Sociedade | 23-12-2017 11:02

Escassez de água está a afectar biodiversidade na Reserva do Paul do Boquilobo

Escassez de água está a afectar biodiversidade na Reserva do Paul do Boquilobo

Situada na junção dos concelhos da Golegã e de Torres Novas, esta reserva natural estende-se por uma área com cerca de 5.000 hectares.

Em vez de “um campo de água”, o Paul do Boquilobo, primeira reserva da biosfera reconhecida pela UNESCO em Portugal, sofre hoje os efeitos da seca, com potenciais efeitos na biodiversidade da zona e sem haver registo histórico de anos semelhantes.

Situada na junção dos concelhos da Golegã e de Torres Novas, esta reserva natural estende-se por uma área com cerca de 5.000 hectares. O problema da escassez de água começa a afectar toda a zona, sobretudo as espécies dependentes da linha de água e as que se reproduzem nas charcas, alimento vital para a reprodução das espécies de aves que ali nidificam.

"Os peixes e os anfíbios são os primeiros que se ressentem. Existem valas importantes dentro do Paul que, em vez de terem água corrente, têm pequenos pegos, onde se concentra toda a vida animal que deveria existir na restante área. Além disso, no que toca aos anfíbios, não havendo poças de água, não havendo água no solo, eles nem sequer se conseguem reproduzir”, explicou a directora do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF) de Lisboa e Vale do Tejo.

Maria de Jesus Fernandes alerta que se a seca se prolongar muito no tempo, “se durante Janeiro ou Fevereiro não chover”, existirão consequências directas nas taxas reprodutoras da vida animal: “se não houver alimento não há novas crias e isso pode ter efeitos a médio prazo mais complicados”, disse.

No monte cimeiro, os problemas da seca atingem também os agricultores e o gado. Rui Pereira, pastor, confirma a dificuldade em encontrar alimento: “Tenho andado por aqui, nestas covas, a ver se encontro comer para elas”, disse, referindo-se às ovelhas.

Descido o monte, não foi possível penetrar na zona de protecção total da reserva, no fundo, o coração do Paul do Boquilobo, uma zona permanentemente alagada, que chega a ter cotas na ordem dos 10 metros, e onde só se chega de barco.

A falta de água impossibilitou o acesso, tendo a responsável do ICNF referido que "a zona de protecção total continua a ter água, mas com níveis muitíssimos mais baixos, metro e meio a dois metros, nas zonas mais profundas".

No entender de Fernando Pereira, técnico do ICNF afeto há 30 anos à reserva do Paul do Boquilobo, a falta de água, ao nível da conservação da natureza, contribui fortemente para a diminuição da biodiversidade.

“Em circunstâncias normais, teríamos aqui muitos milhares de abibes, algumas dezenas de milhares, seguramente, e outras espécies que vêm hibernar em Portugal vindas do norte da Europa, como os maçaricos e tarangolas. Atendendo a que o campo está com esta configuração, essas espécies tornam-se bastante escassas por falta de ‘habitat’ adequado", explicou.

Situado junto do rio Almonda, nas imediações da Golegã, o Paul do Boquilobo possui dois maciços de salgueiros, num dos quais está instalada uma colónia de 1.200 casais de garças de sete espécies diferentes, constituindo o outro ‘habitat’ potencial de expansão ou recurso para aquela colónia.

Para uma maior percepção de como a falta de água pode influenciar a nidificação das espécies, o técnico do ICNF lembrou um estudo sobre ninhos de cegonhas, no qual se conluia que "quando havia muito água o sucesso reprodutor das cegonhas rondaria as três crias por ninho”

“Quando havia pouca água não chegava a uma cria por ninho", revelou, apontando esta uma das consequências que a seca pode ter a curto e médio prazo na biodiversidade daquela reserva natural.

A Reserva da Biosfera do Paul do Boquilobo (RBPB) é uma Reserva de 1.ª Geração, classificada desde 1981 pela UNESCO, tendo sido a nível nacional a primeira área portuguesa a ser integrada na Rede Mundial de Reservas da Biosfera.

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