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“Adiei a assinatura de contratos para estar no Colete Encarnado”

“Adiei a assinatura de contratos para estar no Colete Encarnado”

Carlos Fernandes, 37 anos, regressou à casa de partida, após uma carreira ao mais alto nível como guarda-redes de futebol em Portugal e no estrangeiro. Quer terminar a carreira no Vilafranquense e pensa jogar até aos 42 anos. Nesta entrevista, que não foi só sobre futebol, declarou o seu amor ao Ribatejo, onde se sente verdadeiramente em casa, apesar de considerar que a sua Vila Franca de Xira já teve mais pujança.

Edição de 16.08.2017 | Entrevista

Jogou muitos anos ao mais alto nível, em Portugal e no estrangeiro, e agora voltou a casa. Vila Franca de Xira está muito diferente daquela de que se lembra? Sim e eu gostava mais de como era antes. Agora parece uma cidade fantasma, não se vê ninguém na rua a partir das nove ou dez da noite. Antigamente havia muita malta jovem, até casais novos a irem tomar café. Tínhamos a Rua Direita sempre cheia. Havia mais onde ir e as pessoas tinham mais predisposição para sair à noite e conviver. Hoje fecham-se em casa, talvez porque trabalham fora e só cá vêm dormir.

Gosta de touros? Gosto, sou aficionado! Tive de deixar essa vida aos poucos por causa do futebol, infelizmente, mas ainda cheguei a vir muitas vezes às largadas e cheguei a adiar contratos e só os assinava depois do Colete Encarnado, para conseguir ir. Uma vez distraí-me e tive de me esconder atrás de uma árvore para não ser apanhado pelo touro mas nunca me magoei.

O Colete Encarnado também mudou com o tempo? Sim, a convivência entre as pessoas mudou muito. Lembro-me que um mês ou mês e meio antes do Colete já eu e os meus amigos estávamos ansiosos para que chegasse, porque era a altura em que os pais nos deixavam ficar até mais tarde na rua. Quando começámos a ficar mais velhos juntávamo-nos nas casas uns dos outros e a fazer sardinhadas. Cada um trazia bebidas e fazíamos a festa. Este ano estive no Colete numa tertúlia com amigos e a família mas além deles só conhecia meia dúzia de pessoas. Já há muita gente que não conheço.

Como eram as amizades no seu tempo? Eram muito diferentes de agora. Sou do tempo em que não tínhamos telemóveis nem Internet e a minha mãe até punha um cadeado no telefone fixo para não me deixar ligar muitas vezes para não gastar muito dinheiro. E mesmo assim eu e os meus amigos arranjávamos sempre maneira de nos encontrar para jogarmos à bola. Hoje em dia os miúdos têm tudo e estão sempre agarrados aos telemóveis e aos computadores. Vejo pela minha filha, que passa muito tempo fechada no quarto e na Internet. Nós éramos mais felizes antigamente.

A sua filha Sara tem 13 anos e parece que herdou o seu talento para o futebol... Sim, ela adora jogar. Jogava no Boavista e tive um conflito muito grande com ela para a tirar de lá, mas tive de a fazer ver que a remuneração do futebol feminino não tem nada a ver com o masculino. Ela nunca ia ganhar o mesmo que eu.

A sua maior paixão sempre foi o futebol? Sim, sempre liguei mais à bola e aos amigos do que às raparigas e as discussões que tinha com a namorada que tive nos anos de escola eram quase todas por causa disso. Mas vivi um grande amor com ela, aquele primeiro amor de miúdos que nos marca. Quando acabou, parecia que o mundo ia acabar (risos).

Como foi a ascensãonesse mundo? Foi como um comboio a alta velocidade ou então como uma bola de neve. Passei muito depressa pelo Felgueiras e pelo Boavista e depois daí foi sempre a subir como um comboio a alta velocidade. A pessoa nem tem tempo para pensar no que está a passar-se. Ainda por cima foi na altura em que a minha filha nasceu e o treinador no Felgueiras nem me deixou ir vê-la nascer.

Apesar dos momentos menos bons, valeu a pena? Valeu. As coisas boas acontecem quando não estamos a contar e vêm muito depressa. E havia aquela parte de ser tudo novidade, o dinheiro e as luzes, estar nas quatro linhas e ser o foco de toda a gente... Para um miúdo novo até é mais importante que o dinheiro. Hoje, as pessoas procuram fama e naquela altura era a valorização daquilo que se fazia. Estar no meio dos jogadores mais velhos, aprender com eles, fazia-nos sair de lá orgulhosos, de peito feito.

“Sempre quis terminar a carreira aqui”

Gostou de viver e jogar no estrangeiro? Sim, a cultura geral que se ganha é enorme, é mais do que ler, é saber conviver no meio em que outras pessoas vivem. Nem sempre é fácil, às vezes apanham-se culturas complicadas, mas todas me ensinaram qualquer coisa. No Irão cheguei a apanhar 60º graus e não podia usar calções e as mulheres andavam todas tapadas com as burkas. Perguntava-lhes como é que aguentavam e elas diziam que o que servia para proteger do frio também protegia do calor. Os que menos gostei foram os ingleses, são muito frios, no modo de viver e em tudo. O país lá fora em que mais gostei de viver foi a Turquia, sem dúvida.

Foi bem pago no estrangeiro? Sim. Lá um jogador num clube que esteja prestes a descer de divisão ganha o mesmo que se jogasse cá no Porto ou no Benfica. E cá há o abuso dos clubes para os jogadores, não pagam quase nada mas quando é para os vender lá para fora pedem valores muito altos. E como eu não concordo com essas coisas, decidi sair desse mercado.

Falhavam muito com o que lhe prometiam? Não muito, mas tenho dois clubes que ainda hoje me devem dinheiro. De um deles já não vou chegar a ver o dinheiro, mas o outro, o Boavista, ainda tenho esperança de vir a receber. Foi um dos clubes que me marcou, onde mais gostei de jogar, a par com o Vilafranquense. 

Qual foi o melhor colega de equipa que teve até hoje? Tive vários, mas cá foi principalmente o Vasco Matos, que é padrinho da minha filha e foi com ele que partilhei bons momentos da minha juventude. Depois tentei ter sempre dois ou três de que era mais próximo em todos os países, o que é extremamente bom porque são pessoas que nos recebem bem e nos orientam e fazem com que a nossa adaptação ao país seja mais rápida.

Sabemos que ainda não pensa em acabar a carreira mas gostava de o fazer no Vilafranquense? Sempre quis terminar a carreira aqui. A pessoa que sou hoje devo-o ao Vilafranquense. Não sou uma pessoa de sonhos e tenho consciência de que jogar futebol aos 37 anos não é fácil. Mas nunca se sabe se com trabalho, resistência e persistência não chego aos 42 anos. Vou lutar para fazer essa história aqui em Portugal.

O regresso a casa

Carlos Fernandes nasceu a 8 de Dezembro de 1979 na República Democrática do Congo. Veio para Vila Franca de Xira aos 10 anos porque o pai era natural da cidade. Na sua juventude chegou a faltar às aulas para ir com os amigos tomar banho no Tejo e nunca se imaginou a ser outra coisa que não jogador de futebol. Amigo do seu amigo, sempre os teve em mais alta conta do que às namoradas.
O país em que mais gostou de viver durante a carreira internacional foi a Turquia e o que mais o chocou pelo contraste de culturas foi o Irão. Tem em Vasco Matos, o padrinho da única filha, o colega de equipa com que mais gosta de jogar e em Vítor Baía um amigo e o jogador que mais admira.
Começou a carreira no Vilafranquense, passou pelo Campomaiorense, Amora, Felgueiras, Boavista, Steaua Bucareste (Roménia), Foolad (Irão), Rio Ave, Bucaspor (Turquia), Feirense, Moreirense e Caála (Angola). Agora está de volta ao clube que considera a sua casa.
Defende que é muito diferente da pessoa que aparece na televisão porque usa uma máscara para proteger a privacidade, mas a O MIRANTE contou o que está por detrás do guarda-redes ambicioso, de pés bem assentes na terra e exemplo da raça ribatejana, que já jogou ao mais alto nível nacional e internacional.

“Adiei a assinatura de contratos para estar no Colete Encarnado”

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