Entrevista | 20-02-2016 12:18

A pintura é uma arma colorida para combater o cinzento dos dias

A pintura é uma arma colorida para combater o cinzento dos dias

É jovem mas é já um rosto conhecido da pintura de Vila Franca de Xira.

A pintura tem de ser uma janela de cor ao alcance das pessoas e uma forma de quebrar o cinzentismo dos dias. Quase como um espelho, para nos permitir ver o melhor da vida, a cores. A opinião é de Ana Sofia Neves, jovem pintora de Vila Franca de Xira cujos trabalhos têm tido menções honrosas um pouco por todo o país. “Vila Franca de Xira é muito apelativa para os artistas e temos uma grande variedade de pessoas com talento aqui, desde a escrita à pintura, fotografia e música. Há uma forte veia artística na cidade e isso é muito bom”, refere.

Ana Sofia Neves diz que já vai sendo tempo de, à semelhança da bienal de fotografia, começar a existir também uma bienal ou exposição anual de pintura, que desse a conhecer o trabalho dos artistas locais à comunidade. “Poderia existir mais atenção à pintura até porque temos bons pintores em Vila Franca de Xira, à espera de uma oportunidade. Poderíamos ter mais iniciativas para mostrarmos o que valemos. E até já temos excelentes edifícios de suporte à cultura, como o Museu do Neo-Realismo e a nova biblioteca da cidade. Estão a ser excelentes apostas, só incentivam ainda mais as pessoas a criar”, defende.

Ana tem 22 anos e é natural de Vila Franca de Xira. Desde criança que se apaixonou pela pintura, depois da avó lhe comprar imensos livros para colorir. Entrou na faculdade para estudar enfermagem mas a falta de tempo para pintar obrigou-a a mudar de curso e está agora no último ano da licenciatura em escultura na faculdade de Belas Artes. Recentemente descobriu a medalhística e confessa-se apaixonada por essa arte. “É a área da escultura que se dedica a medalhas e troféus. É muito bom, alia a pintura à paciência. São coisas pequenas, pormenorizadas, que me dão muito gozo”, explica.

Ana diz que a pintura é uma paixão que foi crescendo consigo. Em 2005 começou a frequentar aulas de pintura e desenho no Centro de Bem-Estar Infantil de Vila Franca de Xira, tendo passado pelo Grupo de Artistas e Amigos da Arte (GART) da cidade, de que ainda faz parte. “A pintura vicia, é como aprender a ler. Começamos devagar e vamos sempre tentando descobrir mais, primeiro uma coisa, depois a outra, experimentando, para vermos até onde conseguimos ir”, conta.

Além das imagens a pintura é também um escape para os problemas do dia-a-dia. “Pinto um pouco de tudo mas sempre na base do realismo. Desde paisagem a retratos e naturezas mortas. Não sou muito dada a outras vertentes. Devo ter pintado uns 40 quadros até hoje nos últimos dez anos”, conta.

O tempo que demora a pintar cada quadro depende do material usado. A pintura a óleo pode demorar entre dois a três meses, devido ao tempo de secagem. Mas a artista vilafranquense também cria com pastel e carvão. “Não sou uma artista que tente passar uma determinada mensagem nas minhas criações. Espero sobretudo que a arte chegue a toda a gente e que possa ajudar a dar a conhecer a pintura”, refere.

A jovem admite que viver só da pintura ainda não é possível, pelo que espera seguir uma carreira na área da conservação e restauro. Já expôs por todo o país e também no estrangeiro, com várias oportunidades a aparecerem ultimamente para o Japão e Estados Unidos. “Na área da medalhística tenho conseguido também ir mais longe com o apoio da faculdade”, conta.

É uma rapariga que se tenta sempre superar e tem um forte espírito de descoberta. “Estamos sempre a aprender, estar parado em frente à televisão é terrível. Em cada trabalho aprendemos sempre uma coisa nova e é isso que nos enriquece”, explica. Na agenda para os próximos meses tem já exposições colectivas em Portugal, como no Porto e Mértola, mas também a participação num congresso na Bélgica em Setembro próximo na área da medalhística.

Vila Franca de Xira é uma cidade com potencial

Para a jovem artista, a cidade natal tem “imenso potencial” que só precisa de começar a ser explorado. “Vila Franca de Xira tem pontos fortes e fracos como outras cidades mas tem muito potencial. Temos aqui pessoas com um espírito muito bom como não se vê noutros locais. Posso visitar outros lugares mas nunca encontro a energia diferente que aqui encontro”, elogia. Ana Sofia Neves diz que o facto de ter o rio Tejo tão perto da cidade é uma “mais-valia” e que o jardim Constantino Palha é “espectacular”. Só lamenta que o centro comercial Vila Franca Centro continue encerrado.

Apaixonada pelo Renascimento

Ana Sofia Neves nasceu e vive em Vila Franca de Xira. As suas principais referências são os artistas do Renascimento, sobretudo Da Vinci e Miguel Ângelo. Quando pinta gosta de ter o rádio ligado. Gosta de música dos anos 80 e de artistas como os Queen, Rolling Stones ou Bon Jovi. À mesa-de-cabeceira tem o diário inédito de Virgílio Ferreira. A sua cor favorita é o azul. A sua viagem de sonho é a Roma e Florença, em Itália. “Sou uma pessoa com muita paciência, é difícil tirarem-me do sério. Mesmo assim as injustiças mexem comigo”, conta. Diz que um artista tem de ter paixão no que faz e que o mais importante é criar, nem que seja para a gaveta. “O mais importante de tudo é sentirmo-nos realizados com o que fazemos”, conclui.

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