Entrevista | 08-11-2018 12:30

Não tenho inimigos e acredito que o diálogo é a melhor solução para resolver problemas

Não tenho inimigos e acredito que o diálogo é a melhor solução para resolver problemas
Isaura Morais diz que é cedo para pensar num cargo de deputada na Assembleia da República

Isaura Morais está há nove anos como presidente da Câmara de Rio Maior.

Numa altura em que Rio Maior celebra o seu feriado municipal, a 6 de Novembro, O MIRANTE conversou com a presidente do município, que está no seu último mandato no cargo. Isaura Morais garante que vai continuar na política activa e não fecha as portas a outros desafios.

Está no seu último mandato como presidente da Câmara de Rio Maior. É para levar até ao fim?

Tudo o que tenho assumido, por regra, tem sido levado até ao fim. Sim, quando me candidatei foi para que assim fosse.

E se o seu partido a convidasse para integrar a lista para as próximas legislativas, em 2019, como candidata a deputada? Iria pensar no assunto?

É verdade que daqui a um ano há eleições legislativas. Esses convites partem da nacional ou da distrital do partido, mas é cedo para falar nisso. Terminámos agora o primeiro ano deste mandato e essa é uma situação que não se coloca ao dia de hoje. Daqui até às eleições legislativas ainda terei tanta obra e tanta coisa para fazer neste meu concelho…

E se a convidassem para ser candidata a presidente noutro município? Como reagiria?

Não diria imediatamente não, mas penso que seria difícil para mim aceitar uma candidatura a outro concelho que não o que me viu nascer. Até pela forma como encaro a política autárquica, baseada na proximidade e conhecimento que deve existir entre eleitos e eleitores, no conhecimento próximo das suas necessidades e dos seus problemas no dia a dia, das prioridades e estratégias.

Pensa continuar na actividade política após deixar a Câmara de Rio Maior?

Desde 2005 que participo activamente da vida política do meu concelho, primeiro como presidente de junta, depois como presidente de câmara, lugar que, por força da limitação de mandatos, deixarei de ocupar em 2021. Após essa data, mesmo sem qualquer cargo, espero continuar politicamente activa pois sinto que será meu dever continuar a promover a participação cívica e aproximar os partidos e os políticos das pessoas. Algo que sempre fiz ao longo dos meus mandatos, quer na minha actividade partidária quer autárquica e que espero continuar a fazer no futuro.

Já tem ideia do que vai fazer quando deixar de ser autarca?

Já são 13 anos seguidos da minha vida em cargos executivos a tempo inteiro, primeiro na junta e agora na câmara. Vou viver um bocadinho a minha vida pessoal, vou valorizar aquilo que tenho desvalorizado e tenho a minha casa para arrumar.

Ainda no campo das hipóteses. Se saísse, a presidência da câmara ficava bem entregue ao seu vice-presidente Filipe Santana Dias?

Imaginando que acontecia uma situação dessas, e estamos a falar no campo das hipóteses, eu nunca deixaria a câmara se não tivesse a certeza e a convicção que a deixaria bem entregue.

Há quem o veja como o seu sucessor natural, depois de já lhe ter sucedido à frente da Junta de Freguesia de Rio Maior. Têm carreiras semelhantes a nível autárquico.

Sim, é verdade. Quando me candidatei a primeira vez à Junta de Freguesia de Rio Maior, longe estava de imaginar o que poderia vir a acontecer. O Filipe Santana Dias fazia parte da minha equipa da junta de freguesia, depois foi meu sucessor e hoje está na câmara como vice-presidente. Penso que seria um bom sucessor, à semelhança do engenheiro Candoso, que também está na minha vereação e que me acompanha desde o primeiro momento na câmara.

A coligação entre PSD e CDS na Câmara de Rio Maior sofreu um abanão com a retirada de pelouros à vereadora do CDS Ana Filomena Figueiredo. Preferia que ela tivesse entretanto saído do executivo e desse lugar a outra pessoa em quem os eleitos do PSD tivessem, eventualmente, mais confiança política?

Não. Preferia que ela se tivesse retractado na altura em que lhe pedi para o fazer, para que isto não tivesse acontecido. Para mim teria sido muito mais tranquilo se nada disto tivesse acontecido. Até porque eu nunca tinha tido a área da educação, se bem que é uma área fantástica, muito envolvente e gratificante. Mas muito trabalhosa...

A retirada dos pelouros foi mesmo o último recurso.

Chamei-a na altura, pedi-lhe que se retractasse face ao que tinha acontecido. Quanto à questão se preferia que ela tivesse renunciado ao mandato, isso não sei. Quando somos eleitos os mandatos são nossos e essa é uma questão interna do partido dela, o CDS/PP. Volto a referir que essa situação não colocou em causa a coligação entre o PSD e o CDS/PP. O que aconteceu foi uma questão individual envolvendo a vereadora Ana Filomena.

Após nove anos como presidente, quantas vezes teve vontade de bater com a porta e mudar de vida?

Nenhuma! É verdade que há momentos mais baixos, mas nunca aconteceu colocar em causa a continuidade ou ter vontade de bater com a porta e dizer chega. Há dias difíceis, há semanas difíceis, existem situações que não correm da melhor maneira ou da forma que queríamos, mas quando isso acontece vou à procura de situações que compensem esses momentos mais difíceis. Nunca tive vontade de bater com a porta!

Qual foi a decisão mais difícil de tomar nestes nove anos que leva como presidente de câmara?

A decisão mais difícil foi, certamente, aumentar os tarifários de água, saneamento e resíduos. Infelizmente a situação financeira do município e o contrato de fornecimento de água em alta, assinado por executivos anteriores, não nos davam margem para procedermos de outra forma. Penso que, apesar do impacto que teve e de a oposição ter explorado o tema até à exaustão, os riomaiorenses, depois da contestação natural, acabaram por compreender essa necessidade, como o mostraram os resultados eleitorais de 2017.

Derrota para a distrital do PSD custou a engolir

Aquela derrota há dois anos para a liderança distrital de Santarém do PSD custou-lhe a engolir? Até porque não é muito habitual um presidente não ser reeleito…

Claro que sim! Ninguém gosta de se submeter a eleições e não obter o resultado que queria. O que me custou mais foi que no mandato anterior, quando estive presidente da distrital, mais ninguém queria ser. Porque era um mandato em que tínhamos que preparar eleições autárquicas, com todo o trabalho num distrito como o nosso, com 21 concelhos. Numa altura mais exigente, em que estava a aprender a ser presidente de câmara, fui desafiada a ser presidente da distrital. E também eu ia a votos no meu concelho e tinha que preparar essas eleições.

Nas eleições seguintes para a distrital o cenário era diferente.

Sim, o mandato seguinte era para preparar as eleições legislativas e aí outros valores se elevavam.

Como os lugares para deputado, por exemplo?

Por exemplo. E nessa altura foi o que foi…

Sente que lhe espetaram uma facadinha nas costas? Ou foi mais do que uma?

Não foram grandes mas que levei, levei. Mas há males que vêm por bem e essa derrota aliviou-me um bocadinho da minha vida política, fiquei com mais tempo para dedicar aquilo que mais gosto, a vida autárquica. Não foram grandes facadinhas, nem fiquei com nenhuma inimizade ou ressentimento.

Curiosamente, o seu sucessor à frente da distrital do PSD, Nuno Serra, acabou por perder a liderança há alguns meses, num processo semelhante. Terá sido o que chamam de karma?

(risos) O distrito é só um, somos os mesmos e o PSD é um partido democrático que aceita de bom tom as escolhas que os militantes fazem. Foi isso que aconteceu.

Ficou contente com esse resultado?

Claro que fiquei contente, pois era candidata à presidência da mesa da assembleia distrital pela lista vencedora. Actualmente sou presidente da mesa da assembleia distrital.

Parque de negócios vai dar o salto nos próximos anos

A requalificação do troço da Estrada Nacional 114, que serve a zona industrial da cidade, foi anunciada com pompa e circunstância pelo Governo em Fevereiro de 2017 mas obras, até à data, nem vê-las. O que se passa?

A equipa projectista tem-nos colocado questões, devem estar já na fase de especialidades. Recentemente tive oportunidade de estar em Alcanede com o presidente da Infraestruturas de Portugal, onde lhe disse que aguardava uma cerimónia daquela natureza em Rio Maior para podermos apresentar o projecto. Preciso que me entreguem o projecto, porque está à nossa responsabilidade a questão das expropriações para alargamento da estrada. Sem o projecto de execução não existe plano de expropriações. Acho que vamos conseguir fazer tudo por negociação.

Outro assunto recorrente é o da poluição no rio Maior, que afecta não só o seu concelho mas também os municípios que atravessa até desaguar no Tejo. É um daqueles casos em que parece difícil compatibilizar ambiente com indústria e explorações pecuárias.

Sim, mas a câmara tem feito o seu trabalho. Identificamos as situações e encaminhamos para as entidades competentes.

Fazer a requalificação da zona ribeirinha e ter um rio poluído é contraproducente.

Sim, completamente. Temos as entidades e as empresas sensibilizadas. Assim que arrancar o projecto da zona ribeirinha, que aguarda visto do Tribunal de Contas, a indústria Carnes Nobre vai fazer também um investimento na área de tratamento de efluentes.

O parque de negócios da cidade, projecto pioneiro e considerado modelar na altura em que foi criado, tem dado os frutos que se esperavam?

Esteve muito tempo sem dar, tempo que coincidiu também com a crise que tivemos no nosso país e com a falta de confiança ao investimento. Neste momento temos já em fase de aprovação o projecto da Generis e temos mais um conjunto de empresas interessadas em fixar-se no nosso concelho. Demorou o seu tempo mas acredito que nos próximos anos o parque de negócios possa ter um momento alto de fixação de empresas e de pessoas também.

A instalação dessa fábrica ligada à indústria farmacêutica pode ser a alavanca que tem faltado para dar outra dinâmica ao parque de negócios?

Sim. Após ser notícia nacional que a Generis se ia instalar em Rio Maior tivemos a procura de possíveis investidores, sendo que alguns desses processos estão a avançar de forma muito favorável.

Há mão-de-obra no concelho para suprir as necessidades das empresas, tendo em conta que a taxa de desemprego em Rio Maior é baixa?

Esse é um problema bom. Neste momento temos uma taxa de desemprego no concelho de 3,4%, numa população activa de 10 mil pessoas. O desafio agora é que tenhamos capacidade para fixar as pessoas que venham para cá trabalhar. Compete-nos criar condições habitacionais e de qualidade de vida para fixar cá gente. Porque geograficamente estamos bem localizados e as acessibilidades são boas.

Actual oposição é menos interventiva e menos preparada

Está mais descansada no executivo sem o vereador comunista Augusto Figueiredo, que não conseguiu ser reeleito para o actual mandato?

Por vezes digo-lhe, por graça, que tenho saudades dele. O Figueiredo fazia o trabalho de casa, interessava-se muito pelos assuntos do nosso concelho, no entanto, como ele próprio dizia, era um bocadinho chato. Mas contribuiu também de alguma forma para o meu fortalecimento e formação como presidente de câmara. Quando temos uma oposição forte temos tendência para nos prepararmos melhor.

A actual oposição socialista é mais fraca, na sua opinião?

Menos interventiva e menos preparada. Ao passo que o Augusto Figueiredo fazia trabalho de casa, a actual oposição não faz.

Rio Maior está bem na Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo ou estaria melhor no Oeste?

Rio Maior estaria bem em qualquer das comunidades, pois é um município de charneira, com ligações a ambas, o que lhe permite fazer a ponte entre Oeste e Ribatejo. Talvez o futuro seja aprofundar as relações entre estas duas comunidades mais a CIM do Médio Tejo, criando aqui uma nova NUT II e conjugando os interesses dos mais de 830.000 habitantes destas regiões às portas de Lisboa. Uma região que pode ter um papel importante no desenvolvimento do país em vários domínios, desde os campos agrícolas do Ribatejo às belas praias do Oeste, passando pelo pólo do turismo religioso mundial que é Fátima.

Na política ganham-se mais amigos ou inimigos?

Ganham-se muitos conhecidos...

E uma boa agenda de contactos. Há quem a aproveite bem depois de sair da política…

Também é verdade! Acho que não tenho grandes inimigos. Também não promovo situações que possam levar a isso. Acho que tenho capacidade de diálogo e de me relacionar bem com as pessoas. Quando há dificuldades parto sempre do princípio que o diálogo é o melhor caminho para resolver problemas. Procuro ter proximidade com as pessoas. E quando sinto que algo não está bem, como por exemplo as críticas e comentários nas redes sociais, por norma não os apago e procuro por mensagem privada esclarecer o assunto. Assim fui educada também.

Os munícipes batem-lhe à porta, telefonam-lhe ‘a pedir batatinhas’?

Telefonam. Há dias recebi um telefonema, era um sábado, de um senhor que ia de Lisboa para o Porto, que estacionou o carro no parque subterrâneo, foi almoçar e quando ia para buscar o carro o parque estava fechado. Porque o parque fecha aos sábados à tarde. E acabou por conseguir o meu número de telemóvel através de um cidadão que ia a passar na rua e que lhe o deu. Disse-me que achou estranho terem-no aconselhado a ligar para a presidente da câmara para resolver a situação e terem o meu número (risos). Isso dá-me alguma satisfação.

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