Entrevista | 02-10-2013 18:02

“Muita gente só se lembra da Igreja quando está em dificuldades”

“Muita gente só se lembra da Igreja quando está em dificuldades”

Foi meio século de actividade sempre ao serviço de paróquias da região, com excepção dos dois anos em que foi capelão militar na Guiné. Hoje a guerra é outra e chama-se crise, económica, social e de valores. O padre Diogo reconhece que muita gente só se lembra da Igreja quando está em dificuldades e que há um desligamento das pessoas em relação ao sagrado. Beirão de nascimento e “ribatejano do coração” gosta de cantar o fado e de ver os toiros na arena.

Tem sentido os reflexos da crise entre os seus paroquianos?Tenho. Uma das coisas mais gritantes é o ficar sem casa. E por isso a Conferência de S. Vicente de Paulo e a Cáritas têm pago rendas na medida das possibilidades para que essa gente não saia e fique desalojada. Tenho sentido também esses problemas relativamente à saúde. Essas entidades são quem mais faz protecção à medicação que as pessoas necessitam. Não dão directamente dinheiro mas têm um convénio com as farmácias para que as pessoas lá se aviem e deixem as facturas para depois serem pagas. Também há muitas famílias da zona de Rio Maior que vão receber mantimentos uma ou duas vezes por semana. Há dias em que são cerca de 100 famílias contempladas. É de notar também como a comunidade sente os apelos que lhe são feitos e para além de dinheiro dá mercearia e outros mantimentos que depois são distribuídos. Recebe muitos pedidos de ajuda directamente?Sim, mas canalizo-os para a Conferência de S. Vicente de Paulo e Cáritas. Sente que a maior parte das pessoas só se lembra da Igreja quando está em dificuldades?Não sei se será a maior parte, mas bastante gente é assim. Só se lembra de Santa Bárbara quando faz trovoada. Que diferenças são mais marcantes entre os fiéis de hoje e de há 50 anos, quando iniciou a sua carreira eclesiástica?Hoje os fiéis têm mais instrução, quer do ponto de vista humano como de fé. É uma fé mais esclarecida. Naquele tempo era uma fé mais tradicional, que tinha também o seu valor próprio. A vida há 50 anos era mais harmoniosa. Hoje há mais instrução, mais capacidade de teres, digamos assim, mas penso que não é uma vida que proporcione um bem-estar global à pessoa. É mais um bem-estar de imediatismo.Muito ligado ao consumo, à satisfação imediata de necessidades.É. Penso que isso se nota. Nesta evolução toda, o Homem pensou que para voar bastava uma asa e atrofiou a outra. E dá-se conta que não sobe tão alto como se tivesse as duas asas.Houve um desligamento da parte espiritual?Sim, dos valores espirituais, culturais. De tudo aquilo que uma instrução pode dar ao homem. Desligou-se. E eu situo muito essa falta de valores na relação social dos humanos entre si. Porque se essa parte existisse nem era preciso ser religioso, para que não houvesse todas estas guerras e conflitos. O homem perdeu essa asa e perdeu também muito o sentido do sobrenatural.Em que sentido?Hoje não há um respeito pelo sagrado como havia. Um exemplo: as pessoas nos casamentos falam dentro da igreja como se estivessem no mercado, apesar de o padre ser um chato e estar sempre a pedir silêncio. Isso pode também estar ligado ao facto de as pessoas cada vez frequentarem menos o culto religioso, apesar da maior parte da população portuguesa continuar a dizer-se católica?A falha principal não é a falta de religião, é a falta de valores humanos nas pessoas. Consulta-se a Bíblia ou lê-se os documentos do Concílio Vaticano II e repara-se que 80 por cento dos valores aí apontados são de cariz humano. O resto é só um bocadinho. Porque Deus é infinitamente humano, não é um ser divino de costas para o humano.Li numa entrevista que no dia em que tomou posse como pároco em Alcanede, em 1974, até cantou um fado. Gosto muito de cantar e gostava de saber cantar. Ainda no sábado passado cantei dois fados na festa [de 50 anos de carreira sacerdotal].E qual é o seu repertório?Geralmente canto fados do Frei Hermano da Câmara. Mas ando com muita vontade de aprender alguns fados da Amália (risos).O que pensa das músicas do seu colega padre Borga?Gosto e já tenho felicitado o Zé Borga, mas não entro por aí, é outro estilo de música. Também gosto de mornas, mas só para cantar. Para dançar não tenho jeito.Viveu o período conturbado pós-25 de Abril perto de Rio Maior, terra que se celebrizou durante o golpe de 25 de Novembro de 75, quando o país esteve à beira da guerra civil. Tomou partido na altura? Acompanhou os desenvolvimentos de perto?Não tomei partido, mas ia acompanhando o que se passava pelas notícias. Lembro-me da célebre moca de Rio Maior, por exemplo. Nunca me entusiasmei facilmente com a política. Eu rejo-me por uma única norma, que é o amor ao outro. Na altura a hierarquia da Igreja temia que fosse implantada uma ditadura comunista em Portugal. Conheço muitos comunistas que são excelentes pessoas, benfeitores. Mas penso que para se ser bom e socialmente justo não é necessário o alicerce comunista, muitas vezes firmado no ódio, na intransigência, na inveja. A minha perspectiva é que todos sejam ricos. Mas que não se chegue à riqueza pela destruição de outros valores, como o respeito pelo outro e pela propriedade do outro. Alguma vez se zangou com Deus?(risos) Já lhe tenho feito algumas perguntas… Há muitas coisas difíceis de perceber?Há algumas. Uma delas é por que me escolheu para este serviço. Eu que nem fui brilhante nos estudos. Há muita coisa na vida de um sacerdote que o confunde a ele próprio. E só temos uma maneira de sair desta confusão: saber que Deus nos ama. Esta é a primeira verdade que um homem ou uma mulher crente deve ter. Seja qual for a sua história. Esta é a maior verdade do mundo: Deus ama-te. Um ribatejano do coraçãoO padre António Diogo está a cumprir 50 anos de sacerdócio, todos cumpridos no Ribatejo, com excepção dos dois anos que esteve como capelão militar na Guiné, entre 1972 e 1974, na parte final da guerra colonial. Nasceu no dia 5 de Junho de 1936 na freguesia de Casteleiro, no concelho do Sabugal, distrito da Guarda, mas hoje afirma-se um “ribatejano do coração”, que gosta de fado e de tourada. O contacto com a região surgiu cedo na sua vida. O primeiro seminário que frequentou após ter decidido ser padre foi o de Santarém, tinha cerca de 13 anos. A vocação foi alimentada nos seminários de Almada e dos Olivais, tendo sido ordenado padre em 15 de Agosto de 1963. Recentemente foi distinguido pela Câmara de Rio Maior com a medalha da cidade pelas bodas de ouro sacerdotais.Em Rio Maior é pároco em exclusividade desde Outubro do ano 2000, mas as primeiras paróquias que administrou foram as de Alcorochel e Brogueira, no concelho de Torres Novas, a que se juntou posteriormente Casével (Santarém). A mobilização para a guerra, como capelão, interrompeu-lhe o trajecto paroquial. Quando regressou a Portugal já depois do 25 de Abril, foi colocado em Dezembro de 1974 em Alcanede, freguesia no extremo norte do concelho de Santarém. Ali ficou até Outubro de 2000 e ainda hoje mantém laços com essa comunidade.Ver a guerra de perto e a boleia de SpínolaQuando pelos seus dez anos o pequeno António decidiu que queria ser padre estaria longe de pensar que essa missão o poderia levar para cenários de guerra como os que enfrentou na Guiné-Bissau entre 1972 e 1974. É quando fala desses tempos que as emoções sobem de tom. As lágrimas saltam-lhe aos olhos e a voz embarga-se quando fala dos companheiros mortos, da camaradagem e cumplicidade que se cria entre os homens quando enfrentam juntos situações limite. Ainda hoje se encontra com o seu batalhão em jornadas de convívio e reposição de memórias. E “meu capelão” continua a ser a forma como o tratam os homens (e os filhos e netos destes) que em tempos foram jovens levados para uma guerra que muitos não entendiam. “São a minha terceira família, a seguir à de sangue e à eclesial”.No norte da Guiné viu a guerra de perto e também o já então famoso general Spínola (primeiro Presidente da República no pós-25 de Abril), de quem chegou a apanhar boleia de helicóptero. De início custou-lhe a mudança, mas acabou por se habituar e estreitar laços com a comunidade nativa. “Estava sem medo, esperando o que pudesse acontecer”. E por vezes aconteciam tragédias. Como a da emboscada que matou quatro homens do seu batalhão. “De repente estava no meio de quatro urnas…”. Quando veio a Portugal foi visitar as famílias dos falecidos, todos oriundos do norte do país. “Ainda hoje os recordo”, diz com emoção.E com que olhos via um padre a participação numa guerra? “A princípio fiquei renitente em aceitar esse serviço. Via aquele acontecimento em que estávamos com pena, por ser uma guerra, mas também com sentido de serviço e amor sacerdotal por aqueles seiscentos e tal homens. Acho que ninguém com juízo aprova uma guerra, mas um sacerdote deve estar onde está a humanidade. Estive na guerra com o mesmo amor com que estou nas paróquias”.A revolução de 25 de Abril de 1974 foi recebida com alegria pela maior parte do seu batalhão, na altura estacionado perto da fronteira com o Senegal. “Foi uma exaltação grande, embora tenha havido alguns militares de carreira que ficaram apreensivos quanto ao seu futuro”, recorda.

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