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Retrospectiva 2016 | 02-03-2017 09:21
A marchadora que não gosta de andar a pé
Inês Henriques teve em 2016 a sua melhor prestação olímpica, sendo a única atleta a representar um clube da região nos Jogos do Rio de Janeiro, o Clube de Natação de Rio Maior. Depois de ter fixado o novo recorde do mundo dos 50 km marcha, já pensa batê-lo e estar presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Terá na altura 40 anos.

O recorde mundial dos 50 km marcha veio dar-lhe alento extra? O final da carreira ficou mais longe? Depois dos Jogos Olímpicos tive algum tempo para reflectir se continuava ou não a minha carreira. Mas tendo em conta a época anterior, que foi excelente – bati o meu recorde pessoal por três vezes -, e pelo facto de continuar a ter muito prazer naquilo que faço, ponderei continuar.
A ambição de ser mãe vai ficar adiada? Estava com a perspectiva de engravidar mas não aconteceu. E como gosto muito de desafios decidimos, com o meu treinador Jorge Miguel, tentar bater o recorde do mundo dos 50 km marcha.
Já disse que quer bater o seu recorde do mundo. Está empenhada nisso? Sim. Tendo em conta a parte final dessa prova, que foi muito dura, sei que há erros que já não vou cometer da próxima vez, tendo em conta que a partir dos 30/35 km exagerei um bocadinho no ritmo. Estava a pensar que as pilhas não se acabavam (risos) e depois dos 38 km senti que estava com alguma dificuldade. Mas o que efectivamente me custou mais foram os últimos três quilómetros. Foi muito duro e acho que só cheguei ao fim pelo factor psicológico de querer tanto esse objectivo. Nunca parei durante os 50 quilómetros.
O recorde mundial deu-lhe uma projecção mediática acrescida. A intenção era realmente valorizar a minha carreira e conseguir um feito histórico. Penso que de início, quando se começou a falar disso, não deram grande crédito a essa intenção. Mas depois, no final, houve um grande impacto.
Como é que foi lidar com esse mediatismo todo nos dias seguintes? Foi difícil. O telemóvel não parava de tocar. Gosto de responder às mensagens no Facebook e cheguei a um ponto que já não conseguia gerir a situação. As pessoas vinham ter comigo na rua dar-me os parabéns, davam os parabéns aos meus pais, foi muito gratificante. De alguma forma foi também uma compensação para a minha família, que sempre me apoiou.
O que passa pela cabeça de um atleta ao longo de mais de quatro horas de prova, nas alturas mais críticas? Tenta abstrair-se do sofrimento, pensar noutras coisas? Durante a prova tentei abstrair-me, porque eram muitas voltas e andei quase sempre sozinha. Tentei estar em contacto com o público. Depois, na parte final, era o querer chegar ao fim. Vi que estava dentro da marca que queria fazer. Nos últimos 500 metros lembro-me de olhar para o relógio e pensar: “OK! Só tens de terminar, vai com calma que é para chegares ao fim”.
Depois de um esforço desses como é que recupera? O que fez nas horas e nos dias seguintes? No momento em que cortei a meta, tentei manter-me de pé. Estava difícil mas consegui. Ainda consegui discursar, cumprimentar as pessoas todas – foi muita gente de Rio Maior para me ver – e chorei muito, como é óbvio, porque foi uma alegria imensa cumprir o meu objectivo e do Jorge Miguel. No dia seguinte às nove da manhã já estava aqui no centro para levar massagens e seguir para Lisboa, para a Sport tv. Fui a conduzir e até estava fresquinha. Dois dias depois é que senti mais o cansaço. Fisicamente tive de tratar algumas coisinhas mas nada de especial.
Isso quer dizer que o novo ciclo olímpico ainda é para levar a sério? É. Quero ir até Tóquio. Esse é o objectivo. Eu e o Jorge Miguel tivemos isso em conta. Se verificarmos que o meu corpo não está a responder teremos de avaliar a situação. Mas se o corpo responder, sim. Se surgir uma gravidez pelo caminho descansa-se algum tempo e volta-se.
Quando deixar a alta competição pensa fazer o quê? Gosto da enfermagem, é uma profissão de ajudar os outros. Mas se conseguir ficar ligada à parte desportiva e conseguir aliar as duas vertentes seria o ideal. E o Jorge Miguel também quer que eu vá tirar o curso de treinadora (risos).
Por trás de um grande atleta está sempre um grande treinador? Sem dúvida alguma! Só sou a atleta Inês Henriques pelo facto de ter tido o Jorge Miguel como mentor de tudo. Para mim é o melhor treinador português de marcha, porque não foi só a Susana Feitor, não foram só os irmãos Vieira, não foi só a Vera Santos ou a Inês Henriques, ele continua a formar atletas e não é por acaso que já levou seis atletas aos Jogos Olímpicos. E começaram todos com ele.
Para além das competições e dos treinos, gosta de andar a pé ou prefere o automóvel? Confesso que não gosto muito de andar a pé (risos)… Já fazemos tantos quilómetros que ter ainda de ir caminhar não me agrada muito. Prefiro correr ou marchar do que ir caminhar.
Por que razão optou pela marcha e não pela corrida? Comecei em 1992. A Susana Feitor tinha sido campeã do mundo de juniores e havia muitos atletas a fazer marcha. O Jorge Miguel punha-nos a fazer de tudo e, depois, onde nos destacássemos era para onde íamos. Gostei da marcha e comecei logo a obter bons resultados.
Nunca pensou em praticar outra modalidade desportiva? Antes ainda andei no basquetebol mas vi que também não crescia e que não valia a pena. Aos 12 anos fui para o atletismo e por cá fiquei.
Costuma pedir ajuda divina antes das provas? Não. Acredito que existe algo superior e que nos pode ajudar mas, sem dúvida alguma, se não trabalharmos para concretizar os nossos objectivos não os atingimos. Não acredito nas coisas sem trabalho. Posso ter algum talento mas só cheguei onde cheguei através de muito trabalho, durante muitos anos.
Ir a Fátima a pé é uma coisa que está nos seus horizontes? A primeira vez que fiz 50 quilómetros a pé foi da Estanganhola, a minha terra, até Fátima. Fiz cinco horas, por isso sabia que menos de cinco horas nessa distância ia conseguir fazer quando tentei bater o recorde.
Ser atleta de alta competição obriga a alguns sacrifícios. Qual é para si o mais complicado? É uma forma de vida e eu gosto dela. Mas custa-me, por exemplo, estar muito tempo sem ver os meus sobrinhos. E eles crescem muito rápido. É óbvio que a Internet ajuda mas não é a mesma coisa.
Uma das coisas boas é que se viaja muito. Viajamos muito mas não conhecemos quase nada. Neste último estágio na Serra Nevada, em Espanha, disse que era desta que ia conhecer Alhambra. Ainda não foi desta e já vou para a Serra Nevada há 17 anos.
De que se vai desforrar quando deixar a alta competição? Não sei. Uma coisa a que tenho horror é de engordar, por isso vou continuar a praticar desporto e a ter cuidado com a comida. Depois, acho que também vou apreciar a parte de viajar sem responsabilidade e conhecer outras coisas. Como enfermeira gostava de fazer uma missão diferente, de voluntariado, por exemplo.
Em Rio Maior há muitos jovens a praticar atletismo. Sente-se um exemplo para eles? Às vezes estou muito tempo ausente, doutras vezes não treino ao mesmo tempo mas tento sempre relacionar-me, estar com eles. Faço o torneio das freguesias em atletismo, pelo Clube de Natação de Rio Maior, pois entendo que é importante nós atletas de alta competição estarmos ao pé dos jovens. É uma motivação para eles e dá-me gozo fazer essas provas. Tento transmitir aos jovens, e ao grupo mais restrito com quem treino, alguns conselhos. Mas já fui mais chata. Agora, às vezes, respiro fundo e já não digo nada.
São como uma espécie de irmãos mais novos? Às vezes são mais como ‘filhinhos’. O Jorge Miguel por vezes diz-me para não ser tão ‘mãezinha’, pois eles têm que passar pelas dificuldades para se tornarem mais fortes. Somos atletas e neste meio há uma selecção natural.

“Sou uma trabalhadora nata com algum talento”

A marchadora Inês Henriques foi a única atleta de um clube da região, o Clube de Natação de Rio Maior, a participar nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016 e conseguiu um brilhante 12º lugar na prova dos 20km marcha que se realizou a 19 de Agosto. Foi a sua melhor prestação em olimpíadas. Antes tinha feito um 20º lugar em Atenas (2004) e um 15º em Londres (2012).
Só por esse feito conseguido aos 36 anos de idade e competindo num pelotão de 74 atletas merecia ser distinguida como Personalidade do Ano na área do desporto feminino. Mas a poucos dias de o prémio ser anunciado, a 15 de Janeiro deste ano, Inês Henriques voltou a mostrar que continua em grande forma, ao tornar-se a primeira recordista mundial oficial dos 50 km marcha com a marca de 4h08m25s.
Havia um recorde anterior, estabelecido em 2007 pela sueca Monica Svensson com 4:10.59 horas mas só este ano é que a Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) abriu a distância ao sector feminino. Inês e o seu treinador de sempre, Jorge Miguel, abraçaram esse desafio ainda em 2016 e acabaram por ter êxito, acrescentando valor às carreiras de ambos e conseguindo mais um feito para o atletismo português.
A marchadora que sempre representou o Clube de Natação de Rio Maior, concelho onde também sempre viveu, tem uma carreira destacada a nível internacional nos 20 km marcha. Para além das presenças nos Jogos Olímpicos, participou regularmente, desde 2002, nos campeonatos da Europa e do Mundo de atletismo. Nestes últimos obteve a 7ª posição em 2007, em Osaka, no Japão, e foi 11ª no de 2009, em Munique, na Alemanha.
Inês Henriques nasceu em Santarém a 1 de Maio de 1980 mas marchou logo para Rio Maior, para a localidade de Estanganhola, onde a família vivia. Na escola começou a praticar atletismo, e por influência dos resultados alcançados por Susana Feitor, mudou para a marcha. Foi desde sempre treinada pelo técnico Jorge Miguel. Em várias entrevistas que deu a
O MIRANTE sempre disse que queria acabar o curso de enfermagem e ser mãe. O curso já está feito.
Extrovertida e bem disposta, Inês Henriques confessa-se uma trabalhadora nata com algum talento e não acredita em milagres quando se trata de procurar atingir as metas traçadas. No seu caso, a transpiração e a resiliência são as chaves do êxito. E é assim que vai continuar pelo menos até aos Jogos Olímpicos de Tóquio, onde poderá deixar o atletismo de alta competição pela porta grande.

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