Entrevista | 16-11-2015 19:10

"A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas"

"A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas"

Foi futebolista profissional, treinador, presidente do Sindicatos dos Jogadores e director geral do futebol profissional do Benfica, mas foi na terra natal que tudo começou. António Carraça guarda as melhores memórias de uma infância e adolescência felizes em Vila Franca de Xira, quando desafiava toiros e tomava banho no Tejo. Continua a fazer questão de tomar o pulso à cidade, regozija-se com investimentos como a Fábrica das Palavras, mas lamenta a falta de um cinema.

Que ligação mantém com Vila Franca de Xira? Não me esqueço das minhas origens, da minha terra, do meu União Desportiva Vilafranquense (UDV). É com prazer que digo que sou o sócio cento e pouco. Foi muito importante para o meu carácter ter desenvolvido actividade desportiva naquele clube. Naquele tempo havia mais dificuldades, mas era com prazer que treinávamos num pelado cheio de pedras e era uma parte muito importante do meu dia e que fazia com que eu me sentisse realizado. Transmitiu-me valores para a minha vida profissional, pessoal, académica e social.Tem acompanhado a carreira do UDV? Ainda neste último jogo da taça fui com o meu filho de 9 anos e ele fez questão de levar um cachecol do clube, precisamente porque sabe qual a ligação que tenho ao clube e à cidade. Vamos lá regularmente a casa da minha mãe e foi um pormenor interessante ele querer ir ver o jogo e até dizia que íamos ganhar 3-0. Além disso, quem gere o clube teve e amabilidade de criar um torneio com o meu nome, o que me deixa muito feliz e honrado.Agrada-lhe o projecto que está a encabeçar o clube e a direcção que está a tomar?Quem está à frente da SAD tem um projecto definido e com condições de crescimento, tendo em conta o que são as limitações dos clubes nestes centros pequenos. No jogo com o Sporting a equipa teve um apoio fantástico e durante os jogos de campeonato julgo ser igual.O clube foi importante na definição da sua carreira?O meu objectivo de vida era ser médico, cirurgião e ainda apanhei o serviço cívico e andei pelo Hospital de Vila Franca de Xira. Nunca pensei ser jogador de futebol e acabei por ser por contingências do jogo, porque aos 16 anos comecei a jogar na primeira equipa do Vilafranquense. Isso fez-me evoluir e depois estar, aos 17 anos, na selecção nacional, sendo o único internacional do Vilafranquense até agora. As oportunidades foram surgindo e acabei por ser jogador profissional durante 15 anos e foi o UDV que me deu a possibilidade de evoluir. Que memórias guarda e que marcas perduram do tempo em que viveu em Vila Franca?A minha infância e adolescência em Vila Franca foram mágicas. A sociedade era mais tranquila e segura. Andei na Escola do Adro que é agora um parque de automóveis e ia e vinha a pé sem preocupações. Vivi muitos anos no cais de Vila Franca, na casa da minha avó. Passava horas a jogar futebol. Era de uma família de classe média, éramos três filhos, sempre nos deram o que precisávamos, mas não havia abundância. Lembro-me que, para jogar à bola e não dar cabo dos ténis, ia à gaveta do meu pai e levava dois pares de meias para jogar sem ténis. É claro que a minha mãe viu que as meias desapareciam e levei um ralhete. Comecei a jogar com os ténis e outras vezes descalço para aquilo durar mais tempo.Gostava de brincar com os toiros no Colete Encarnado e na Feira de Outubro ou não era muito afoito?Gosto muito de touradas e o meu filho também. Eu ia lá para o meio. Quando tinha uns 15 anos, uma vez juntámos um grupo para pegar um toiro em pontas. Formámos, com toda a família a ver, fiquei como segundo ponta de bola, pegámos e quando se deu a contagem para largar nunca ouvi o três. Fiquei sozinho no corno, fui sacudido e caí em frente à porta de casa. Olho para o lado e vejo o animal a arrancar para mim. Alguém me puxou para dentro e ainda ouvi o barulho do toiro a passar. Foi o maior susto da minha vida e ainda ouvi dos meus pais. Passado um mês estava a pegar no Barrete Verde, mas a minha carreira como forcado foi efémera. Tomava banho no Tejo?Tomava pois, mas às escondidas dos meus pais. Aprendi a nadar lá, ia lá à pesca, tirava camarões, enguias, pargos, era uma coisa impressionante o rio.Olha hoje para a sua cidade natal e o que vê?Vejo com grande tristeza que Vila Franca não tem um cinema. Ia todos os domingos ao cinema. O centro comercial onde, recentemente, havia o cinema está entaipado. Mas quando passo na rua do antigo cinema visualizo como era comprar o bilhete, a sala, todo o ritual de ir ao cinema.Já visitou a Fábrica das Palavras? O que achou?Passo lá muitas vezes, porque a minha mãe mora ai à frente. O cais está diferente, a casa que era da minha avó já foi abaixo. Mas esse investimento é sem dúvida uma excelente promoção da cidade, além de que dá opções às pessoas, o que é fundamental.Vila Franca hoje em dia ainda o faz sonhar?Faz, porque ao entrar naquela terra vêm-me à memória todos os momentos felizes que ali tive. E é o que tento proporcionar aos meus filhos, que ainda lá vão frequentemente, e até à minha neta Beatriz que tem cinco anos.* Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE

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