Sociedade | 03-07-2008 14:25

Pessoa via Fátima como lugar mítico de construção do nacionalismo católico

O poeta português Fernando Pessoa encarava Fátima como o lugar mítico da construção do nacionalismo católico e monárquico que ele repudiava, sustentou hoje o historiador José Barreto, antes de revelar um texto inédito do escritor sobre aquele lugar de culto."É um texto irónico, a roçar a sátira anticlerical, em que Pessoa parece regressar ao seu radicalismo de juventude. A intenção não é propriamente anti-religiosa mas anti-católica - uma ‘nuance’ que se deve sublinhar”, disse José Barreto numa conferência sobre "Pessoa e Fátima. A prosa política e religiosa", proferida hoje na Casa Fernando Pessoa.Começa assim: “FÁtima é o nome de uma taberna de Lisboa onde às vezes… eu bebia aguardente. Um momento… Não é nada d’isso… Fui levado pela emoção mais que pelo pensamento e é com o pensamento que desejo escrever”, diz o poeta.O texto inédito descoberto pelo historiador e investigador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa é apenas "o preâmbulo de um artigo maior que teria um carácter de estudo de caso, permitindo caracterizar aquilo a que Pessoa chama ‘esta religiosidade portuguesa, o catolicismo típico deste bom e mau povo'", explicou, citando o poeta.“Fátima é o nome de um lugar da província, não sei onde ao certo, perto de um outro lugar do qual tenho a mesma ignorância geográfica mas que se chama Cova de qualquer santa”, observou.“Nesse lugar - esse ou o outro - ou perto de qualquer d’elles, ou de ambos, viram um dia umas crianças aparecer Nossa Senhora, o que é, como toda gente sabe, um dos privilégios (…) a que se não (…). Assim diz a voz do povo da província e a ‘A Voz’ (jornal católico e monárquico) sem povo de Lisboa”, prosseguiu.“Deve portanto ser verdade, visto que é sabido que a voz das aldeias e ‘A Voz’ da cidade de há muito substituíram aquelas velharias democráticas que se chamam, ou chamavam, a demonstração científica e o pensamento raciocinado”, ironizou. Pessoa denunciava o aproveitamento da crença do povo por parte do poder político e afirmava: “o facto é que há em Portugal um lugar que pode concorrer e vantajosamente com Lourdes. Há curas maravilhosas, a preços mais em conta”, escreveu."O negócio da religião a retalho, no que diz respeito à Loja de Fátima, tem tomado grande incremento, com manifesto gáudio místico da parte dos hotéis, estalagens e outro comércio d’esses jeitos - o que, aliás, está plenamente de acordo com o Evangelho, embora os católicos não usem lê-lo - não vão eles lembrar-se de o seguir!”, comentou. O artigo sobre Fátima - que teria sete páginas tipográficas, de acordo com o sumário que Pessoa deixou escrito - destinava-se a ser publicado no primeiro número da revista Norma, um dos três projectos editoriais de Pessoa no ano da sua morte, em 1935, um quinzenário sobre Literatura e Sociologia que não chegou a concretizar.

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