Retrospectiva 2016 | 02-03-2017 09:21

“Fazer teatro é um sonho que acontece todos os dias”

“Fazer teatro é um sonho que acontece todos os dias”

Com 31 anos de vida o Cegada Grupo de Teatro é uma das companhias mais activas do concelho de Vila Franca de Xira. Instalado em Alverca, no Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, o grupo aproxima todos os anos a cultura das gentes da cidade e do concelho, afirmando-se cada vez mais como uma referência cultural. Nesta entrevista falam da importância do serviço público, dos desafios levantados pela concorrência das outras correntes artísticas e da proximidade com Lisboa que consideram ser uma vantagem.

Este ano apresentaram um programa ambicioso com 26 trabalhos dispostos por 60 sessões. É um sinal de que o grupo está a profissionalizar-se cada vez mais? Rui Dionísio, director artístico - De certa forma, sim, mas diria que estamos a trilhar os mesmos caminhos só que com mais vapor e força. Essas questões da profissionalização não são assim tão lineares. Conheço muita gente que é profissional e na verdade faz um trabalho completamente amador. Houve uma metamorfose no material humano do associativismo, no tempo disponível e na vontade de fazer novas coisas com esse tempo. Nos últimos anos temos apostado em criar acções culturais novas e amplificar o que já existia.
O Cegada já não se fica só pelo seu palco no centro de Alverca. Não. Dois exemplos disso são os trabalhos que temos feito com as escolas e as Noites do Pelourinho, um evento de grande envergadura que começou em 2013 e que muito prestigia a cidade e a companhia. Queremos ser uma companhia disponível ao público todos os dias das 21h00 às 00h00 mas também levar teatro às escolas, apresentando peças do Plano Nacional de Leitura. E esse projecto tem sido um sucesso enorme. Andamos na casa dos oito mil espectadores, é um número indicativo da receptividade que temos tido. Além disso mantemos também a formação de actores, que é muito importante. Temos trazido ao Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, quer à programação quer às nossas criações, artistas profissionais para elevar o grau artístico.
Qual é para vocês o factor basilar da cultura? Que este tipo de acções culturais que o Cegada promove e que tem sido pioneiro no concelho e no país, tenham a capacidade de se instalar e haja capacidade financeira para suportar essa sustentabilidade e financiamento, para que possam perdurar. Esse é o factor basilar da cultura. Fazer a programação para um ano inteiro é bom mas só terá repercussões na sociedade se se repetir durante 10 anos e as pessoas se habituarem a ver essa programação todos os anos para criar hábitos de ida ao teatro.
Com a companhia fora do seu espaço habitual. Somos o único grupo da Área Metropolitana de Lisboa que vai às escolas mostrar as peças. É uma forma de dar mais significado à expressão serviço público. Retiramos o que existe em teatros de referência do país e aplicamos no concelho de Vila Franca de Xira onde isso não existe. Não estamos fechados numa redoma, estamos abertos à comunidade e ao país e dormimos bem com essa responsabilidade.
A proximidade com Lisboa é prejudicial ou uma vantagem? Para o público é prejudicial, para nós é bom. Há artistas de referência e com trabalho feito nos palcos nacionais com quem gostamos de trabalhar e trazer a Alverca. Se estivéssemos mais longe os custos aumentavam. Vivemos numa ilusão. A maior parte das pessoas estuda ou trabalha em Lisboa, a sensação de proximidade existe e cria um falso sentimento de pertença porque não acredito que haja pessoas que vão a Lisboa ver espectáculos se tiverem uma boa oferta no concelho. Lisboa não é uma ameaça. É o mesmo que dizer que a biblioteca nacional no Campo Grande é uma ameaça à Fábrica das Palavras. Isso serve é muitas das vezes como a desculpa perfeita para a inércia.
O vosso teatro tem praticamente sempre a sala cheia de espectadores. Qual é o segredo para o sucesso? Ouvir e compreender qual é o nosso papel nesta comunidade. A nossa missão é colocar à disposição das pessoas objectos para fruição artística e cultural que façam falta e tenham sentido. Que estejam adaptados à situação económica e características históricas desta região. Gostamos sempre de ouvir as pessoas, perceber o que gostam de ver. Adoramos quando nos dizem que não gostaram de algo, isso é óptimo, leva-nos à reflexão.
Na era da televisão e das redes sociais de que maneira é que o teatro é importante na oferta de algo culturalmente diferente? É importante na promoção do contacto entre as pessoas. O teatro é, acima de tudo, um espaço de debate de ideias e faz uma coisa que a televisão não faz de uma forma sistemática. O teatro mete no palco as grandes questões humanas e filosóficas. Mete no palco aquilo que é importante que seja discutido e reflectido. Que faça as pessoas pensarem. A televisão não faz isso porque tem demasiada informação e as pessoas não a filtram nem a distinguem. Teatro que é arte nunca será entretenimento.
Mas é verdade que a sociedade tem mudado e que é preciso adaptar a oferta aos novos públicos... Sem dúvida. Mas sempre se achou que um novo canal de comunicação iria exterminar os anteriores e a verdade é que os anteriores encontraram um novo espaço para coexistirem. A nossa sociedade no último século recebeu uma transformação muito maior do que nos últimos cinco séculos. A sociedade mudou muito, mais de há cem anos para cá do que de há 500 anos até hoje. Se olharmos para os nossos avós que viram nascer a televisão a cores, até aos jovens de hoje que olham para o nascimento dos hologramas e da realidade virtual, há uma questão que já conseguimos perceber. O teatro tem ainda um lugar a conquistar e a definir-se na sociedade de hoje em dia. Mas é realmente mais fácil levar a sociedade ao teatro actualmente. Ainda se confunde recreio com cultura. Diz-se que a cultura é a continuação da formação de um indivíduo quando a vida académica termina.
Há futuro para o teatro? E faz sentido haver teatro à borla? A responsabilidade será sempre de quem dirige politicamente o país. Quem gere uma sala como a nossa e faz uma programação para o ano inteiro com 77 lugares disponíveis para o público não tem qualquer interesse comercial. Este número de lugares logo à partida é um mau negócio, se virmos as coisas nessa perspectiva. E essa ideia do teatro à borla é errada. Essa questão baseou-se na ideia de que tudo teria de ser completamente gratuito depois de 1974. Algumas pessoas que estavam afectas ao teatro entenderam que isso devia ser assim. Mas a verdade é que, tal como nos hospitais toda a gente é atendida, também aqui nós não fechamos a porta a quem não tiver condições financeiras para ver um espectáculo.
Sentem-se acarinhados pela comunidade? Sim. Temos um excelente feedback das pessoas e do nosso trabalho. Um dos momentos em que mais nos aproximamos das pessoas é nas Noites do Pelourinho. Lembrámo-nos dessa actividade porque a cidade precisava de mais.
Qual é o vosso maior sonho? O sonho nunca está materializado mas podemos dizer que fazer teatro é um sonho que acontece todos os dias. O maior sonho é conseguir manter a porta do teatro aberta e a companhia a apresentar espectáculos. Fazer as coisas só uma vez, receber as palmas e ir para casa sem dar continuidade não é nada. Se isto não for um projecto sustentado só serve a vaidade e há outros valores mais altos que esse. Sentimo-nos realizados com o trabalho que temos feito. Sem falsas modéstias, o maior desejo é que as pessoas que dirigem façam tudo o que esteja ao seu alcance para que isto não se perca. O Cegada é um sonho que existe desde 1986.

Uma história de sucesso

O Cegada - Grupo de Teatro tem contribuído para a educação cultural da comunidade onde está inserido, graças ao dinamismo dos seus dirigentes, ao entusiasmo inquebrantável de todos os seus membros e a uma programação eclética que tem sido bem recebida por cidadãos de todas as idades.
O trabalho desenvolvido pela associação de Alverca articula educação e solidariedade e tem merecido o reconhecimento público e uma especial atenção, principalmente numa altura em que a cultura e nomeadamente o teatro são injustamente ostracizados. Na entrada para os seus trinta e um anos de actividade, o Cegada assumiu toda a programação do Teatro-Estúdio Ildefonso Valério, assim baptizado em 2013, em homenagem ao mentor da actividade teatral em Alverca e membro fundador da companhia.
Criado a 9 de Março de 1986 por iniciativa de um grupo de formandos que realizara um curso de iniciação ao teatro na Casa da Juventude de Alverca, o Cegada começou por se chamar Núcleo de Teatro da Casa da Juventude e da Cultura de Alverca. Chegou a adoptar a designação Cegada Trupe de Teatro e, por fim, Cegada - Grupo de Teatro.
Em 1998 foi-lhe atribuído o Galardão de Mérito Cultural da cidade de Alverca e em 2000 o grupo definiu o seu enquadramento legal e fiscal, tendo sido aprovados os seus estatutos. Três anos depois morreu Ildefonso Valério, membro fundador do grupo e encenador. Em 2004 realizou a sua primeira Amostra de Teatro, recebendo 18 grupos de teatro amadores de todo o país e duas companhias profissionais, num total de 26 espectáculos. Em 2005 foi-lhe atribuído o estatuto de entidade de utilidade pública pela Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira. Em 2006, apenas seis meses depois de se mudar para as instalações que ocupa actualmente no centro da cidade, um violento incêndio destruiu todo o equipamento e o espólio teatral da companhia. Na altura o município ajudou o Cegada a renascer, literalmente, das cinzas.
Já em 2013, assinalando a entrada de uma nova era do teatro, a sua sala de espectáculos é baptizada com o nome do fundador, Ildefonso Valério. O financiamento da câmara municipal e da junta de freguesia ao longo das últimas três décadas tem sido decisivo para o funcionamento do grupo. Sempre com a missão de educar e formar públicos, tanto para o teatro em particular como para a cultura em geral, nos últimos quatro anos o Cegada acolheu mais de quatro mil espectadores na sua sala e apresentou centena e meia de espectáculos. Recentemente a secretaria de Estado da Cultura renovou a declaração de interesse cultural do grupo.
Desde 1993 que a companhia realiza a formação de actores, actividade que mantém até aos dias de hoje. Com as peças “O Gigante Egoísta” e “O Príncipe Feliz” de Oscar Wilde, o Cegada levou o teatro às escolas, tendo as duas peças sido vistas por mais de sete milhares de alunos. Em 2013 nasceram as Noites no Largo do Pelourinho, um evento organizado em conjunto com o município que oferece à população, nos meses de Verão, concertos ao ar livre de jazz, bossa nova, música africana, balcânica e fado. Este ano mais de quatro mil pessoas assistiram aos concertos, com uma média de 467 por noite. Mais de 13 mil nos últimos quatro anos. A perspectiva da companhia é continuar a crescer de forma sustentada e indo ao encontro das aspirações culturais da comunidade.

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