Entrevista | 15-12-2011 11:05

“Um acordo subentende determinados princípios como a lealdade”

“Um acordo subentende determinados princípios como a lealdade”

O vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira tem o pelouro do urbanismo e volta a ser responsável pelas obras depois de Rui Rei ter perdido a pasta. Alberto Mesquita fala sobre o estalar do verniz entre o PS e a Coligação Novo Rumo. Em época de retracção económica defende ainda que é preciso garantir receitas para as autarquias com imaginação e reinventar as cidades apostando na requalificação.

A presidente de câmara retirou pelouros a dois dos três vereadores da Coligação Novo Rumo. Por que foi João de Carvalho poupado quando também votou contra a urbanização em causa?Não quero fazer muitos comentários à volta dessa matéria que está a ser seguida pela comissão política concelhia e pela senhora presidente. Um acordo subentende determinados princípios como a lealdade. Mas João de Carvalho teve a mesma posição que os outros dois vereadores.Votou contrariado, segundo disse. Entendia que havia uma margem para que as coisas se desenvolvessem de outra forma. Só João de Carvalho pode dizer por que fez essas declarações e por que não se demitiu logo na altura. Essa decisão de não retirar a João de Carvalho os pelouros foi uma jogada política tendo em conta que o PS fica numa posição desconfortável?O que entendemos, até pela declaração de voto do senhor vereador, é que manifestava algum desconforto pelo facto de ter votado contra. Entendeu a senhora presidente e bem que não se podia ter a postura que se teve para o caso do senhor vereador Rui Rei e da senhora vereadora Helena Pereira de Jesus. O PSD, em conferência de imprensa, deu a entender que houve pressões por parte do PS para que João de Carvalho se passasse para o outro lado…Se houve pressões é preciso perceber de onde. Está a dizer que as pressões foram da parte do PSD?Como não conheço pressões da parte do Partido Socialista é preciso esclarecer quem é que exerceu pressão sobre quem… O PS ficou assustado com o trabalho que a Coligação estava a desenvolver?Não. Na minha opinião os vereadores estavam a fazer aquilo para que foram eleitos: a trabalhar. Não faziam mais que a obrigação deles. Como encarou o facto desses mesmos vereadores se terem vangloriado sobre o trabalho que estavam a desenvolver em algumas entrevistas a O MIRANTE?Há muita maneira de fazer política. Tenho pela Comunicação Social um respeito muito grande mas nunca andei atrás dos jornalistas. Eu trabalho e não ando a dizer que trabalho. Fazer política também é valorizar o que se faz mas tudo o que passa determinado limite é exagerado. O limite passou na altura em que Rui Rei fez comparações com o vereador que detinha até aqui o pelouro das obras que por acaso era o senhor?O que estou a dizer é que cada um tem o seu estilo. Não critico estilos. Aquele estilo não é o meu. Não quer dizer que o meu seja o melhor. Temos que trabalhar e dar o nosso melhor. A avaliação depois é feita na altura própria pelas pessoas.Na discussão do orçamento Rui Rei disse que a obra do Rio Grande da Pipa está melhor preparada que a do Rio Crós Cós em Alverca. Estava a sugerir que quem tinha o pelouro na altura não era tão competente. Como reage à provocação?Como é uma provocação nem sequer tem que ter resposta. A única coisa que quero dizer é que temos sempre possibilidade de melhorar o nosso trabalho. Está a admitir que houve falhas?Não estou a admitir nada. Até porque a obra do jardim municipal, por exemplo, correu mal. E não estou a dizer que correu mal por culpa do senhor vereador. As obras têm estas dificuldades. Não foi acabada a tempo e horas. Temos que ter a humildade de reconhecer que há situações que podem ser melhoradas. Mas reconhece que Rui Rei deixou no ar essa insinuação?Sim. Na entrevista que Rui Rei deu a O MIRANTE disse uma coisa que me deixou desgostoso. Numa determinada passagem, referindo-se às atribuições que tinha na câmara, referiu que uma obra com ele não se pagava duas vezes. Isso caiu muito mal em muita gente apesar de mais tarde vir a retratar-se dizendo que não era aquilo que queria dizer. Na luta política não é necessário chegar a estas coisas. As coisas não voltaram a ser como eram…Costuma dizer-se que quem não se sente não é filho de boa gente… Mas julgava que vinha falar comigo e não sobre o senhor vereador Rui Rei… O senhor vereador Rui Rei provoca-o bastante… Tanto que já insinuou que o pelouro que antes era ocupado pelo senhor era dos sectores mais gastadores.Não me ponho em bicos dos pés a dizer que faço isto ou faço aquilo. Modéstia à parte faço muita coisa mas não o ando a apregoar no facebook. Na reunião em que foram retirados os pelouros à Coligação o senhor foi das pessoas que mais se exaltou. Tem dificuldade em controlar as emoções…A política também tem que ter paixão. De outra forma isto deixa de ter interesse. O proprietário do loteamento em causa tinha direitos adquiridos. Acho que conseguimos uma boa solução. É verdade que é uma cidade que já tem muito betão…O que é um facto é que a anterior solução iria sobrecarregar a cidade muito mais. A senhora presidente chama-lhe a atenção muitas vezes para algumas exaltações. Já tem os braços com nódoas negras?A senhora presidente é a moderadora e às vezes certamente achará que a intervenção é suficiente ou deveria ir noutro sentido. Muitas vezes estou de acordo mas nem sempre. Ainda não se fez a conciliação com os combatentes do UltramarJá foram editados muitos livros e foram produzidos muitos documentários sobre a guerra colonial mas falta ainda falar mais sobre o problema e fazer o verdadeiro acerto de contas com os jovens que interromperam uma vida para combater na guerra. Quem o diz é o vice-presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, Alberto Mesquita, que partiu para Moçambique em 1972 para cumprir o serviço militar. Houve um tempo em que não conseguia falar do assunto mas hoje já aborda mais naturalmente o tema. “Tem que haver uma conciliação com esta geração. Não podemos ser esquecidos como uma coisa que foi usada e de que agora se tem vergonha. Não tivemos culpa”, argumenta. Nos últimos dois anos viajou para Moçambique onde, ironia do destino, trabalha actualmente um dos dois filhos. Sentiu necessidade de voltar ao antigo palco de guerra agora com mais tranquilidade. Foi uma espécie de exorcismo. “A guerra é sempre uma coisa estúpida. Quando chegámos ainda jovens, mesmo sem grande consciência política, todos começámos a fazer interrogações. O que estávamos ali a fazer? O que estávamos ali a defender? O que é certo é que entre todas estas reflexões alguns de nós levaram um tiro ou ficaram feridos”.O que custa a Alberto Mesquita é que sucessivos governos ainda não tenham feito justiça aos jovens que foram enviados para a guerra. O Estado tem a obrigação de apoiar as pessoas que nunca conseguiram endireitar-se por causa dos problemas psicológicos. “Tem que haver esforço mais efectivo de procura de pessoas que devido à guerra continuam a ter problemas”, defende.A Alberto Mesquita choca-o que corpos não tenham sido trasladados porque as famílias não tinham dinheiro para assumir essa despesa. Há quatro ou cinco anos o seu pelotão, entretanto mais reduzido, reúne-se regularmente. “Há pessoas que vamos buscar para o nosso encontro porque têm dificuldades financeiras”, ilustra. Depois da explosão urbanística é tempo de requalificar Tem o pelouro do urbanismo. Como é que tem gerido as pressões?Há pressões de vários tipos. Há pressões das pessoas que querem as coisas prontas porque precisam do empréstimo do banco para construir a sua casa. Procuro que os técnicos tenham isso em atenção. Temos que encontrar soluções e não dificuldades. Depois há a pressão das empresas que se querem instalar rapidamente. Temos a obrigação de apoiar empresas que nos tempos que correm ainda querem desenvolver actividade económica no concelho. Tiveram muitas?O ano de 2010 foi um ano de contra ciclo com muitas empresas a instalar-se. Foi o caso da Ford Lusitana no Forte da Casa. Estamos na expectativa de que os negócios se fechem para que avance com o início da construção das primeiras naves da plataforma. A zona da Castanheira vai ser a zona forte para a instalação de empresas. 2012 e 2013 vão ser anos difíceis mas a economia vai ter que ser reanimada. Até aqui as câmaras viveram muito à custa das licenças das urbanizações mas o paradigma vai ter que mudar.Em 2010 tivemos das maiores receitas dos últimos anos. 2011 está muito aquém das expectativas. Tínhamos previsto dois milhões de receitas e ainda não chegámos a um milhão. Há muita retracção. Como é que as câmaras vão continuar a financiar-se?Temos que encontrar outras formas de ter capacidade de que a nossa cobrança de impostos seja efectiva. Há muitas licenças de habitação por passar o que significa que essas pessoas não estão a pagar IMI (Imposto Municipal sobre Imóveis). Temos que depender menos da construção. Houve anos de grande explosão de construção e agora temos que nos virar para a requalificação urbana. É o paradigma do futuro. Preservar o que temos que preservar nos cascos antigos e demolir e reinventar as cidades com espaços públicos agradáveis e com habitação de excelência nas zonas antigas. Até porque a degradação do parque habitacional é visível.É preciso criar condições aos proprietários para que possam tirar as mais valias e fazer estes investimentos. Não vale a pena exigir que determinada pessoa faça investimentos de conservação na casa quando está alugada por rendas irrisórias. Será possível a requalificação de que fala?Um caso paradigmático é o da Rua Curado, onde há um edifício velho. Levei a reunião de câmara uma proposta para construção de outro edifício que mantém a traça dando uma outra estética ao edifício e permitindo que faça mais um piso recuado na zona superior. Isto vai permitir que o proprietário tenha mais valias do investimento. O caminho para recuperarmos as nossas cidades passa por isto. Se a câmara dissesse que não iríamos ter um edifício velho até cair sem proveito para ninguém.A escolha do candidato do PS é difícil porque há “muitos e bons” Está disponível para candidatar-se nas próximas eleições?Esta é uma matéria que diz única e exclusivamente respeito à comissão política do partido. A escolha está a ser difícil…A dificuldade poderá estar no facto de existirem muitos e bons candidatos.Tendo em conta que a Coligação já ganhou terreno nas últimas eleições, com a saída de Maria da Luz Rosinha há hipótese da câmara mudar de cor nas próximas eleições.Não creio. A distância é confortável. CDU e Coligação Novo Rumo ficaram perto em termos de votação e isso prejudicou a maioria absoluta do Partido Socialista. São 11 vereadores mas fossem nove, como antigamente, tínhamos tido a maioria absoluta. Os novos habitantes votam mais à direita.Sociologicamente o concelho mudou. Foi dominado durante muitos anos pela CDU mas maioritariamente o concelho de Vila Franca continua a ser de esquerda. E quando ouve Rui Rei dizer que o PSD em Vila Franca de Xira está mais à esquerda?Temos que vender produtos e usamos as estratégias mais criativas para o fazer. A Coligação Novo Rumo tinha o CDS-PP que é um partido que não tem nada a ver com a esquerda. Sente-se com vontade de ser candidato ou é como João de Carvalho que diz que prefere não saber se é candidato para evitar a pressão?Aquilo que o senhor vereador diz não comento. Em determinado contexto no mandato anterior colocou-se a hipótese de eu vir a ser candidato. Como felizmente a senhora presidente teve condições e aceitou voltar a candidatar-se essa matéria deixou de ser questão que me preocupasse. E se hoje fosse convidado?Diria que não. Entendo que já fiz o percurso que devia ter feito. A menos que haja alguma alteração. Seja quem for o candidato do PS não terá as mesmas facilidades de campanha que tem uma pessoa tão popular como João de Carvalho. O marketing tem poder mas as pessoas têm revelado ao longo destes anos de democracia e liberdade uma consciência política interessante. Pode haver muitas luzes no ar mas as pessoas querem saber o percurso e o programa das pessoas que estão na corrida. A Coligação já há muito tempo que lhe dava vontade de rir?Vontade de rir tenho sempre. Dia em que não dê uma boa gargalhada não é dia. Não consigo zangar-me com alguém por causa da política. Quando se ultrapassam limites não estamos a fazer política mas a entrar no campo das calúnias.A população sente que não foram dadas as explicações necessárias sobre a saída de José Fidalgo. O PS não deveria ter tomado uma posição?José Fidalgo, a quem o PS e a comunidade muito tem a agradecer pelo trabalho que desenvolveu, tomou uma iniciativa de carácter pessoal que nós temos que respeitar. Quis desenvolver projectos pessoais na área da investigação na faculdade. Por força da lei não se podia recandidatar e quis deixar algum espaço para que outras pessoas pudessem ir desenvolvendo trabalho. Diz-se que na origem da saída estão quezílias políticas no seio do PS…Se assim fosse o próprio José Fidalgo certamente que o teria dito. Alverca é uma área socialista mas curiosamente o presidente de junta é uma pessoa que sendo do partido é vista como sendo pouco solidário.As pessoas têm que ser solidárias de acordo com determinado projecto político mas há uma margem que os presidentes de junta podem e devem preservar. Nas coisas fundamentais o presidente da junta de Alverca tem sido solidário. Às vezes mais do que defender os projectos prejudica as opções da câmara.Cada um de nós tem determinado estilo de estar na vida e na política. Afonso Costa é um indivíduo dedicado à causa pública e aos interesses da freguesia. Essa reivindicação poderia ser feita de muitas formas mas a vida é uma aprendizagem. Eu, por exemplo, já fui muito aguerrido mas agora controlo-me mais. Aprendi que para chegar a determinado destino ir em linha recta pode não ser a forma mais segura. Se formos às curvas contornando os obstáculos, conseguimos lá chegar. O menino de África que foi metido numa jaulaNasceu no Lobito, em Angola, a 26 de Agosto de 1949, e passou a infância junto ao mar num cenário idílico. Andava descalço e de calções e bebia água de coco da fruta que se soltava da árvore e que Sebastião corta ao meio com uma catana.Para o menino habituado à imensidão de África chegar a Lisboa aos 11 anos e ir viver para um apartamento foi um choque. “Meteram-me num quinto andar. Atirava as bolas cá para baixo para me obrigar a ir à rua. Viver num andar era como viver numa jaula”, recorda. Esteve em Moçambique na Guerra Colonial e foi depois que se instalou em Alverca após conseguir emprego como desenhador projectista na extinta Mague. Foi na cidade, onde vive há 40 anos, que casou e nasceram os seus dois filhos. Por regra almoça com a esposa para manter vivo o casamento porque a vida de autarca é absorvente. Quando consegue vai ao cinema. Na cozinha limita-se a dar ideias. Às vezes a esposa, em resposta, convida-o a passar à prática. É apreciador de pratos bem apaladados, como cozido à portuguesa, feijoada e bacalhau com grão. Os arranjos de candeeiros lá em casa ficam por sua conta. Entrou nos meandros da política em 1985. Antes já tinha experimentado a actividade sindical. Mário Soares é a sua maior referência. Foi jogador de rubgy do Sport Lisboa e Benfica quando tinha menos 15 quilos. Foi preciso que recebesse um ultimato da médica para ficar assustado e mudar de vida. As análises revelaram que estava próximo dos limites e Alberto Mesquita teve que adoptar hábitos alimentares mais saudáveis. Passou a deslocar-se a pé ao edifício da câmara, não muito distante do seu gabinete, abdicando da comodidade do carro.

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