Opinião | 07-07-2011 12:21

Nossa Senhora de Fátima

Há gente a viver muito bem à custa da crise. Sempre foi assim e assim será; com o mal de uns estão outros bem. Há quase meio século o meu pai deu-me umas botas tão grosseiras e pesadas que eu recusei-me a calçá-las e preferia ir descalço para a escola. Tinha vergonha de usar o raio das botas que pareciam maiores do que eu e preferia o pé descalço mesmo de Inverno.À luz dos nossos dias parece que estou a falar de um passado de séculos mas são de ontem as memórias dos pés descalços, frios e feridos das topadas, pendurados por debaixo da carteira da escola.Por gostar tanto de mim a minha avó, por esta idade escolar, dava-me dois tostões para aviar numa garrafa de gasosa da Ramalha um decilitro de vinho na taberna do José Pedro. Era o meu sumo para acompanhar o almoço que era quase sempre açorda quando não era batata cozida com um ovo.Sei agora, depois de ler alguns livros, que nessa altura em que eu ia descalço para a escola e bebia vinho às refeições para ficar mais inteligente, a Europa, nomeadamente a Áustria e a Alemanha, eram países do primeiro mundo e tinham uma população a viver ao nível que alguns portugueses ainda hoje não vivem.Não sei como é que António Guterres, Durão Barroso e José Sócrates educam ou educaram os filhos e se ainda há avós naquelas famílias que tal como a minha, entendem que o vinho ajudava a formar o cérebro das crianças. A fazer fé na forma como todos eles governaram o país nestes últimos anos não tenho dúvidas que estamos ao nível dos anos em que eu andava descalço.Dou um exemplo: o país gastou milhões nos estudos e nas políticas para a construção de um novo aeroporto. Foram anos a fio a gastar dinheiro e a entreter a malta. Tal como se esperava chegamos à conclusão que o aeroporto de Lisboa ainda vai durar muitos e muitos anos e que ainda há muito espaço para as companhias de baixo custo mandarem baixar os seus aviões sem recorrerem aos aeroportos de Faro, Porto ou Beja.O que eu acho extraordinário, para além destas fantasias que só servem para encher de dinheiro o bolso de alguns, é não haver na classe política alguém que bata o pé para a construção de um aeroporto em Fátima. É só fazer as contas. Fátima está no centro do país a menos de uma hora de Lisboa de carro ou de comboio. Portugal tem mais turistas por ano do que população e mais de metade desse turismo desloca-se para Fátima. Alguém tem dúvidas que a construção de um aeroporto em Fátima atraía o dobro dos turistas a Portugal? É possível ignorar para a construção de um novo aeroporto um local turístico que tem mais potencialidades que os monumentos do resto do país todos juntos?O loby por Lisboa e pela centralização chegou à situação que todos conhecemos. Nossa Senhora de Fátima fez tudo o que devia pelos portugueses. Os portugueses agradecem no 13 de Maio mas continuam o resto dos dias do ano a irem fazer a sua mijinha diária junto à Torre de Belém e ao Padrão dos Descobrimentos. JAEA conversa desviou-se. A lenga-lenga não me deixou espaço para dizer que estou quase na idade de voltar à condição física e espiritual de uma criança; por isso andar descalço e ver pouca comida no prato não é ameaça que me tire o sono.

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