Sociedade | 12-12-2010 00:08

Trabalho com crianças deficientes no ensino regular é moroso mas resultados são aliciantes

Crianças e jovens portadores e não-portadores de deficiência protagonizam um espectáculo de dança, música e teatro na sexta-feira, Dia Internacional da Pessoa Portadora de Deficiência, assinalado no dia 3 de Dezembro, na Sociedade Filarmónica Recreio Alverquense, em Alverca do Ribatejo. A festa “Todos Juntos pela Diferença” pretendeu chamar a atenção das crianças e jovens utentes de Instituições Particulares de Solidariedade Social e das escolas do concelho, para a problemática da diferença, da solidariedade e da tolerância entre seres humanos. O evento contou com a participação dos alunos do Colégio José Álvaro Vidal (Fundação CEBI), do agrupamento de escolas Pedro Jacques de Magalhães, do AIPNE, do Centro Comunitário de Povos, do agrupamento de escolas do Bom Sucesso, da APJ e da Cerci Póvoa. A maior ovação foi para a performance do videoclipe “Thriller” de Michael Jackson, interpretado pelos utentes do Cerci Póvoa, que arrastaram a plateia toda para o palco. O encerramento esteve a cargo da cantora Anabela Pires. A inclusão de alunos com Necessidades Educativas Especiais (NEE) em escolares regulares é uma realidade em Portugal desde a década de 70, altura em que se iniciou formalmente o movimento da educação integrada que tinha como principais destinatários as crianças portadoras de deficiências sensoriais ou motoras. Dina Feliciano, educadora na Unidade de Apoio à Multideficiência (UAM) do agrupamento de escolas do Bom Sucesso, em Alverca do Ribatejo, concelho de Vila Franca de Xira, trabalha com crianças com NEE que estão integradas em turmas de alunos regulares. “Temos crianças no primeiro e segundo ciclo que realizam as disciplinas mais práticas das turmas regulares, como Educação Visual ou Educação Física”. Há crianças com NEE que conseguem estar sozinhas nas turmas da Escola EB1 2, 3 do Bom Sucesso e outras que precisam de estar sempre acompanhadas. “Sentimos que cada vez mais as crianças ditas normais estão sensibilizadas e aceitam estes meninos especiais nas turmas. Estão sempre a ver se eles estão bem e muitas vezes até os vêm buscar para as aulas de teatro. Nós tentamos sempre que estejam o máximo de tempo possível integrados nas aulas regulares. Ver os pais das crianças com NEE assistirem à integração dos filhos na comunidade escolar é indescritível”, conta Dina Feliciano que depois de passar muito tempo a trabalhar no ensino regular decidiu dedicar-se às “crianças especiais”. “O desafio de trabalhar com este grupo é muito maior porque os resultados não são imediatos. Mas quando se consegue ultrapassar as inúmeras pedras que estão no caminho a satisfação obtida é enorme”. A Associação para a Integração de Pessoas com Necessidades Especiais (AIPNE), em Alverca, trabalha com a população deficiente em geral e a que padece do foro psiquiátrico, desenvolvendo cursos de mecânica, jardinagem, hotelaria, restauração, carpintaria, práticas administrativas e gerais. A coordenadora da AIPNE, Helena Matos, também defende a educação inclusiva. “Estes jovens precisam de ter acesso a tudo o que os outros têm, incluindo o ensino. Mas claro que em termos de aquisições mais afectivas devem ter alguém com formação adequada que os possam ajudar”. Não tem qualquer tipo de queixas em relação à população de Alverca. “Saímos muitas vezes com os nossos utentes e os lojistas e comerciantes recebem-nos muito bem”, revela.Perto de 30 utentes com idades compreendidas entre os 16 e os 46 anos, portadores de deficiência mental e/ou motora, frequentam a Associação Projecto Jovem (APJ), em Vialonga, concelho de Vila Franca de Xira. Além de um centro de actividades ocupacionais, existe também uma formação pré-profissional dos utentes para poderem ingressar no mundo do trabalho, em áreas como a restauração, lavandaria, informática, jardinagem ou a organização de uma biblioteca. A presidente da Associação Projecto Jovem (APJ), Maria Goretty, não concorda com a inclusão das crianças e jovens com NEE no ensino regular: “Embora possa chocar algumas pessoas acho que esta integração é prejudicial. As escolas estão preparadas para o standard e não para acolher numa turma de 24, mais um ou dois alunos com NEE. A maioria dos profissionais nas escolas também não têm qualquer tipo de formação para lidar com estas crianças e jovens. Como é que estes jovens se sentem? Eles têm sentido crítico, olham-se ao espelho. Isto não é integração. Excluir é obrigar um jovem com NEE sem qualquer tipo de orientação a estar numa escola dita normal e a ter de se adaptar a algo que é inadaptável para ele”. A Conferência Mundial de Salamanca, realizada em 1994 pela UNESCO e o governo espanhol, constitui um marco fundamental na evolução do ensino das crianças com NEE. Segundo a Declaração de Salamanca, todos os alunos devem aprender juntos, sempre que possível, independentemente das dificuldades e das diferenças que apresentem.

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