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Itinerante Manuel Serra d’Aire

Edição de 07.06.2018 | Emails do Outro Mundo

Que o mundo é um local perigoso já se sabia há muito, mas ainda não me tinha ocorrido que o nosso Ribatejo se tornasse tão rapidamente num local onde se deve pensar duas vezes antes de se sair de casa para ir trabalhar ou para a rambóia. Pois bem, digo-te, pela tua saúde, nunca passes das tronqueiras para lá numa largada de toiros, numa picaria ou numa garraiada. Aliás, nem te aproximes do passeio numa entrada de toiros ou coisa parecida, senão sujeitas-te a engrossar a lista de vítimas dos quadrúpedes chifrudos. Só na última Feira de Maio em Azambuja foram 27 os que levaram para contar e, infelizmente, um deles faleceu.
Fui-me apercebendo com o tempo que algumas das nossas festas mais castiças estão transformadas numa espécie de cenário de guerra e os aficionados mais puristas e bairristas até fazem gáudio de divulgar, como se fosse coisa digna de aplauso, os números da carnificina que vai ocorrendo nas suas festas. Fica-se até com a sensação de que festa ribatejana em que não haja mortos ou pelo menos uns lombos bem pisados e umas costelas amassadas não é festa nem é nada.
Na Academia de Alcochete, um jogador do Sporting levou com a fivela de um cinto na cabeça, outros levaram uns sopapos e umas biqueiradas e ainda hoje se fala disso na comunicação social. Nas ruas e praças do Ribatejo morre-se no meio de uma festa e lá continuamos nós cantando e rindo. É uma espécie de morte cornupetamente assistida.
Razão tiveram os estudantes do Politécnico de Tomar para não quererem garraiadas nas suas festas académicas. Não vão eles não conseguir chegar à licenciatura, após tanto sacrifício a pagar propinas... A associação de estudantes justificou a decisão dizendo que foi tomada em prol da defesa dos animais que poderiam estar envolvidos no evento.
E se a questão é o bem-estar animal, eu subscrevo inteiramente. Até porque tudo o que tem a ver com bem-estar desperta o animal que há em mim. Quem é o ser racional que não inventa uma boa desculpa para se baldar ao serviço se em causa estiver, por exemplo, uma tarde na praia em boa companhia? Ou uma almoçarada de marisco bem regada? Quando se trata de bem-estar, a minha faceta racional deixa de funcionar e torno-me numa espécie de híbrido entre um cavalo com cio e um lobo esfomeado, dependendo das circunstâncias.
Outra actividade de risco neste nosso Ribatejo é ser médico no concelho da Chamusca. Aliás, acho que já era de colocar os capacetes azuis nos postos de saúde da zona, porque depois de uma médica ter sido brindada com toda a sorte de palavrões no Chouto, o que a obrigou a deixar o serviço, em meados de Maio um jovem médico foi agredido em Vale de Cavalos porque se recusou a passar uma baixa médica a um utente. E pelos vistos o médico lá tinha as suas razões para desconfiar, pois o ‘doente’, pelo vigor demonstrado, estava a gozar de excelente saúde e só queria prolongar por mais uns tempos o bem-estar e a baixa que tanto jeito lhe davam.

Saudações taurinas do
Serafim das Neves

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