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“É impossível não mudar as prioridades da vida quando se sabe que temos um tumor no cérebro”

“É impossível não mudar as prioridades da vida quando se sabe que temos um tumor no cérebro”

Luís Boavida era o candidato do PSD à presidência da Câmara de Tomar nas últimas eleições autárquicas. Viu-se obrigado a desistir depois de lhe ter sido diagnosticado um tumor no cérebro. Mudou as suas prioridades e passou a dar mais valor a todos os momentos da vida. Decidiu criar a Associação Luís Boavida para poder manter-se ocupado e ajudar os mais necessitados. Integra os órgãos sociais da Associação de Futebol de Santarém e é dirigente de várias colectividades do concelho de Tomar.

Edição de 06.12.2017 | Entrevista

Teve a coragem de assumir a sua doença e partilha alguns momentos desta fase da sua vida nas redes sociais. Isso ajuda-o a enfrentar a doença?

Ajuda-me muito porque estou a tentar tratar a doença mas não a consigo controlar e por isso é melhor assumi-la. Não tenho nada a ganhar em esconder a doença e sinto bastante apoio das pessoas. Sei que sirvo de exemplo para algumas pessoas que estão a atravessar o mesmo problema. Tenho também a felicidade de ter uma família excepcional, que me ajuda a ultrapassar esta situação com mais coragem, sobretudo o meu filho que é um jovem médico.

Tem sido um apoio precioso?

Ele é interno no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, mas desde que me foi detectado este problema de saúde focou-se na minha doença. Está metido em dois fóruns internacionais médicos, nomeadamente americano e inglês, e debate com pessoas que têm o meu tipo de problema para tentar perceber o melhor método para vencer a doença. Acompanha-me em todas as consultas e tratamentos, assim como a minha esposa, e discute com os médicos a melhor abordagem para o meu tratamento.

Como está a combater a doença para além dos tratamentos médicos prescritos?

Estou a fazer uma dieta que ele me recomendou, porque neste tipo de doenças é muito importante ter uma alimentação saudável e é o que tenho feito nos últimos meses, apesar de ser um excelente garfo e adorar a gastronomia portuguesa. Costumo dizer que esta doença apresentou-me novos pratos da cozinha portuguesa, como pescada cozida com brócolos que também é um prato delicioso. (risos)

O que sentiu quando os médicos lhe transmitiram o diagnóstico?

Não consigo expressar em palavras. Foi muito complicado e não estava nada à espera. Quando me senti mal e desmaiei os médicos suspeitaram inicialmente que fosse um pequeno AVC [Acidente Vascular Cerebral] mas depois fiz mais exames e foi quando detectaram o tumor no cérebro. A pessoa está à espera de algo menos bom mas uma coisa destas é um choque grande. É o chão que nos foge completamente dos pés e o mundo que nos cai em cima. Mas acho que tenho tido muita coragem para enfrentar toda a situação e acredito que vou vencer esta batalha. Acreditar nisso e ter uma atitude positiva é meio caminho andado para as coisas correrem bem.

Esta doença mudou a sua vida?

Completamente. Mudou a vida e a maneira de ver a vida. Agora dou valor a tudo. Já dava valor a muita coisa mas normalmente andamos embrenhados no dia-a-dia e não ligamos a coisas que consideramos menores. Depois de levarmos um abanão grande, como este, é impossível não passar a valorizar cada segundo da nossa vida e a apreciar todos os momentos.

Custou-lhe desistir da candidatura à Câmara de Tomar?

Custou, pois era algo que ambicionava há muitos anos. Em 2009 e 2013 tive convites para ser candidato, mas nunca pelo PSD. Em 2013 fui convidado para ser o número dois da actual presidente de câmara, Anabela Freitas, mas achei que não era oportuno uma vez que sou militante do PSD e ia concorrer contra o candidato do PSD, Carlos Carrão, que era o presidente em exercício na altura. Desta vez as condições estavam reunidas e senti-me com capacidade para avançar e capaz de fazer um bom trabalho.

Demorou a tomar a decisão de desistir da candidatura?

Assim que me deram o diagnóstico decidi logo desistir, porque percebi que com os tratamentos e internamentos não tinha condições para continuar.

Pondera daqui a quatro anos, se tudo correr bem, voltar a candidatar-se ao cargo?

Gostava muito de dizer que sim porque era bom sinal mas, honestamente, o meu foco agora é a minha cura. Quatro anos ainda é muito tempo. Confesso que é algo que não saiu do meu pensamento. No entanto, a minha preocupação é recuperar a minha saúde, ficar bom e depois logo se vê o que o futuro me reserva.

Desvinculou-se totalmente da política ou continua ligado ao PSD?

Tentei acompanhar a campanha autárquica e dei o meu contributo apesar de mais limitado.

É um homem crente em Deus. Nessa altura não pôs em causa a sua fé?

Não, porque na altura em que anunciei a minha desistência disse e continuo a dizê-lo: como católico e como crente em Deus acreditava que Ele tinha para mim outra missão mais importante do que ser presidente de câmara. E não estou com isto a diminuir a importância do cargo. É assim que estou a encarar a vida e a cumprir o seu desígnio.

“Não se tem dado a devida importância a Tomar”

O que é que mudaria em Tomar se fosse presidente da câmara municipal?

Tomar é a minha cidade e tenho um carinho imenso por esta terra mas acho que não se tem dado a devida importância a Tomar. O turismo é uma vertente que se pode explorar e potenciar muito, mas também a indústria tem que ter uma atenção especial. No entanto, a acção social era uma área a que iria dar uma grande atenção, assim como a área industrial, na tentativa de captar investimento e tínhamos a possibilidade de o fazer.

Porquê?

Tenho alguns contactos que poderiam canalizar para Tomar alguns investimentos. Espero que a actual equipa da câmara municipal tenha capacidade para fazer isto porque é o bem de Tomar que está em causa. No entanto, o turismo parece-me ser uma aposta mais fácil no sentido em que o potencial é tanto e o investimento é tão pouco que tem tudo para dar certo.

A câmara tem sabido fazer isso?

Sabemos que não é fácil e a câmara também tenta fazer mas há muito a fazer. Há sempre aquela velha questão que se diz que os turistas vêm ao Convento de Cristo mas não descem à cidade. Temos que ver o que é tem sido feito para que isso aconteça.

O que poderia ser feito para trazer os turistas que vão visitar o Convento de Cristo a conhecer o resto da cidade?

Tínhamos um projecto para fazer uma ligação mecânica entre o Convento e a cidade, como existe noutras cidades. Mas também a cidade se calhar não tem oferta suficiente para as pessoas virem à cidade. Também íamos apostar no Nabão porque não são todas as cidades que têm o privilégio de serem atravessadas por um rio. O rio pode dar muito à cidade e a cidade pode tirar muitos dividendos turísticos daí, o que ainda não acontece.

O que é que Tomar tem que fazer para captar os turistas que vão a Fátima?

Há um lobby muito forte das agências de viagens. O que Tomar tem que fazer é meter-se nestas redes de agências de viagens e ‘obrigá-los’ a trazerem os seus clientes ao nosso concelho. Mas, por outro lado, é preciso dar condições aos turistas. Se chega um autocarro cheio de turistas a Tomar e não há uma casa-de-banho pública, por exemplo, as pessoas não vêm. Apesar de toda a beleza de Tomar, as pessoas vêm e vão embora porque não foram criadas condições para permanecerem muito mais tempo, sobretudo a nível da restauração, onde não há muita oferta. Há que incentivar os empresários a criarem oferta ou, por exemplo na restauração, ficarem abertos mais horas.

As pessoas que vivem nesta região deveriam ser beneficiadas pelo facto de viverem junto a uma albufeira [Castelo de Bode] que leva água a muitos milhares de pessoas que vivem na área metropolitana de Lisboa?

Tiramos muito pouco benefício desta barragem. Em termos económicos directos, a Câmara de Tomar tinha – julgo que já não tem – uma contrapartida, algo residual, que distribuía pelas freguesias que são banhadas pela barragem. Devia haver uma união entre todos para fazer valer este facto de irem daqui recursos, que podiam também ser uma fonte de receita e de reconhecimento da própria região no contexto nacional.

“As empresas do concelho não têm capacidade para apostar a sério no futebol”

Está ligado à Associação de Futebol de Santarém. O que falta aos clubes do distrito para se afirmarem nos principais campeonatos de futebol?

O União de Tomar esteve na primeira divisão e nessa altura foi criada a projecção que Santarém podia ter representação na primeira divisão. Mais tarde, foi o Fátima que esteve no segundo escalão profissional. Hoje é preciso muito dinheiro para o futebol e não há capacidade financeira. A nível distrital o futebol está muito bem. Só não temos a projecção nacional que gostaríamos de ter, mas a Associação de Futebol de Santarém é muito reconhecida pelo trabalho meritório que faz sobretudo ao nível do futebol jovem. Pode ser que este investimento tenha reflexos daqui a uns anos.

Custa-lhe ver o União de Tomar nos distritais?

Custa muito, ainda por cima já fui presidente do União de Tomar e nessa altura a equipa estava no segundo escalão. Por outro lado, gosto de ir ver os jogos, quando posso, mesmo fora, e vejo o carinho que têm por este clube. Temos que apoiar os clubes do concelho.

O tecido empresarial do concelho não tem capacidade para investir no projecto do União de Tomar?

Não me parece, porque o União de Tomar passou por algumas dificuldades há uns anos, numa altura que coincidiu com um período menos bom das empresas, e até hoje o União de Tomar vive à base de um ou dois patrocinadores. A curto prazo não vislumbro que haja um apoio maior porque as empresas não têm capacidade para apostar a sério numa equipa de futebol.

Se o convidassem para uma comissão com o objectivo de levar o União de Tomar à primeira divisão aceitava?

Como membro da Associação de Futebol de Santarém não posso estar ligado a nenhum clube mas se não tivesse esse cargo, e estivesse bem de saúde, integraria com muito orgulho e empenho. Mas fico contente por ver que o União de Tomar está bem entregue, a pessoas de bem e competentes capazes de fazer o melhor pelo clube. Só é pena serem sempre os mesmos à frente dos clubes e colectividades.

Porque é que há cada vez menos pessoas interessadas em participar no movimento associativo?

Porque ainda não há o estatuto do dirigente desportivo e não existe nenhuma vantagem em ser dirigente. Além disso, as colectividades obrigam as pessoas a despenderem muito do seu tempo, muitas vezes em prejuízo do tempo que passam em família, e também da despesa que têm. Trabalham em prol de uma causa e não ganham nada com isso.

Criou associação para fazer algo pelos outros

A Associação Luís Boavida foi criada a 21 de Outubro deste ano, dia em que Luís Boavida celebrou 56 anos de vida. A associação surge após lhe ter sido diagnosticado um tumor cerebral em Junho deste ano, o que o obrigou a desistir da candidatura à presidência da Câmara de Tomar, um desejo que acalentava há vários anos.
A vida de Luís Boavida mudou no dia 27 de Junho quando se sentiu mal durante um jantar com amigos, num restaurante de Tomar. Numa primeira análise pensava-se que tinha tido um pequeno Acidente Vascular Cerebral (AVC) mas após exames mais detalhados foi-lhe diagnosticado um tumor. Após uma operação ao cérebro fez tratamentos de quimio e radioterapia e ainda se encontra a lutar contra a doença.
Foi depois de tudo isso, e como sempre foi uma pessoa activa e interventiva na comunidade, que começou a pensar que poderia ajudar as pessoas mais carenciadas e doentes. “Já ajudava estas pessoas com iniciativas solidárias mas eram realizadas através de grupos de amigos e não tinha tanto tempo. Agora, o médico mandou manter-me ocupado e comecei a sentir este apelo mais forte de ajudar o outro que precisa mais do que eu. Achei que esta seria uma boa oportunidade para fazer algo pelos outros. E foi assim que nasceu a associação pela qual dou a cara”, explica em entrevista a O MIRANTE que decorreu na sede da Associação Luís Boavida, na Rua dos Arcos, no centro da cidade.
Confessa que começou a ver a vida de outra forma e existe uma frase que, para si, começou a fazer sentido e que hoje em dia é o lema da associação: “Só se sabe o que é a saúde quando se está doente”. Com a associação pretende ajudar as pessoas que precisam de ajuda. A Gala Equestre que realiza há quatro anos vai ser organizada, em 2018, pela sua associação. Todos os anos o dinheiro angariado será para uma instituição diferente. Ao longo do ano pretende organizar diversas iniciativas para angariar receitas de modo a que a associação tenha fundo de maneio para ajudar quem necessita. Ideias não lhe faltam e algumas já estão em marcha. Bolsas de estudo e prémios na área da educação são outros dos projectos em vista.
Luís Boavida faz questão de se manter ocupado e só em último caso, quando se sente menos bem, é que fica em casa. “O médico disse-me para, sempre que puder, fazer a vida o mais normal possível apesar das limitações que tenho. A associação preenche-me. Chego à noite cansado, porque canso-me mais do que antes, mas satisfeito porque todos os dias fiz mais um bocadinho para ajudar o outro. Vivo um dia de cada vez e aprecio todos os momentos da vida, por mais pequenos que sejam”, garante.

O dirigente associativo que gosta de cultivar amizades

Nascido a 21 de Outubro de 1961, Luís Boavida é casado há 28 anos com Isabel Boavida, advogada e eleita pelo PSD na Assembleia Municipal de Tomar. Têm um filho, de 26 anos, licenciado em medicina e interno no Hospital de Santa Maria, em Lisboa.
Em criança já Luís Boavida demonstrava apetência para o associativismo. Aos dez anos fundou, na sua aldeia, Portela, a dez quilómetros de Tomar, o clube “Os Piratas”. Um barracão velho era a sede improvisada e todos os dias mudavam a senha de entrada no espaço. Juntava algumas crianças e nem faltavam os cartões de sócios. Tudo feito por si. Já em adulto foi fundador do jornal desportivo O Remate, do qual foi director durante alguns anos. Foi um dos fundadores da Escola de Futebol de Tomar e está há muito ligado ao associativismo.
Actualmente é dirigente do CIRE (Centro de Integração e Reabilitação de Tomar), da Misericórdia de Tomar; do Lar de São José; dos Forcados Amadores de Tomar, da Associação dos Antigos Alunos do Liceu de Tomar e do Sporting de Tomar, entre outros. “Há colectividades das quais não sou dirigente, nem nunca fui, mas faço questão de ser sócio de algumas delas porque sei a dificuldade que é manter as associações no activo e é muito importante sermos sócios”, afirma.
Boavida é licenciado em Administração e Gestão de Empresas pela Universidade Católica Portuguesa. É técnico superior na área de Economia na Câmara Municipal de Tomar desde 1990. Sportinguista, confessa que os poucos tempos livres que tem gosta de estar com os amigos. “Tenho amigos de diversos quadrantes políticos. Nas amizades não ligo nenhuma à política. A amizade é algo que nos preenche e podermos fazer bem a alguém sem receber nada em troca é o melhor da vida”, confessa.

“É impossível não mudar as prioridades da vida quando se sabe que temos um tumor no cérebro”

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