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Retrospectiva 2016 | 02-03-2017 09:21
“A minha política é de proximidade, seriedade e sustentabilidade”
Era muito jovem quando decidiu ter actividade política. Partilhou a vontade com o pai e foi o ex-presidente da Câmara de Almeirim, Joaquim Sousa Gomes, que apadrinhou a sua entrada no universo socialista. Diz que nunca teve o sonho de ser deputado mas de ser autarca. Foi eleito presidente da Câmara Municipal de Almeirim em 2013 e diz que sentiu o peso da responsabilidade.

Qual foi a sensação da primeira vez que se sentou na cadeira de presidente? Lembro-me do dia, da tomada de posse mas não me recordo bem da sensação em concreto, porque foi um dia de emoções. Mas senti o peso da responsabilidade. Já fazia parte da vereação mas saber que a partir daquele momento seria o responsável máximo foi algo que me deixou a pensar.
Este era mesmo um sonho de criança ou as coisas foram acontecendo? Foram acontecendo. Entrei na vida política num momento em que era primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva, que teve uma maioria absolutíssima em 1991. Na altura havia uma série de questões importantes para a juventude e tinha uma visão diferente daquela que era a do então Governo. Depois surgiu a hipótese de entrar para a assembleia municipal, quando tinha amigos que sonhavam ter lugares em Lisboa, como deputados por exemplo. Nunca tive essa ambição e sempre gostei muito mais do trabalho autárquico, apesar de ter tido convites para trabalhar no Parlamento Europeu e até era muito interessante em termos financeiros.
Agora que chegou ao ponto máximo da política autárquica já pode estar disponível para outros cargos. Não sei o que vai acontecer mas não me vejo a ter outras funções, enquanto puder vou ser autarca.
Entrou para o PS porque queria ser político? Porque já sonhava ser presidente de câmara? Na altura já fazia parte da Juventude Socialista e revia-me nos ideais do PS, entendendo que eram os melhores para uma sociedade mais justa. Tive a sorte na altura aparecer muita gente que impulsionou a Juventude Socialista e fazia-se muita coisa. Ninguém consegue andar 25 anos nesta vida por obrigação. Na vida autárquica ou se vai aos sítios e está-se com as pessoas porque se gosta ou não se aguenta mais de um ano.
Foi o ex-presidente da câmara que lhe abriu as portas da política? Em jovem frequentava o salão de jogos Grupo 4 onde me encontrava com muitos dos meus amigos, que eram da JSD. Irritava-me não poder fazer nada e falei com o meu pai se conhecia alguém que me pudesse levar para a JS. O meu pai falou então com o presidente Sousa Gomes (já falecido) que me mandou apresentar na sede do partido.
É mesmo necessário manter ligação com colectividades e ser mesmo presidente dos bombeiros? Tive várias ligações a colectividades que fui deixando quando iniciei o mandato de presidente da câmara. A relação com os bombeiros é especial e sempre consegui manter uma separação de poderes. Comecei por ser dirigente dos bombeiros numa altura em que não estava na câmara e criou-se uma ligação.
Que motivações tem para prosseguir a actividade política? Principalmente o contacto com as pessoas. Por isso faço atendimento aos munícipes duas vezes por semana. Mas também poder intervir no nosso concelho ao nível das obras e das acções. A motivação é fazer coisas que são importantes para o concelho onde nasci.
No fim do percurso como presidente está a ver-se num lugar mais calmo como o de presidente da assembleia municipal? Continuo a ser funcionário da Autoridade Tributária (Finanças) e em última análise é para onde regresso. Mas tendo em conta a idade que tenho e se fizer os três mandatos que a lei permite, ainda serei alguém com uma idade relativamente nova na altura, não me choca continuar a participar em listas autárquicas para outras funções.
Quais são as suas principais frustrações diárias? A burocracia e o não conseguir que as coisas andem ao ritmo que gostaria. Continua a haver uma série de gente em Lisboa que não faz a mínima ideia das leis que faz e do que complica a vida aos autarcas. Neste momento assiste-se a uma vontade de toda a gente em produzir legislação para deixar uma marca como político mas tem influência negativa na consolidação de processos.
Sabe-se que faz tudo para que as pessoas não tenham uma má imagem de si. Isso é uma questão de gestão eleitoralista? É uma gestão de proximidade. Sou um pouco perfeccionista e se fazemos bem o nosso trabalho é normal que as pessoas não digam mal. Aprendi muitas coisas com o anterior presidente e lembro-me que, quando entrei na câmara, aos 23 anos, como vereador, ele disse-me: Se achas que vens mudar o mundo, desengana-te que ele não se muda de um dia para o outro. Faz o teu trabalho e se for bem feito as pessoas vão reconhecê-lo. Mas também há uma tendência natural de as pessoas dizerem mal do que não conhecem e por isso tento explicar tudo o que se vai fazendo.
Passa o tempo a ver obras, a visitar instituições, a ir a praticamente todas as iniciativas. É um presidente sem vida pessoal? Dedico muito do meu tempo à actividade política. Habituei-me a um determinado ritmo mas consigo ter momentos fora da vida política e, felizmente, ainda consigo conviver com os amigos. Ainda vou conseguindo convidar amigos para almoçar ou jantar em minha casa e até cozinho a refeição. Almoço ou janto muitas vezes em casa dos meus pais e confesso que se não fosse assim passava muito tempo sem os ver.
O ser pai pouco tempo após ser presidente mudou a sua forma de agir ou de pensar? Ser pai aumenta a responsabilidade. E ter um filho dá-me uma perspetiva diferente da vida, relativizando algumas situações e problemas.
Porque é que não tem motorista, assessor de imprensa e anda quase sempre sozinho? Os motoristas da câmara estão afectos a outros serviços que são mais necessários, por exemplo no transporte de crianças. Às vezes até me fazia falta um motorista porque chego a fazer milhares de quilómetros por mês mas não tenho sentido essa necessidade. Já me aconteceu algumas vezes ir com alguém ao lado e passar por motorista da pessoa quando vou a reuniões. Quanto à comunicação sou muito chato nisso e prefiro ser eu a fazer.
O que é que mudou no concelho sabendo-se que as principais, obras foram feitas pelo seu antecessor. Estamos a fazer investimentos, alguns complementares. Depois dos centros escolares era necessário recuperar as escolas mais antigas. Estamos a fazer investimentos com a perspectiva de serem sustentáveis, como a ponte em Benfica do Ribatejo que tem um efeito importante na agricultura. Recuperámos uma forma de estar de presença nas iniciativas e de total abertura. Também demos um carácter diferente à cultura, com mais ofertas. O que estamos a fazer é com uma estratégia de futuro.
Que tipo de política acha que está a fazer? Uma política de proximidade, séria e sustentável, para que quem venha a seguir não tenha que se preocupar com questões financeiras e com obras que não tenham utilidade.
Quando fechar o ciclo de presidente o que é que gostava mais de ter concretizado? Almeirim é conhecida em áreas como o vinho, a gastronomia, a agricultura e temos a fábrica da maior empresa agroalimentar. Gostaria de conseguir criar condições para as centenas de milhares de pessoas que procuram a nossa gastronomia tenham mais condições e possam por exemplo a dormir por cá. Esta aposta é importante para a economia local. Outra área fundamental é a educação e queremos ter cada vez mais qualidade nesta área através de mudanças estratégicas.
Diz-se que é teimoso e que tenta fazer prevalecer sempre a sua ideia. É verdade que sou teimoso mas também chato e tenho um feitio difícil. São características que vou tentando dominar reconhecendo que tenho esses defeitos. Mas isso não é problema porque para não me aturarem as pessoas esforçam-se para entenderem comigo.
É mais aliciante ser presidente de câmara ou presidente da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo? O trabalho da comunidade intermunicipal não exige uma permanência de proximidade mas dá uma visão global de uma região. Os dois cargos complementam-se. Um presidente de câmara que é presidente da comunidade intermunicipal fica com uma visão vasta do território, o que também é importante para as decisões que toma no seu concelho.

Autarca por vocação que não quer depender da política

A cumprir o seu primeiro mandato como presidente da Câmara Municipal de Almeirim, Pedro Ribeiro tem afastado quaisquer dúvidas sobre a sua capacidade para o exercício do cargo.
Equilibrou as contas municipais e liquidou todas as dívidas a fornecedores; tem investido na área da educação; tem recuperado estradas municipais; adquiriu equipamento para responder a necessidades a nível de obras públicas para as quais não há fundos comunitários, criou incentivos para a fixação de médicos e implementou uma programação cultural que, além de apoiar as iniciativas locais, tem apresentado espectáculos de qualidade no cineteatro da cidade, com destaque para o Festival Guitarra d’Alma que se afirmou já anualmente e tem vindo a afirmar-se como o grande festival da guitarra portuguesa a nível do país.
Pedro Miguel César Ribeiro, 43 anos feitos no dia 14 de Fevereiro. Nesse Dia dos Namorados, em que os restaurantes da cidade se enchem de casais enamorados, o autarca socialista já ficou sem comemorar o aniversário porque não tinha mesa nos restaurantes. Não é casado de papel passado porque entende que a vida que faz não seria diferente se tivesse uma certidão de casamento. Pai de um filho de 16 meses. Um nascimento que marca o início das suas funções de presidente de câmara, com que sonhava desde miúdo, e para o qual começou a trabalhar em 1991, quando entrou para a JS.
Tem um percurso de luta e de trabalho que começou na colagem de cartazes para as campanhas eleitorais. Ao fim de dois anos já tinha um lugar na assembleia municipal. Em 1997 entrou para vereador. No mandato seguinte passou a vereador a tempo inteiro. Chegou a vice-presidente da câmara e durante esse tempo só esteve um ano afastado da câmara por causa de um desentendimento com a chefe de gabinete do então presidente e seu padrinho político. Esteve um ano como adjunto do governador civil de Santarém e regressou à autarquia para serenar os ânimos do desentendimento entre o presidente Sousa Gomes e o então vice-presidente, Francisco Maurício, salvando a honra do convento, porque apesar de tudo era em Pedro Ribeiro que Sousa Gomes mais confiava.
Pedro Ribeiro assume que não precisa da política para viver mas é a vida autárquica que lhe enche as medidas, assumindo que é funcionário das Finanças para onde regressará quando acabar o seu tempo na política. É católico, teimoso e tem a mania do perfecionismo. Tem primado por mostrar uma boa imagem da política. Tem o mesmo carro há 16 anos, continua a frequentar os mesmos locais onde sempre foi antes de ser presidente e em 2005, quando fez o interregno nas funções autárquicas, tinha direito a receber 18 mil euros de subsídio de reintegração mas não pediu o dinheiro.
Pedro Ribeiro, eleito com maioria absoluta, é também presidente da Comunidade Intermunicipal da Lezíria do Tejo, que agrega 11 municípios. É um autarca que não se esconde e que diz o que tem a dizer quando é preciso garantir os direitos das populações, como aconteceu recentemente quando exigiu melhores condições no Hospital Distrital de Santarém.

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