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19/08/2017
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Deixou a enfermagem para ser padre

Deixou a enfermagem para ser padre

Rúben Marques de Figueiredo foi ordenado padre da Diocese de Santarém a 16 de Julho e a partir de Setembro vai para as paróquias de Ulme, Parreira, Chouto e Vale de Cavalos, no concelho da Chamusca, após ter deixado a profissão de enfermeiro. Atento às tendências da vida mundana, o sacerdote está nas redes sociais, vai ao ginásio e desloca-se de Vespa.

Edição de 03.08.2017 | Sociedade

Em criança já Rúben era fascinado pela figura de Jesus, embora nessa altura ainda não percebesse que o seu futuro iria passar pela vida religiosa. Natural de Achete, concelho de Santarém, Rúben Marques de Figueiredo foi ordenado padre no dia 16 de Julho, na Sé de Santarém. No entanto, o jovem pároco nem sempre teve certeza de que este seria o seu caminho. No dia 8 de Setembro de 2002 a sua mãe morreu num acidente de viação e a vida de Rúben muda.
Nessa altura, com 19 anos, frequentava o primeiro ano da Faculdade de Teologia, da Universidade Católica Portuguesa. Devido a essa tragédia inesperada colocou a sua vocação em causa, desistiu da vida religiosa e até deixou de frequentar a igreja. “Foi um momento muito difícil da minha vida e da minha família, porque a morte da minha mãe foi inesperada e questionei-me por que tinha acontecido aquele acidente fatal. Estava zangado. Achei que não conseguiria continuar a missão religiosa e, depois de falar com os padres, decidi sair, apesar de me terem deixado a porta aberta”, recorda a O MIRANTE.
Na adolescência, as suas duas paixões eram a religião e a área da saúde. Ao deixar o curso de Teologia licenciou-se em enfermagem e ainda trabalhou durante dois anos como enfermeiro. No entanto, o chamamento para a vida religiosa esteve sempre dentro de si e era cada vez mais intenso. “Fiz vários retiros espirituais e retiros de silêncio e colocava sempre a questão do meu encantamento por Jesus e de querer ajudar os outros como Jesus. Rezei muito e aconselhei-me muito com padres da diocese até que falei com o bispo e falei-lhe da minha vontade de regressar porque sentia que Jesus me continuava a chamar para o seminário”, conta.
Regressou ao curso de Teologia em 2011 estando agora a viver a concretização do seu sonho. Em Setembro vai ser o responsável pelas paróquias de Ulme, Parreira, Chouto e Vale Cavalos, no concelho da Chamusca. O início de um projecto que o realiza. “O que me encanta na figura de Jesus é a sua compaixão pelas pessoas, estar próximo das pessoas, não discriminar ninguém. É esta também a minha missão por isso sempre quis ser como Jesus no sentido de também poder ajudar e estar próximo das pessoas. Ser padre é um projecto de vida e uma relação com algo que é transcendente e que tem um nome que é Jesus Cristo”, afirma.

“As pessoas estão afastadas de Deus mas também delas próprias”
Concorda que as pessoas estão afastadas da igreja e considera que isso se deve às prioridades de cada um. “Sinto que as pessoas estão afastadas de Deus mas também delas próprias. Nós só nos damos bem com os outros se nos conhecermos a nós próprios e o problema é que as pessoas se calhar nem se querem conhecer a elas próprias - porque dá trabalho e nem sempre é fácil – quanto mais conhecerem a igreja e tudo o que a envolve. Ficam fechadas em si próprias e vão-se afastando dos outros e do afecto entre pessoas”, lamenta.
O jovem padre da Diocese de Santarém é adepto de exercício físico e sempre que pode gosta de correr e ir ao ginásio, apesar de não o fazer com a regularidade que gostaria. “No ginásio nunca me senti desrespeitado e houve pessoas que quando souberam que estava no Seminário vinham ter comigo e falavam de algumas dúvidas e questões interiores”, diz. Outra curiosidade é que o seu meio de transporte é uma vespa preta. O padre Rúben apanhou o gosto por circular de motorizada desde que estudou em Lisboa para fugir ao trânsito caótico da capital. De volta a Santarém continuou a manter esse meio de transporte.

Família não aceitou bem a sua decisão de ser padre
Foi depois de terminar o ensino secundário que Rúben Marques de Figueiredo decidiu seguir a vida religiosa. Quando contou a sua decisão à família a reacção não foi a melhor. No dia em que foi para o Seminário, em Caparide, São João do Estoril, a mãe não saiu da cama e o pai estava com uma angústia tremenda ao levá-lo, de carro, para a sua nova casa.
“A reacção dos meus pais e da restante família deveu-se ao facto de não estarem à espera desta minha decisão. O que lhes custou foi a separação afectiva, sentiram que ia estar mais tempo ausente. Quando a minha mãe morreu já tinha entendido que seria aquele o meu caminho e aceitou. O meu pai também já aceita bem e até se aproximou um bocadinho mais da igreja”, recorda.
Antes de entrar no Seminário teve namoradas mas sempre pensou muito bem sobre isso porque o chamamento para a vida religiosa era grande e não queria estar a dar expectativas de uma coisa que não tinha a certeza se queria. O pároco defende o celibato dos padres e não se revê noutro sistema. “O celibato é importante como produto desta relação que tenho com Jesus e de dizer sim a esta caminhada religiosa”, refere.
Adepto das novas tecnologias, possui conta no facebook e considera que as redes sociais podem ser uma ferramenta de evangelização. “Há pessoas que me contactam no facebook para colocarem questões e para divulgar eventos da igreja é excelente. Bem utilizadas as redes sociais podem ser bastante benéficas”, considera.
A sua irmã, também enfermeira, vai casar em Setembro e é Rúben quem vai celebrar o matrimónio. Antes vai de férias e espera ir uns dias à praia. Continua a conviver com os amigos em jantares e petiscadas.

Adepto de música e leitura

Canta na igreja e nos anos em que estudou no Seminário era tenor. Gosta de música clássica mas também é fã de música pop. Lana del Rey e Weekend estão entre os artistas que gosta de ouvir. Já foi a concertos de Madonna e Shakira mas também já foi a espectáculos na Gulbenkian e no São Carlos. A estação de rádio que mais ouve é a RFM. Também gosta de literatura. Neste momento está a ler “Água Viva”, de Clarice Lispector, e “Memórias da Irmã Lúcia”. Sophia de Mello Breyner Andresen e José Régio estão entre os seus poetas favoritos. Gosta de estar informado sobre assuntos da actualidade para falar com as pessoas diariamente.

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