O bandido Maximiliano acaba candidatando-se a vereador “e o final surpreendente confirma a ideia de que a boa história é aquela que nunca acaba”, diz, acrescentando que “o livro agarra os leitores pelos calcanhares na segunda ou terceira página e não o deixa em sossego até ele acabar”.* Entrevista completa na próxima edição semanal de O MIRANTE que sai à quinta-feira.

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