Entrevista | 28-07-2011 10:30

Há pessoas que têm de ocultar que moram em bairros sociais para conseguirem emprego

Há pessoas que têm de ocultar que moram em bairros sociais para conseguirem emprego
Ana Zilda Silva luta diariamente para contrariar o estigma que existe em relação aos bairros sociais. A psicóloga que preside à Associação para a Promoção da Saúde e Desenvolvimento Comunitário de Vila Franca de Xira faz o papel de técnica social num mundo em que o facto de se residir num bairro de gente pobre, mesmo que seja uma pessoa com valores e qualificada, ainda é um factor de descriminação. Seja na procura de emprego, seja em vários aspectos da vida. Nesta entrevista a dirigente associativa admite que os jovens hoje querem ter as coisas a qualquer custo e muitos não se importam de se dedicar à delinquência para as conseguir. Residente em Benavente, Ana Zilda Silva diz que este é um concelho de oportunidade para os jovens se lhes derem mais recursos. Refere que os problemas de violência nas escolas de Benavente e Samora Correia não devem ser escondidos e que os estabelecimentos de ensino têm de aprender a tornarem-se um espaço apetecível. Recentemente três jovens ficaram em prisão preventiva por terem cometido mais de 30 assaltos a alunos à porta de várias escolas do concelho de Vila Franca de Xira. O que é que leva a estes comportamentos nos jovens?Podem existir muitas causas mas considero que estas situações se devem ao actual contexto económico. A sociedade está a atravessar uma mudança e hoje todo o valor é dado aos bens materiais procurando-se tê-los a qualquer custo. Os miúdos não são educados para conseguirem esperar, para gerirem as coisas. Hoje há a ideia do consumo imediato, tudo é para se ter já e quem não tem condições para comprar vai roubar. Este modo de actuar, quase a tocar o egoísmo, tem vindo a desenvolver-se na nossa sociedade e receio que possa agravar-se no futuro se não tentarmos inverter isso na geração que se segue. Portanto se combatermos a crise também combatemos a criminalidade…A crise não nasce de um dia para o outro e a criminalidade sempre esteve por todo o lado. É verdade que tende a agravar-se em momentos de crise. Houve muita gente a ganhar dinheiro com a crise e de certeza que os cortes e apertos de cinto não são para todos. Portanto existirá alguma criminalidade logo na base. Os jovens oriundos de bairros sociais, como o de Povos, estão mais em risco de caírem na tentação?Há problemas sociais em todo o lado, mas nos bairros sociais são amplificados pelo facto de as pessoas terem menos recursos económicos. Existem conotações que já estão enraizadas nas pessoas que vivem nestes lugares e nas pessoas que não residem em bairros sociais. Quem aqui vive sente que pode ser marginalizado por morar neste bairro. Conheço pessoas que são residentes aqui e que omitem o nome do bairro quando vão a entrevistas de trabalho, dizem só o nome da rua e da cidade porque, se estiverem a concorrer com outra pessoa que seja de outro lugar, mesmo que essa outra pessoa seja menos qualificada, as empresas preferem-na aos que moram nestes bairros. A revolta é contra o estigma e não contra as pessoas. A política de construir bairros sociais nas periferias das cidades é a mais correcta?Espero que essas opções não tenham sido tomadas porque se pretendia deliberadamente criar guetos. Prefiro pensar que na altura não haveria outros espaços para se construírem os bairros. Há uma tendência natural para este tipo de casas nascerem na periferia e não sou a favor dos bairros deste género, porque há muitas colisões de valores. Seria mais fácil integrar estas pessoas e sociabilizá-las se estivessem noutros locais onde não se sentissem marginalizados.Colocar toda a gente da mesma condição no mesmo sítio dificulta essa integração?Estas eram pessoas que já viviam em condições degradantes. Já tinham em comum estarem excluídas, fosse por não terem instrução ou trabalho. Havia toda a vantagem de ter estas pessoas a tomar contacto com uma realidade diferente. A interculturalidade não é só misturar os pretos com os brancos e os amarelos. Passa pelo rural e pelo urbano, rico e pobre. Há pessoas que criticam o facto de alguns moradores destes bairros beneficiarem de apoios do Estado e depois terem carros de gama alta à porta de casa. Este tipo de apoios é um convite ao comodismo?Já foram mais. Quando o antigo rendimento mínimo surgiu os critérios de atribuição e monitorização não estavam tão afinados como estão hoje e isso permitiu algum desleixo. Actualmente, até pela experiência no concelho de Vila Franca, sabemos que o cerco é mais apertado e as pessoas são de facto incentivadas a procurar e começar um percurso de inserção, caso contrário o apoio é cortado. É coordenadora de um projecto que visa combater a exclusão social, escolar e digital dos jovens do bairro de Povos. Quais são as situações mais complicadas com que se confronta?O consumo de álcool é um grande problema, especialmente por ser legal. Mas o tráfico, toxicodependência e violência doméstica são outros assuntos que nos preocupam. Actualmente a nossa ajuda abrange perto de 250 crianças em áreas como a orientação escolar, apoio psicológico, formação parental e orientação profissional. Já teve jovens que reagiram mal quando os tentaram ajudar?Nunca tivemos um caso de recusa total. Mas há casos complicados, muitas vezes recebemos situações de jovens que precisam de apoio psicológico e nós temos dificuldades em impor esse apoio. Até hoje nunca fui ameaçada ou agredida e gosto de trabalhar aqui. Já assisti a rusgas da polícia, com os agentes a entrarem pelo bairro e a serem disparados tiros, mas nunca tive chatices.Qual a situação mais complicada que acompanhou?O que mais me marca é quando temos conhecimento de situações que não conseguimos provar, por exemplo de violência doméstica. São situações muito prejudiciais para um jovem. Por várias razões não conseguimos tirar às vezes as vítimas, sobretudo crianças, das suas casas e isso é muito triste. Quando nos confrontamos com a impossibilidade de agir é algo que nos deixa abatidos.E o insucesso escolar não a preocupa?Este é um problema estrutural de há muitos anos e claro que é sempre uma preocupação central, não apenas pelos números. As provas de aferição muitas vezes só servem para as estatísticas, para nos colocar em determinada posição no ranking. Mas o sucesso escolar é muito mais do que isso. Ele é a ferramenta base para a inclusão social das crianças e dos jovens. E principalmente em contextos mais vulneráveis onde os jovens já têm fragilidades. Era importante haver uma prova de aferição à cidadania, porque muitos problemas passariam por ai.O que mudaria uma prova desse tipo?A cidadania implica educação para os valores como verdade e honestidade. Provavelmente o cabular permite entradas na faculdade e permite que pessoas façam cursos superiores recorrendo a cábulas. Se tivessem uma maior educação para a cidadania não seria assim.Resolver todos os problemas sociais é possível ou uma utopia?Eu tenho de acreditar que é possível senão não consigo vir trabalhar todos os dias. Acho que devemos apostar mais na prevenção. É algo que demora muito tempo a ter resultados mas resulta. E às vezes conseguem-se bons resultados com pouco dinheiro. O “Poder (es)colher” custa por dia, por cada destinatário, 47 cêntimos. Isso chega para as necessidades?Não chega, gostava de ter mais três técnicos e realizar algumas obras no espaço e adquirir equipamento. Mas com boa vontade e empenho temos conseguido bons resultados que esperamos continuar a mostrar.“Se existisse ligação ferroviária entre Benavente a Vila Franca haveria um grande desenvolvimento dos dois concelhos”Vive em Benavente e trabalha em Vila Franca de Xira. Porque é que nunca se mudou para este concelho?Já pensei nisso. Mas entendo ser importante manter a residência afastada do local onde se trabalha. Porque isso contribui para a nossa sanidade mental, para não nos cruzarmos com as pessoas com as quais trabalhamos todos os dias. É fácil fazer diariamente as viagens entre Benavente e Vila Franca de Xira?Não é fácil. Os autocarros demoram quase uma hora a fazer o percurso. A ponte das lezírias é cara e a recta do cabo é um suplício, tem um trânsito caótico. Construir outra estrada ia provocar impactos na lezíria, mas seria possível alargar a recta do cabo e torná-la numa via rápida com duas faixas de trânsito num dos sentidos. Se existisse uma ligação ferroviária entre Benavente a Vila Franca haveria um grande desenvolvimento de ambos os concelhos.Benavente é uma terra atractiva para os jovens?Sim! Muitos dos problemas que estão por resolver noutros concelhos estão resolvidos em Benavente e a habitação é a preços acessíveis. Mas ainda há algum trabalho por fazer na área dos jovens, sobretudo na formação e na ocupação de tempos livres. Falta criar pontes de ligação para o futuro.Têm vindo a público problemas de violência nas escolas de Benavente e Samora Correia mas parece que as pessoas têm medo de falar nestas questões…Às vezes hipervalorizar alguns fenómenos pode ser prejudicial. Mas se as coisas acontecem não as devemos ignorar e fingir que não as conhecemos. Existem problemas sociais em Benavente, sabemos disso, estamos a sofrer com o encerramento de várias fábricas e a perda de vários postos de trabalho. Tudo isso gera instabilidade social que depois acaba com álcool e droga nas escolas. E como é que se pode combater esses problemas?A supervisão e a valorização escolar por parte dos pais é muito importante para reduzir esses fenómenos, mas o problema é que os pais andam aflitos com a sua vida e o seu emprego. E a escola tem de saber adaptar-se a estas mudanças. Hoje a escola é a parte mais chata do dia para os jovens, porque é muito mais giro estar na rua com os amigos, jogar Playstation e futebol. A escola tem de aprender a tornar-se um espaço apetecível e acabar de vez com aquela ideia de que a escola é um lugar para trabalhar. Isso é errado. É um local para descobrir e aprender.Na última festa da sardinha assada morreu uma pessoa colhida por um toiro que fugiu. Mas todos os anos há acidentes. O que pode ser mudado para evitar estas situações?Não vejo mal nenhum em fazerem-se largadas de toiros desde que exista segurança. Há zonas trancadas por reboques e camiões que limitam a fuga do toiro mas há outras que não estão protegidas. Para o ano deve-se reforçar a informação às pessoas. Poderia ser delimitado o percurso do toiro pelas ruas, nem que fosse com uma linha pintada no chão que indicasse a sua passagem. Este ano também fui espreitar a largada e notei que não havia sistema de som que permitisse informar as pessoas do que se estava a passar. Ninguém sabia se era seguro andar pela rua ou não porque ninguém avisou que o toiro andava à solta.Como encara a aspiração de Samora Correia em deixar de ser freguesia de Benavente e passar a concelho?Não sou bairrista e sempre tive uma excelente relação com as pessoas de Samora Correia. Não vejo qualquer problema nas aspirações de Samora ser concelho. Mas não sei se isso será importante, porque a tendência é optimizar recursos e reduzir concelhos. Acho que é mais importante criar infra-estruturas que permitam dar qualidade de vida às populações e só depois pensar na possibilidade de ser concelho.Uma técnica social que não dá esmolaAna Zilda Silva é de Benavente e nasceu na maternidade de Vila Franca de Xira a 12 de Dezembro de 1980. É licenciada em psicologia educacional pelo Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA) e detêm um mestrado em psicologia legal. Há três anos e meio que assumiu a presidência da direcção da Associação para a Promoção da Saúde e Desenvolvimento Comunitário de Vila Franca de Xira, entidade que promove e gere o projecto “Poder (es)colher” no Bairro Municipal de Povos e o projecto de prevenção e tratamento da toxicodependência (PTT), co-financiado pelo Instituto da Droga e Toxicodependência nos núcleos de Alverca do Ribatejo e Vila Franca de Xira. A técnica é coordenadora do projecto “Poder (Es)colher”, um dos 130 projectos a nível nacional que nasceram nos distritos com maiores problemas sociais. O projecto conta com dez anos de existência mas só há sete se encontra no Bairro de Povos em Vila Franca de Xira. O trabalho é o seu maior vício, dedicando-lhe mais de dez horas por dia a ajudar os outros. Adora literatura policial. Ouve U2, Smashing Pumpkins, Sérgio Godinho e Jorge Palma. Tira-a do sério a passividade das pessoas. “Custa-me ver pessoas que não avançam, que não são proactivas e se acomodam às circunstâncias”, defende. Gosta de qualquer cor desde que não tenha padrões. Não é uma aficionada e não dá esmola por entender que é um acto que reforça a usurpação. É uma pessoa que perdoa mas não esquece. A sua viagem de sonho seria à polinésia francesa.

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