Entrevista | 14-08-2015 00:37

"Sinto falta de reconhecimento por parte de Santarém"

"Sinto falta de reconhecimento por parte de Santarém"

Mais de 30 anos depois de ter deixado Santarém rumo ao Sporting, o ex-futebolista Jorge Cadete, agora com 46 anos, regressa à região para ser director geral para o futebol do União de Almeirim. O antigo internacional português responde a algumas questões sobre o novo clube, os objectivos e sobre o futuro mas também aborda o passado e as conhecidas dificuldades financeiras por que passou.

O que fez nestes anos todos, desde o final da carreira?Como profissional deixei de jogar em 2002 e em 2003 fundei, sozinho, a minha academia de futebol. Durante cinco anos fiz a gestão sozinho e em 2011/2012 estive a treinar o Algueirão. Em 2013 candidatei-me ao ensino superior, na Escola Superior de Desporto de Rio Maior. Fiz as provas e consegui entrar. Em Setembro vou para o último ano da licenciatura em treino desportivo.Foi durante muitos anos um futebolista de topo e entretanto confrontou-se com graves dificuldades chegando a ser beneficiário do rendimento social de inserção. Como está actualmente a sua vida?Nem tudo se resolve de um momento para o outro mas vou recuperando e trilhando o meu caminho degrau a degrau. Nem sempre se recupera de um momento para o outro mas quem tem força de vontade, carácter e uma forma de estar na vida com coerência, correcção e humildade, mais tarde ou mais cedo alcança os seus objectivos. Dificuldades financeiras é uma situação que pode acontecer a qualquer um em Portugal. Noutros países, os atletas de alta competição e de desgaste rápido, aos 35 anos têm direito à sua reforma. Em Portugal, os mesmos atletas só têm direito à reforma aos 65, 66 ou se calhar aos 67 anos. Quanto ao rendimento social de inserção, é verdade, foi público.Os jornais disseram que estava na miséria. Chegou a passar fome?Não, nunca passei fome. Quanto à miséria é um termo que a imprensa gosta de utilizar para tentar rebaixar as pessoas. Mas eu não me sinto rebaixado, nem afectado.Mas o que pensa uma pessoa que teve tudo e de repente fica sem nada?Não perco tempo a pensar nisso. O dinheiro é importante mas não é tudo na vida e não me adianta ser uma pessoa rica financeiramente e ser uma pessoa pobre de espírito. Não me adianta andar uma vida toda a ganhar muito dinheiro para depois, nos últimos anos de vida, gastar o dinheiro todo para ver se tenho saúde. Não sou saudosista. Tive o meu tempo e os meus momentos e cada momento é para ser vivido com entusiasmo, dedicação e empenho e isso faz-me estar sempre de consciência tranquila.Foi um figura emblemática do Sporting e do Celtic de Glasgow. Pediu-lhes ajuda nas alturas mais complicadas?Não. Não é orgulho, mas é a minha forma de estar. Se calhar é um defeito meu não chegar lá, bater à porta e dizer: vejam lá se não arranjam um lugarzinho para mim. Metem tanta gente no clube. Já agora metam-me a mim também. Acho que as pessoas deviam ocupar cargos pelas suas capacidades e, primeiro que tudo, todas as pessoas que foram referências e que têm capacidades deviam ser-lhe dadas oportunidades de demonstrarem se são bons ou não e nunca rotulá-los como pessoas que não têm capacidade.Pelo meio teve uma experiência na televisão no Big Brother. Como foi essa experiência? Valeu pelo dinheiro?Recebi um convite da Endemol e depois do José Eduardo Moniz. Aceitei porque queria ganhar o programa e oferecer o prémio a uma instituição de caridade, daquelas que precisasse mesmo. Era o principal objectivo. Estive lá 17 dias e não foi uma experiência difícil. Para quem no desporto passa a maior parte do ano em estágio, estar fechado não foi nada de especial. Se valeu pelo dinheiro? Não, o prémio maior era para quem ganhasse.Este regresso ao Ribatejo está a fazer-lhe bem?Como a minha mãe diz, por vezes precisamos de voltar às nossas origens. Principalmente os ribatejanos parecem que renascem quando voltam ao Ribatejo. Voltei em Outubro de 2013 e em Janeiro (de 2014) surgiu o convite para fazer o programa de televisão Desafio Total. Em Julho (de 2014) surgiu o convite para entrar para a Liga de futebol e agora surgiu o convite para ser director geral do futebol do União de Almeirim. Parece que voltar ao Ribatejo está a dar sorte. A minha história é um pouco como a história da Fénix, que renasceu das cinzas. Sinto-me renascido. E para isso contribui a forma como as pessoas me receberam em Almeirim. Eu cheguei cá e não me senti deslocado.Ter um clube de Almeirim a apostar em si e não de Santarém provoca-lhe que sentimento?Em relação a Santarém o que sinto é falta de reconhecimento da cidade em relação a um nome que toda a gente associa à cidade. Fui uma referência do desporto de Santarém a nível internacional. Ninguém mais do que eu deu a conhecer Santarém ao mundo. Há dois anos apresentei alguns projectos: um sobre dar aulas de futebol a miúdos carenciados e outro sobre ter todos os meus troféus e tudo o que tenho a nível de imprensa numa sala para que as pessoas pudessem visitar. Mas nunca obtive resposta.

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