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24/04/2017
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Está a tornar-se complicado recrutar jovens para os bombeiros
É bombeiro há quarenta anos, 25 deles como comandante, primeiro em Vila Nova da Barquinha e agora em Tomar
Edição de 20.04.2017 | Entrevista

Cumpre também o seu terceiro mandato, e à partida último, como presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém. Carlos Gonçalves, 56 anos, diz que o recrutamento de voluntários é cada vez mais difícil, pelos requisitos exigidos, pela saída dos jovens das suas terras de origem e pelas inúmeras solicitações dos tempos actuais.

Os bombeiros constituem provavelmente a classe profissional mais bem vista no nosso país. É uma responsabilidade acrescida para quem enverga essa farda? Não diria que seja uma responsabilidade acrescida. A nossa missão, por si só, já é reconhecida pelas pessoas, até porque o cidadão, muitas vezes, em situações de infortúnio em que já não sabe a quem recorrer, acaba por nos vir bater à porta. E os bombeiros estão sempre disponíveis para isso, mesmo em situações que não estão bem dentro da nossa área.

Ainda vos aparecem pessoas a pedir para irem tirar o gato de cima da árvore, por exemplo? Acontece com frequência. E também nos aparecem muitas solicitações relacionadas com a vespa velutina. Felizmente ainda não chegaram a esta região, mas basta por vezes uma abelha ter uma configuração um bocadinho diferente para as pessoas ficarem preocupadas. E acabamos por ir sempre avaliar.

Essa imagem romântica dos soldados da paz ajuda ao recrutamento de voluntários ou há dificuldade em arranjar pessoal? No panorama global vive-se uma crise bastante complicada. Torna-se difícil atrair a juventude hoje para esta causa. Há um conjunto de pré-requisitos para se ser bombeiro que diminuiu o nosso campo de recrutamento, nomeadamente porque é necessário ter a escolaridade obrigatória. Tiveram mesmo que alargar a idade máxima de recrutamento dos 35 para os 40 anos, o que creio não fazer sentido, pois já é uma idade um pouco exagerada. No caso particular de Tomar, no caso dos voluntários, baixámos para os 35 anos mas parece-me que mesmo assim já é uma idade alta. Para lá disto está um pouco difícil recrutar. E há muitos corpos de bombeiros que têm poucos bombeiros voluntários nesta altura.

O ideal não seria ter as corporações todas profissionalizadas? Entrei para os bombeiros em adolescente e nessa altura muitos jovens estavam ali imenso tempo. Hoje as solicitações são muitas, facilmente os jovens aos 18 anos têm carta de condução e carro, o que lhes permite mobilidade e acesso a outros locais e a outras actividades. Penso que hoje deve existir uma base profissional estável que dê resposta ao quotidiano dos corpos de bombeiros e depois, nas missões mais excepcionais, haver um complemento de pessoas que queiram e possam ajudar voluntariamente. O futuro poderá passar por aí.

Há corporações neste distrito com falta de pessoal, que possa colocar em causa a resposta? Seria alarmante dizer isso. O socorro é feito todos os dias e não há informação de que seja demorado. O que é sinónimo de que as coisas estão a funcionar bem. Mas isso não escamoteia o facto de que devíamos ter mais voluntários, nomeadamente para os incêndios florestais. Se calhar daqui a quatro ou cinco anos essa preocupação será mais acentuada.

Até porque essa situação cruza-se com a quebra da natalidade que se registou nas últimas décadas, com o envelhecimento da população e com a desertificação do interior, onde estão os concelhos mais expostos aos incêndios e onde há menos jovens. Exactamente, começa a ser também por aí. E depois há outra problemática: muitos jovens que fazem a recruta em concelhos do interior vão depois estudar para fora e a maior parte deles já não volta. E o corpo de bombeiros que gastou dinheiro em fardamento, fez o seu investimento na formação de repente fica sem esses jovens.

Há poucas mulheres em cargos de comando ou de direcção nos bombeiros. Os quartéis ainda continuam a ser um feudo predominantemente masculino? Já não é bem assim. Cada vez há mais senhoras a presidir a direcções e já há algumas comandantes.

Mas no distrito de Santarém são raros os exemplos. Neste momento há uma adjunta de comando em Torres Novas e já houve uma segunda comandante nos Bombeiros da Golegã. Aqui realmente não existem muitas mulheres nesses cargos. Talvez tenha a ver com as características desta região, não sei... Mas no país há várias comandantes de bombeiros.

As desigualdades entre voluntários e municipais

Alguns municípios, como Rio Maior, concedem já um conjunto de regalias sociais aos bombeiros, como redução de taxas para obras em habitações, compensação do IMI liquidado ou desconto em eventos organizados pela câmara. Esse exemplo devia ser replicado pelos outros municípios? Ele está replicado e nalguns casos há bastantes anos. Podem é não dar um conjunto tão alargado de benefícios. Essas medidas são importantes, constituem uma forma de reconhecimento por parte do município que vai para além das palavras elogiosas.

As autarquias queixam-se que os bombeiros municipais não têm o mesmo tipo de apoios da administração central que as associações de bombeiros voluntários, nomeadamente para a compra de equipamento. Esse tipo de argumentação faz sentido? Este quadro comunitário de apoio, o Portugal 2020, é o primeiro que permite aos bombeiros municipais acederem a candidaturas para financiamento. Por outro lado, a Autoridade Nacional de Protecção Civil consagra um conjunto de apoios, desde logo os subsídios mensais às equipas de intervenção permanente, a que os corpos de bombeiros municipais não podem aceder. Não há subsídios regulares às câmaras, exceptuando aqueles que decorrem do período especial do dispositivo de combate a incêndios florestais, em que há apoio à reparação de viaturas e equipamentos danificados e o pagamento de um euro e poucos cêntimos por hora a cada bombeiro, tal como acontece com os voluntários. Há realmente uma situação de desigualdade.

A solução encontrada pela Câmara de Abrantes, que acabou com os bombeiros municipais e transferiu o quartel, meios, viaturas e pessoal para a nova Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Abrantes, através de protocolo, parece-lhe uma solução razoável? É uma situação muito particular, motivada também por episódios particulares. O que interessa é que o corpo de bombeiros continua a funcionar. São modelos diferentes mas continuam a servir a população de Abrantes e isso é que importa.

As dívidas dos hospitais e outros organismos estatais são objecto de queixas frequentes por parte das associações de bombeiros. Como vê essa situação? Com a Administração Regional de Saúde os trâmites decorrem de forma normal. Já em relação aos hospitais, nalguns casos existem atrasos nos pagamentos. Mas uma certeza os bombeiros têm, é que nunca ficaram verbas por receber.

Como bombeiro há largos anos, qual foi a ocorrência que mais o marcou? Cumprem-se em 2017 quarenta anos que me alistei nos bombeiros. É uma vida! Marcaram-me alguns acidentes, nomeadamente envolvendo crianças. São situações a que não ficamos indiferentes, apesar de estarmos treinados para lidar com essas situações.

E o maior susto que apanhou? Sustos, talvez mais nos incêndios florestais. Já fiquei algumas vezes rodeado pelas chamas e a pensar que se não tiver engenho e arte para me safar dessa dificilmente alguém me vai de lá tirar.

Já sentiu a vida em risco? Já pensei nisso mas nunca entrei em pânico. O pânico retira-nos a capacidade de ser um animal racional e isso pode fazer a diferença entre a vida e a morte.

Sede da Federação de Bombeiros em Santarém

A Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém vai ter pela primeira vez sede na capital de distrito, deixando Constância onde esteve muitos anos. Foi durante a primeira passagem de Carlos Gonçalves como presidente, entre 1997 e 2002, que a Federação fixou sede em Constância, em instalações cedidas pelo município. Até aí a sede era itinerante, normalmente no concelho de onde era o presidente. Agora vai funcionar no antigo quartel da Escola Prática de Cavalaria.
“Regozijamo-nos por nos instalarmos em Santarém, capital de distrito e onde achamos que deve estar a nossa sede. Agradecemos a simpatia do presidente Ricardo Gonçalves em acolher este nosso pedido e disponibilizar-nos instalações muito condignas e acessíveis”, diz Carlos Gonçalves. A inauguração deve estar para breve, após algumas obras de beneficiação do espaço.

Há quarenta anos ligado aos bombeiros

Carlos Gonçalves nasceu em Nisa, distrito de Portalegre, no dia 10 de Maio de 1960. Aos seis anos, acompanhou o pai, ferroviário, que foi transferido para Vila Nova da Barquinha, terra onde o presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém continua a residir. É casado e tem duas filhas com 13 e 9 anos.
Entrou para os bombeiros com 17 anos e nunca mais se desligou. Foi comandante dos Bombeiros Voluntários de Vila Nova da Barquinha durante 23 anos e daí saiu para ir chefiar os Bombeiros Municipais de Tomar, onde está há dois anos. Está a cumprir o seu terceiro mandato como presidente da Federação de Bombeiros do Distrito de Santarém, que termina em Outubro e deverá ser o último.
Carlos Gonçalves é licenciado em Comunicação, na vertente empresarial, e fez pós-graduações na área da Gestão da Protecção Civil e em Higiene e Segurança no Trabalho. Pertence actualmente aos quadros da Câmara de Tomar.

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