Entrevista | 23-10-2013 18:23

“Cuidar da imagem de Nossa Senhora de Fátima foi uma experiência única”

“Cuidar da imagem de Nossa Senhora de Fátima foi uma experiência única”

Carla Rego, 46 anos, é docente no Instituto Politécnico de Tomar desde 1997, instituição onde tirou o curso de Conservação e Restauro. Durante dois dias, analisou de perto a escultura da Capelinha das Aparições, venerada todos os anos por milhões de pessoas. Um marco na sua carreira que considera difícil de igualar e uma experiência que a aproximou mais de Fátima.

Quando, em Maio deste ano, o Laboratório de Conservação e Restauro do Instituto Politécnico de Tomar (IPT) anunciou que iria assessorar o Museu do Santuário de Fátima, no que respeita ao estudo e conservação da imagem de Nossa Senhora de Fátima, havia um coração que batia mais forte: o da conservadora-restauradora Carla Rego, docente do IPT e responsável pela gestão desse laboratório. Foi ela a técnica escolhida para intervencionar, analisar, tocar (com luvas de algodão ou látex) e verificar o estado em que se encontrava a imagem venerada em todo o mundo.A obra, do escultor José Ferreira Thedim, foi oferecida ao Santuário em 1920 por Gilberto Fernandes dos Santos, um devoto de Torres Vedras e colocada para veneração na Capelinha das Aparições. Também foi Carla Rego que, juntamente com a estagiária Lígia Mateus, preparou a recente deslocação da imagem ao Vaticano. Por isso, no domingo, 13 de Outubro, arrepiou-se quando viu pela televisão o Papa Francisco tocar e beijar a escultura. “Já estive tanto tempo com a imagem que o que ela significa para tanta gente acaba por emocionar-me”, confessou.Carla Rego soube da possibilidade de vir a tratar da imagem de Nossa Senhora de Fátima, uma escultura em madeira, alguns meses antes do anúncio oficial, por intermédio do Director do Departamento, João Coroado, ainda numa fase de ante-projecto e numa altura em que outras instituições concorriam com o IPT para firmar esse intento. Trabalhou, com afinco, na preparação do projecto e o objectivo foi consumado. “Já tinha trabalhado com obras de grande valor artístico e cultural mas esta é diferente porque encerra um simbolismo, uma crença e uma fé muito grande. É um marco na minha carreira”, conta a O MIRANTE, com um travo de emoção na voz.A conservadora foi receber a imagem de Nossa Senhora de Fátima à porta do IPT, no dia 3 de Junho, sendo levada para o estúdio de fotografia, local onde o estojo foi aberto pela primeira vez. Nesse dia não houve aulas nesse bloco e os corredores foram encerrados. Quando o director do Museu abriu o estojo, ficou vidrada nela por alguns instantes. “Estava perante a imagem que é vista, todos os anos, por milhões de pessoas”, recorda. Lembrou-se também da mãe, já falecida, que era uma crente de Fátima.“Senti que se iria sentir orgulhosa pela filha se encontrar neste projecto. As emoções vieram mas rapidamente tive que as colocar de lado para me concentrar na parte científica”, conta Carla Rego. Durante dois dias teve que trabalhar, abstraída da confusão das câmaras, máquinas fotográficas e equipas que documentaram todo o processo. “Tinha que tirar o máximo de dados possível e o tempo não podia ser desperdiçado. Pouco comi ou dormi. Era algo que era muito importante para mim e para a instituição que represento pelo que não podia falhar”, diz.Um trabalho de ciência e paciência A conservadora fez uma observação detalhada da obra, à vista armada e desarmada, para identificar materiais e técnicas de execução mas também para verificar problemas que poderiam existir. O trabalho de um conservador-restaurador, diz muitas vezes aos seus alunos, resume-se a ciência e paciência. “Ciência porque precisamos de estudar, às vezes de forma exaustiva, a obra do ponto de vista material e técnico. Devemos estudar os danos, a patologia e estabelecer uma metodologia adequada para a intervenção. Só depois é que intervimos”, refere.Carla Rego recorda ainda o código de ética de um conservador-restaurador que, para poder intervir, tem que ter pelo menos cinco anos de formação académica superior, devendo existir um respeito absoluto pela obra original e pelo seu autor. “A autenticidade da obra tem que se manter. Temos que deixar as marcas do tempo”, atesta.Apesar dos resultados do estudo não poderem ainda ser divulgados, Carla Rego garante que a imagem de Nossa Senhora de Fátima “está em muito bom estado de conservação”. Mesmo assim, antes da deslocação para o Vaticano, a propósito da Jornada Mariana promovida pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, a imagem foi analisada em pormenor. “Vimos onde existia o risco de destacamento de policromia (revestimento de cores), fizemos uma limpeza com solventes químicos e foram limpas a base de ouro e Coroa Preciosa, que pesa 1,200 quilos e contém 2700 incrustações de pedras preciosas”, detalha. O estojo que transporta a imagem foi rebaixado pela casa que o vendeu, a pedido do Santuário, de modo a que a peça encaixe sem qualquer tipo de tensão. A conservadora salienta que, apesar da imagem dificilmente voltar ao IPT, o projecto ainda não acabou uma vez que os dados recolhidos durante o estudo vão ter que ser interpretados. É ainda da opinião que a imagem deve ser observada periodicamente.Um currículo com 26 páginasCarla Rego começou a trabalhar, como docente, no Instituto Politécnico de Tomar no dia 4 de Julho de 1997. No dia 4 de Julho de 2013, encontrava-se a analisar a imagem de Nossa Senhora de Fátima, no laboratório onde habitualmente trabalha, pelo segundo dia consecutivo. Algo inimaginável há alguns anos, para Carla Rego, que é formada em Conservação e Restauro pelo IPT e acabou por ser convidada para ser docente na mesma instituição devido ao seu elevado “sentido de responsabilidade”.Diz que o seu currículo tem 26 páginas no Europass. Tirou o mestrado de Museologia e Património Cultural na Universidade de Coimbra e, mais recentemente, recebeu o certificado em Estudos Avançados em Conservação de Bens Culturais na Universidade de Bilbao. O doutoramento está dependente da entrega da tese.Trabalhou durante seis anos na Direcção Geral das Comunidades Europeias, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Lisboa. O gosto pela pintura levou-a a tirar um curso de Artes Gráficas, à noite, na Escola António Arroio. Para além de dar aulas de pintura e escultura, é ainda coordenadora do Programa Erasmus do curso de Licenciatura em Conservação e Restauro. Natural de Moçambique tem raízes maternas em Ferreira do Zêzere e paternas em Viana do Castelo. Viveu desde sempre em Tomar, cidade que adoptou como a sua terra. Pessoa de gostos simples, gosta de conviver com os amigos e, sempre que pode, vai descontrair ao ginásio.Trabalho aproximou-a mais da mensagem de Fátima Carla Rego já tinha uma ligação a Fátima, através da mãe, tendo visitado o Santuário na sua companhia por diversas vezes. “Sou católica, não praticante e respeito muito, seja esta ou outra religião”. A conservadora confessa que o facto de ter trabalhado de perto com a imagem a aproximou ainda mais de Fátima, dando por si a ler cada vez mais sobre o fenómeno das aparições. “Fátima tem cantos e recantos que vale a pena conhecer. Aliás, a história de Fátima é muito complexa. Não imaginava, por exemplo, que a irmã Lúcia tenha escrito milhares de cartas aos Papas que passaram pelo Vaticano e nem sequer sabia que tínhamos um módulo em betão do Muro de Berlim em Fátima”, explica.O momento mais marcante de todo este processo para Carla Rego foi quando, a 26 de Setembro, a imagem foi recolocada na colunata da Capelinha das Aparições, seu local habitual, após se ter rezado o terço. “Senti-me feliz por ter regressado ao seu local habitual e orgulho de dever cumprido”, recorda. E considera que, apesar dos 93 anos, a imagem tem que continuar a sua missão de sempre. “Nossa Senhora de Fátima deverá continuar a sair na Procissão das Velas e do Adeus, quer chova ou faça sol”, sustenta, acrescentando que se sente uma crente responsável pela sua conservação daqui por diante.

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