Entrevista | 12-03-2017 00:02

Alice Vieira já fez as pazes com as origens ribatejanas

Alice Vieira já fez as pazes com as origens ribatejanas
ENTREVISTA

As raízes da escritora estão em Torres Novas mas a escritora e jornalista manteve durante anos uma relação difícil com a terra dos seus pais.

Aos 73 anos, a escritora e jornalista Alice Vieira é a mais velha autora do grupo de editoras Leya a visitar escolas para interagir com os alunos. Foi a própria quem o revelou a uma plateia de alunos do 5º ano da Escola Básica dos 1º, 2º e 3º ciclos do Bom Sucesso, em Alverca do Ribatejo. Tinham vindo de propósito de manhã - só tinham aulas à tarde - para fazerem perguntas a Alice Vieira.

A escritora, que lançou a sua carreira com o livro infantil "Rosa, Minha Irmã Rosa", uma história que contava aos seus filhos, respondeu a tudo, com a honestidade límpida, e por vezes crua, que é a sua imagem de marca. Os adolescentes quiseram saber em que é que se inspirava para criar os enredos dos seus livros - "no quotidiano" - e de onde vinha a imaginação.

Alice Vieira disse a sua verdade: "Não tenho imaginação nenhuma, a pior coisa que me podem fazer é pedirem-me para inventar uma história de um momento para o outro". Ainda assim, já escreveu perto de 90 livros - para crianças, jovens e adultos - , romances e livros de crónicas, sem nunca deixar a profissão que ama de lado: "Deixaria de ser escritora mas jornalista nunca". Actualmente, escreve para o Jornal de Mafra e para a revista dos Missionários Combonianos.

O MIRANTE fez-lhe algumas perguntas à margem da sua visita a esta escola em Alverca do Ribatejo.

A relação com Torres Novas foi sempre difícil?

Tive uma relação muito má e efémera com a minha mãe e nunca gostei muito de ir às Lapas [aldeia em Torres Novas]. Nasci em Lisboa e não gostava de estar na casa da aldeia, sentia-me mal e mesmo depois de crescer sempre a associei à minha mãe.

Já fez as pazes com a aldeia dos seus pais?

Sim. Fiz as pazes com a terra quando o meu filho decidiu reerguer o negócio de família - é lá que está a fábrica [de produção de álcool etílico] e recuperou as casas. Comecei a ir visitar os meus netos e assim recomeçou a minha ligação à terra, aos primos. Estou a reconhecer a terra, os lugares, as casas... Mas nunca entrei na primeira casa onde o meu filho morou, que era a da minha mãe, só nesta onde ele está agora a viver, que era a casa da amante do meu pai.

O seu pai era, portanto, um marialva…

Descendo de duas famílias: os Vieira e os Vassalo e a minhas primas contavam-me que as pessoas de Torres Novas tinham este dito: "Vieiras e Vassalos é tê-los e largá-los", era uma coisa quase fatal. Todos eles tinham a mulher da aldeia e a mulher de Lisboa. Eu vivia em Lisboa, ouvia isto e não podia sequer olhar para a casa onde morava a mulher de lá. Cheguei a conhecê-la, quando espreitei através da vidraça [risos].

Revê-se em alguma característica do Ribatejo?

Sim, gosto muito de touradas. Fui sempre habituada desde pequena a assistir e até garraiadas gosto de ver. Acho que é um jogo entre um homem e um animal.

* Entrevista completa na edição semanal de O MIRANTE.

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