Entrevista | 20-02-2016 12:24

“É lamentável para o concelho de Ourém ter dois presidentes de câmara insolventes”

“É lamentável para o concelho de Ourém ter dois presidentes de câmara insolventes”

Fátima contribui com quase 50% de todo o orçamento do Turismo do Centro.

“É lamentável para a história do concelho de Ourém termos dois presidentes de câmara insolventes e logo um a seguir ao outro [Paulo Fonseca e David Catarino]. Percebo que a vida pessoal não tem a ver com o exercício do cargo público, mas não é nada bom para a credibilidade do nosso concelho. Quando vamos a determinados organismos apresentar projectos notamos, por vezes, uns sorrisos marotos, apesar de não nos dizerem nada. Ficamos sempre um pouco incomodados”. A opinião é de Francisco Vieira, presidente da ACISO (Associação Comercial Empresarial Ourém-Fátima) em entrevista a O MIRANTE.

Francisco Vieira é presidente da ACISO há cerca de cinco anos e garante que este será o último mandato. O também director executivo da Insignare - Associação de Ensino e Formação, entidade proprietária da Escola Profissional de Ourém e da Escola Profissional de Hotelaria de Fátima, que dirige há cerca de sete anos, refere que o concelho de Ourém possui actualmente cerca de cinco mil empresas tendo uma dinâmica empresarial “poderosa”.

“É o concelho mais dinâmico do distrito de Santarém. Só somos ultrapassados na capacidade de exportação, que é liderada pelo concelho de Alcanena, de resto estamos em primeiro lugar em tudo. A ACISO possui uma grande diversidade de empresas, desde o Santuário de Fátima até à taberna mais pequena da freguesia de Espite”, explica, acrescentando que é a única associação do distrito de Santarém que abrange apenas um concelho e, mesmo assim, consegue ser das maiores associações do distrito.

O empresário explica que a ACISO tem que lidar com duas realidades distintas: a dimensão internacional de Fátima e a falta de sustentabilidade da grande maioria do comércio na cidade de Ourém. Francisco Vieira culpa a câmara municipal por ter autorizado a implementação de grandes superfícies comerciais dentro do espaço urbano de Ourém. “Não existiu uma lógica comercial e agora existem cada vez menos comerciantes que não conseguem competir com as superfícies comerciais. A ACISO, em devido tempo, chamou à atenção para o problema mas foi acusada pelo município de ter uma visão retrógrada e provinciana. Afinal tínhamos razão”, critica.

Por outro lado, Fátima apresenta uma realidade completamente distinta. A cidade tem uma dimensão internacional com capacidade de atracção de receita para o concelho de Ourém que equivale a 44 por cento das receitas de todo o Turismo do Centro de Portugal. Só para se perceber a dimensão, o Turismo do Centro abrange toda a zona do Médio Tejo mais as regiões a que pertencem as cidades de Leiria, Coimbra, Aveiro e Viseu entre outras. O dirigente exemplifica que, dentro de um mês, vai realizar-se um workshop internacional que vai trazer mais de uma centena de operadores estrangeiros a Fátima. Este ano o jantar de encerramento do workshop é em Leiria e os empresários da ACISO investiram cerca de 150 mil euros só para a concretização deste evento. Os participantes que vêm a Fátima nesse dia não pagam nada.

“Precisamos mostrar que a nossa terra tem uma envolvência grande com grande oferta e diversidade, queremos mostrar que vale a pena vir a Fátima e a Ourém. Isto é tudo feito por uma associação empresarial que não tinha obrigação de o fazer. No entanto, começamos a fazê-lo porque vivíamos um vazio tal de promoção em Portugal - nesta zona que é de transição de organismos e quando se criaram novas entidades - que sentimos necessidade de o fazer, porque se o turismo aqui falha é muito mau”, realça.

“Dirigentes da CIMT não estão tão habituados a trabalhar em conjunto”

Francisco Vieira critica a falta de dinamismo da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo e diz que Ourém tinha muito mais a ganhar com uma ligação a Leiria, onde a forma de trabalhar em equipa é a regra e não a excepção.

Francisco Vieira considera que o concelho de Ourém deveria ter pertencido à Área Metropolitana de Leiria. O empresário afirma que, quando surgiu essa hipótese, fez-se um grande esforço para que isso acontecesse. “Era um princípio de abordagem à regionalização. Considero ser um erro grave em Portugal não haver regionalização. Precisamos gerir e fiscalizar o território com maior proximidade. Esta centralização em Lisboa já vem do tempo da monarquia e dificilmente vai mudar mas é muito pior para o desenvolvimento do país”, critica.

O presidente da ACISO reforça a ligação “fortíssima” a Leiria. “A natureza é muito inteligente. A Serra d’Aire e Candeeiros acabou por criar uma barreira natural em termos de usos, costumes, gastronomia, tradições, etc, e a população do concelho de Ourém acaba por estar muito mais próxima de Leiria do que de Santarém. Temos dificuldades grandes em nos identificarmos”, refere.

Francisco Vieira explica que até a maneira de estar, nos negócios e a forma de trabalhar é diferente criticando a forma de actuar dos dirigentes da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT).

“Se existe esta obrigação de estarmos no Médio Tejo decidimos que íamos trabalhar com eles de corpo inteiro e sermos disponíveis. Temos feito isto e há coisas que correm bem mas podiam correr muito melhor porque as pessoas não estão tão habituadas, como acontece a norte, a trabalhar em conjunto, em unir-se por uma causa colectiva. A ideia que tenho é que são mais separadas e é evidente que isso nos afasta. Não há tanta dinâmica e tanta vontade de trabalhar e mostrar serviço na CIMT e a realidade empresarial entre Leiria e Tomar é muito diferente”, sublinha.

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