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O flagelo do fogo e a angústia do dia seguinte

O inferno voltou a Mação e muitos moradores viram as suas propriedades devastadas pelas chamas. Nesses dias, cerca de duas centenas de pessoas tiveram de ser evacuadas das suas casas e viveram na ansiedade de não saber o que iriam encontrar no regresso.

Edição de 03.08.2017 | Sociedade

As imagens entristecem. São hectares e hectares de terra consumidos nos últimos dias. Ao longe vêem-se as frentes do incêndio que flagela há alguns dias o concelho de Mação, vindo do vizinho concelho da Sertã. Lá, vive-se o inferno. Aqui, o medo, a ansiedade e a revolta de quem foi obrigado a sair das suas casas. Pessoas, na sua maioria idosas, que trabalharam toda uma vida e que se vêem, de um momento para o outro, na contingência de perderem tudo. Para muitos o pior já passou. Para outros ainda mal começou. Num vaivém de ambulâncias e populares que querem ajudar, a Santa Casa da Misericórdia de Mação passou a ser o ponto de passagem de muitos daqueles que vivem nos sítios onde o incêndio não dá tréguas desde dia 23 de Julho, três dias antes da reportagem de O MIRANTE estar no local.
Sem ‘pregar olho’ há dias, vão passando o tempo a conversar e a relembrar incêndios de outros anos sem saberem o que para aí vem ainda. “Porquê?” é a questão que Maria Martinho, de 72 anos, coloca várias vezes olhando para o horizonte onde o fumo imperava. Alojada na Misericórdia há um dia, diz que foi obrigada a fugir de casa, mas que, por sua vontade, estaria lá a defender os seus bens juntamente com o seu marido, Elias Marques. Maria Martinho espera encontrar a sua casa intacta, mas teme que os terrenos estejam perdidos. Não é a primeira vez que a residente na aldeia de Zanguinheira, freguesia de Envendos, sofre com os incêndios. Há 14 anos, um grande incêndio no concelho de Mação, também a obrigou a ser evacuada. Mas este confessa que é bem pior.
Ao seu lado encontra-se Maria Santos, de 59 anos, também residente na aldeia de Zanguinheira. Conta que o seu marido ficou lá para ajudar a apagar o fogo e proteger os seus pretences. Ansiosa por voltar novamente a casa, Maria Santos admite que, desde o momento da evacução até ao alojamento na Santa Casa, não tem nada a apontar. Para já, sabe que a casa está intacta, mas os seus terrenos foram todos consumidos pelas chamas que entraram na aldeia sem piedade. “Nunca vi um fogo assim”, confessa a reformada.
Sentada no sofá, pensativa, está Leontina Conceição. Da aldeia do Castelo, uma das mais afectadas pelo incêndio, conta que o marido, os dois netos e os dois filhos ficaram na aldeia para ajudar a proteger os seus bens. “O que mais me assusta é o quadro que vamos encontrar quando lá chegarmos”, diz, confessando que teme pela casa e pela família que lá ficou.
Já Maria Barbeiro, de 83 anos, sentada ao seu lado, conta que o seu filho é quem ficou lá a proteger o que é seu. “Penso muito sobre o cenário que lá vou encontrar”, confessa. Quanto ao apoio recebido, admite que se sente bastante apoiada pela Santa Casa e que “não podia ser melhor”.
Ao seu lado encontra-se Maria Gaspar. De 67 anos e da aldeia do Castelo, refere que tem lá uma casa, mas que só costuma ir lá aos fim-de-semana. Diz ainda que é por ter problemas respiratórios que não ficou lá com a mãe para ajudar a proteger os seus bens. Maria Castelo não tem dúvidas em afirmar que este incêndio “é um tipo de terrorismo que temos aqui” e que continua a não haver justiça. Em relação ao trabalho de todos aqueles que, de alguma maneira, estão no terreno a apagar o fogo, a tratar dos feridos ou a ajudar a evacuar os afectados, considera que eles são os verdadeiros heróis.

Heróis de bata branca

Entre quem está no terreno, há quem tenha um papel especial. É o caso dos enfermeiros e médicos do Centro de Saúde de Mação. São eles que, na hora de evacuar, falam com as pessoas afectadas e as acalmam. “Basta apenas colocar uma mão em cima do ombro e uma palavra amiga. É o que eles precisam naquele momento”, confessa Paula Falcão, enfermeira e interlocutora dos grupos de técnicos de saúde daquela instituição que vão até às zonas críticas. Entre as principais queixas estão as queimaduras, a inalação de fumos e a ansiedade. “Com o sistema nervoso alterado, começam a ter arritmias cardíacas e tensão alta”, explica a enfermeira.

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