Retrospectiva 2016 | 02-03-2017 09:21

“A vida sem música seria árida como um deserto”

“A vida sem música seria árida como um deserto”

Com mais de 500 alunos o Conservatório de Música de Santarém é uma referência pedagógica e cultural da cidade. A instituição é liderada há mais de vinte anos por Beatriz Martinho, que também esteve no núcleo fundador, já foi aluna e actualmente canta no coro.

O Conservatório de Música de Santarém é mais do que uma organização onde se ensina música e dança? Acima de tudo é uma escola cuja vertente de ensino é arte e cultura, música e dança. O Conservatório tem paralelismo pedagógico com o Ministério da Educação e todos os alunos quando acabam o oitavo grau podem concorrer a qualquer escola superior, quer no país quer no estrangeiro.
Em que medida são importantes as parcerias com escolas da cidade no âmbito do ensino articulado? São muito importantes. Temos parcerias ao nível do ensino articulado com os três agrupamentos de escolas da cidade – Alexandre Herculano, Ginestal Machado e Sá da Bandeira. Em Agosto de 2015 foi reduzida de forma drástica a verba para o ensino articulado e tivemos que reduzir o número de alunos. Ponderámos muito sobre aquilo que devíamos fazer. Uma das hipóteses era não inscrever novos alunos no ensino articulado. Mas, consensualmente, depois de fazermos muito bem as contas, optámos por reduzir o número de alunos a entrar. Em vez de 30 passaram a ser 15 ou 16 novos alunos por agrupamento, mantendo os outros que já cá estudavam.
Esse ensino é financiado pelo Ministério da Educação? Sim. O ensino articulado é uma oferta que o Ministério da Educação faz através dos conservatórios. Os alunos do ensino articulado não pagam para frequentar o Conservatório. No ano anterior a ter saído essa legislação já tínhamos suportado o estudo de alguns alunos e essa situação não podia continuar. A nossa preocupação é manter o Conservatório vivo, activo, dinâmico, fazendo sempre cada vez mais com muita qualidade, mas sem colocar em causa a sustentabilidade financeira.
Há a ideia de que frequentar o Conservatório, sobretudo em níveis mais avançados, é dispendioso e não está acessível a todas as bolsas. É assim? Sim, é sempre dispendioso. É sempre um encargo acrescido, por isso é que não temos aumentado as mensalidades, proporcionando assim que um maior número de crianças frequente o nosso Conservatório. E esse número tem aumentado, também devido às excelentes instalações que a Câmara de Santarém nos disponibilizou. Mas não fechamos as portas a nenhuma criança que queira aprender música, inclusivamente das instituições ou de lares, desde que sejam casos comprovados de dificuldades económicas.
A realização frequente de espectáculos na cidade é uma boa forma de promoverem o vosso trabalho? É sem dúvida uma forma de promover o nosso trabalho, mas também faz parte dos objectivos do ensino da música e da dança que os nossos alunos vivam outros palcos para além do ambiente mais intimista do Conservatório. Palcos com mais público, como aconteceu nas Portas do Sol, onde tivemos mais de mil espectadores, segundo a projecção que a câmara fez.
A boa adesão do público é um sinal de que a cidade está desperta para o vosso trabalho e para a música? Já não falo tanto do nosso trabalho, o que poderia ser interpretado um bocadinho como sinal de vaidade, mas realmente as pessoas estão a sentir que a música faz parte integrante da formação do ser humano e, por conseguinte, dos seus próprios filhos e também dos adultos - pois temos cá alguns a aprender música.
Além de liderar o Conservatório de Santarém também canta no coro. É uma vida rodeada de música. Sim. Tenho nove netos e todos eles frequentam o Conservatório. Este é um dos grandes projectos da minha vida, que abracei há 31 anos quando fui convidada para ser uma das sócias fundadoras. Sou professora de educação especial e sei como as crianças com necessidades educativas especiais se transformam com a música. É uma coisa fabulosa. As melhorias são tão notórias que chega a ser comovente.
Como é que uma pessoa ligada sobretudo à música erudita convive com a música mais popularucha a que em tempos se deu a designação de pimba? Não me afecta. Sinto que a comunidade não é feita só de pessoas que gostam de música erudita e que há pessoas que gostam de outro tipo de música. Tal como há outros tipos de música de que gosto para além da erudita. Gosto muito de bandas filarmónicas, por exemplo, de as ver a acompanhar as procissões.
O que é que acha de um cantor como Quim Barreiros e das letras das suas canções? Sobre isso não me quero pronunciar (risos)... Mas respeito quem aprecia. E a verdade é que em festas como as das queimas das fitas das universidades os jovens gostam e aplaudem. Por isso tenho que respeitar, porque algum dia também posso lá ter os meus netos a aplaudir, apesar de andarem no Conservatório e de gostarem de música erudita. Há ocasiões para tudo!
Há gente formada em conservatórios a actuar nesse género musical. É um desperdício de talento? Não tenho nada que criticar porque a música clássica que aprenderam está com eles e nunca mais vão deixar de a sentir, de a tocar e de a ouvir.
O que seria para si a vida sem música? Era quase como um deserto. Tenho duas paixões muito especiais na vida, a minha família e depois a música. Portanto com isto devem perceber o que seria a minha vida sem música. A música vive comigo desde sempre. Uma das minhas avós era professora de música no Conservatório, vivi sempre num ambiente de música e acho que não conseguia viver sem ela.
Tem músicas que associa de imediato a pessoas, lugares e a determinados momentos ou fases da sua vida? Tenho, mas há uma obra que realço pela sua abrangência, porque tem músicas adaptadas ao ano inteiro, que é as “Quatro Estações”, de Vivaldi. Cada estação tem a sua beleza e em todas elas aconteceram factos na nossa vida que nos encheram de felicidade. E é tão fácil encontrar felicidade em pequeninas coisas. Eu sou feliz, por exemplo, quando venho a pé de casa até ao Conservatório todos os dias, antes das nove horas muitas vezes, e encontro pessoas que já conheço há muito tempo e a quem cumprimento. Sou feliz a cumprimentar e sou feliz quando elas me cumprimentam, me dirigem uma palavra ou quando lhes retribuo essa palavra ou as abraço.
Se lhe pedisse uma música da sua vida qual escolhia? A Quinta Sinfonia de Beethoven. Adoro!
Em casa escolhe a música que ouve ou deixa o rádio escolher por si? Habitualmente escolho, porque tenho pouco tempo livre. Normalmente é ao final do dia. Gosto de estar na sala, com o meu marido, vamos lendo, vamos falando dos filhos, dos netos e da vida maravilhosa que temos.
Não acorda de noite com uma música na cabeça, como acontece com algumas pessoas? Às vezes acordo com músicas na cabeça, tal como por vezes dou comigo na rua a trautear uma música qualquer. A música, a boa música, faz parte da minha essência como ser humano. A partir daí vêm os projectos todos que poderei fazer com a música e com a dança arquitectando logo aquilo que posso oferecer aos outros. Porque isso torna-me muito feliz. Aliás, é uma felicidade biunívoca - aquela que recebo ao projectar e aquela felicidade que imagino que as pessoas recebem quando lhes transmitir os projectos que aqui realizamos. É muito bom viver assim, apesar de haver projectos que não correm logo como desejamos. Mas esses arrumo-os bem arrumadinhos e vão sendo resolvidos depois. É assim que eu vivo e vivo muito feliz.

Mais de trinta anos a ensinar música e a promover a cultura

O Conservatório de Música de Santarém é uma cooperativa sem fins lucrativos que foi fundada em Maio de 1985 por um grupo de doze pessoas que partilhavam o gosto pela música. Actualmente tem mais de 500 alunos e cerca de 40 professores. Beatriz Martinho é, há mais de duas décadas, o principal rosto de uma instituição que ganhou novo fôlego após mudar, em 2011, para as renovadas e mais adequadas instalações, cedidas pelo município no requalificado Palácio João Afonso, no centro histórico da cidade.
Essa foi uma das muitas lutas travadas pela presidente da cooperativa, que também canta no coro da instituição e já foi aluna da casa que ajudou a fundar e onde nunca ganhou um cêntimo. Beatriz Martinho é professora de ensino especial aposentada, foi dirigente sindical e actualmente dedica-se ao Conservatório a tempo inteiro.
O Conservatório de Música de Santarém é uma organização dinâmica que não esgota a sua actividade no ensino da música. Regularmente, ao longo de todo o ano, realiza espectáculos na cidade onde alunos e professores expressam a sua arte perante o público. Bandas de rock, combos de jazz, música de câmara, a orquestra e os coros de jovens e de câmara são algumas expressões artísticas do trabalho ali desenvolvido e que contribuem para a dinamização cultural da comunidade.
Desde a sua fundação que o Conservatório de Música de Santarém, com paralelismo pedagógico desenhado oficialmente pelo Ministério da Educação, lecciona em regime articulado e supletivo, em parceria com escolas da cidade. Ministra os cursos básicos (do 1º ao 5º graus) e secundários (do 6º ao 8º graus) de música nos seguintes instrumentos: Piano, Órgão de Tubos, Viola Dedilhada, Violino, Violeta, Violoncelo, Guitarra Portuguesa, Contrabaixo, Flauta Transversal, Canto, Oboé, Clarinete, Saxofone, Trompete, Tuba, Trombone de Varas, Acordeão, Bateria, Percussão e Dança Contemporânea e Ballet e ainda cursos livres de baixo e guitarra eléctrica.
O Conservatório de Música de Santarém é o único no país e um dos dois na Península Ibérica com o estaututo de escola associada da Unesco. Tem participado em concursos nacionais e internacionais com boas classificações, o que enche de orgulho os seus dirigentes.
A qualidade pedagógica é o alicerce que dá garantias de futuro a um projecto que pretende continuar a cimentar a interligação com a comunidade numa dádiva constante de cultura e afecto. Porque, como disse Beatriz Martinho em anterior entrevista a O MIRANTE, um povo não cresce sem cultura e retirarem-lhe a cultura é um crime. É por isso que, embora seja uma cooperativa, o Conservatório de Música de Santarém tem facilitado o ensino a alguns alunos carenciados que têm um grande desejo de aprender música.

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