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O Museu D’avó que nasceu num palheiro em Mouriscas e precisa de espaço

Iniciativa de um casal que recuperou imóvel e o abre a quem quiser visitar

Edição de 20.04.2017 | Sociedade

O Museu D’avó em Varandas, Mouriscas, concelho de Abrantes, era uma ideia antiga de Maria Antonieta, agora com 82 anos, antiga professora primária e mulher de Alcínio Serras, 83 anos, charadista, sociólogo e professor reformado de jornalismo e antropologia. “Sou uma pessoa que não deita nada fora”, confessa a O MIRANTE Maria Antonieta Serras. Esta avó nunca se aposentou da alegria de viver e de fazer sempre algo mais para si e para os outros e em 2007 criou um museu, num antigo palheiro, mas que está à disposição de quem o quiser visitar. O imóvel vai agora passar para o filho de Maria e Alcínio, o atleta de alta competição residente em Tomar, e é preciso encontrar um novo espaço para que não se perca o espólio.
No museu pode ver-se como era composta uma cozinha antiga, as loiças, os utensílios, os talheres, a panela de cozinhar no chão da lareira, as candeias ou os ferros de engomar a carvão. Está também um quarto, com as antigas roupas de cama e as peças de vestuário, e até um berço do bebé. Ainda tem composta uma oficina de sapateiro, ofício do pai de Maria Antonieta, com o respectivo livro de contas, uma sala de estudo com os manuais escolares do Estado Novo.
No museu estão ainda expostas balanças, ferramentas de trabalhar a terra, cestas de levar a merenda para o trabalho no campo, bilhas para o azeite, serras e serrotes e toda uma panóplia de objectos usados nas artes e ofícios antigos, alguns já desaparecidos. A maior parte do espólio pertencia à família e algumas peças foram oferecidas por amigos.
O espaço foi arranjado pela própria Antonieta quando ainda tinha saúde, transformando o antigo palheiro da casa dos sogros, naquele que é hoje o Museu D’avó. “Tem vindo sempre a aumentar mas agora deixei de poder dar assistência”, desabafa. E esse é um dos problemas que provavelmente vai acabar por encerrar o Museu. Outro é o local para onde poderá levar o espólio. “A casa é do meu filho que brevemente irá fazer obras e necessitar do espaço”, explica.
A família gostava que o espólio fosse exposto na antiga escola primária de Mouriscas, cedida à ADIMO - Associação de Desenvolvimento Integrado das Mouriscas. Desde 2007, apesar de não estar aberto ao público, o Museu “foi visitado por muita gente” que sabia da sua existência. “Até crianças de escolas”, dizem em uníssono Maria Antonieta e Alcínio Serras.

Um refúgio inspirador para a criatividade do casal

Era em Varandas que Maria Antonieta e Alcínio Serras passavam todo o Verão e onde ela escrevia as suas poesias inspirada pela paisagem da zona e ele deu os primeiros passos no charadismo. Alcínio ainda se lembra de quando estudava à luz da candeia e dali partia diariamente para percorrer três quilómetros a pé para ir à escola. Alcínio licenciou-se em Sociologia pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e Empresa (ISCTE) mas já depois de casado.
E em 1957 inicia-se no charadismo, primeiro através do jornal da Mocidade Portuguesa, no qual resolveu uma charada e ganhou um livro. Uma charada é um jogo verbal. Com 24 anos concorreu a um concurso organizado pelo extinto Diário Popular. Logo no primeiro problema apareceu uma palavra que desconhecia. Apenas sabia que a primeira letra era um H. Alcínio procurou no único dicionário que tinha mas sem solução. Conhecia a revista O Charadista e sabia que os charadistas se reuniam no Café Palladium, nos Restauradores, em Lisboa. Foi lá procurar ajuda.
No Palladium conseguiu a solução: hemeroteca. Assim intensificou-se a paixão pelo charadismo, a mesma que pouco “ajudou” Maria Antonieta a compor o Museu D’avó, “por estar sempre ocupado com as charadas” queixa-se a ex-professora. Ainda assim sabe que aquele é um projecto também acarinhado por ‘Aldimas’ o pseudónimo de Alcínio entre os charadistas.
Em 1997 teve lugar no Sardoal um encontro de charadistas, organizado por Alcínio, onde participaram dois casais brasileiros. Em jovem escrevia contos para a já desaparecida Gazeta do Sul. “Assinava como Zé Maria, tinha medo que o professor Raposo descobrisse”, diz a rir. Mais tarde surgiram os programas na rádio, colaborou com a Emissora Nacional e foi autor do programa Hora Dois na Tágide com alunos de jornalismo da Escola Secundária nº 2 de Abrantes. No ar de 1989 a 2004.
Ainda hoje continua a colaborar com jornais e revistas fazendo de graça muitas das palavras cruzadas que os seus leitores usam para passar o tempo. Tem outro amor: os livros, por isso possui uma biblioteca com mais de quatro mil obras. E o Museu que agora pode fechar definitivamente as portas.

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