Brasões que contam histórias
Símbolos da vivência ribatejana ao longo de séculos
“Uma imagem vale mais que mil palavras”, diz a sabedoria popular. Talvez por isso, os brasões, símbolos identificativos de indivíduos, famílias, tribos ou locais não utilizem letras mas figuras na sua composição. Numa ronda pelos 21 concelhos do distrito de Santarém, O MIRANTE foi à procura do significado das figuras que decoram os brasões municipais. E ficou a saber que somos uma região onde a agricultura e os rios foram preponderantes para a subsistência das suas gentes.
O que fazem dois martelos a ladearem uma azinheira, únicas figuras identificativas do brasão de Alcanena? O primeiro pensamento é que a azinheira sugere a Serra D’Aire e os martelos servirão para partir pedra nas pedreiras da região. Puro engano. Os martelos, afinal, chamam-se maços e durante muitos anos foram usados como “arma secreta” para amaciar o couro, a indústria mais representativa do concelho.Apesar da Serra D’Aire estar ali ao pé, a azinheira nada tem a ver com ela, mas novamente com os curtumes. Depois de retirada a casca, obtinham-se uns produtos “milagrosos” para curtir a pele.O brasão do município de Alcanena dá azo a várias interpretações mas o seu significado acaba por ser idêntico aos restantes 20 símbolos existentes no distrito – mostrar através de figuras a vivência de cada população, as suas riquezas naturais e “marcas de posse”.Como terra de bom vinho, o concelho de Almeirim não poderia deixar de ter abundantes cachos de uvas de cor rubi. Mais difícil foi descobrir o significado das cornetas, mas a história do concelho dismistifica o porquê da existência do utensílio musical no brasão – as magníficas coutadas de caça que o concelho possuía no século XVI. Naquela altura os fidalgos e membros da corte utilizavam as cornetas para chamarem os cães de caça, tornando-se estas num ex-libris do concelho.A provar que o Ribatejo sempre foi fértil na produção do néctar dos Deuses, os cachos de uvas estão presentes em vários brasões municipais – no símbolo do Cartaxo, por exemplo, o verde folhado dos cachos significam a esperança, enquanto a cor púrpura a opulência e a abundância.A mesma fortuna e abundância que o enorme cacho de uvas púrpuras, figura central do brasão, significa para as gentes de Alpiarça. E para as da Chamusca, cujo brasão apresenta quatro cachos de uvas douradas. E quando não há uvas, existe algo que nos remete de imediato para o saboroso líquido, como no brasão da vila de Vila Nova da Barquinha, onde duas vasilhas de tanoa ladeiam outras tantas oliveiras.As árvores são, aliás, outra constante nos brasões dos municípios do Ribatejo. Talvez porque a região é também conhecida pela sua produção de azeite e sem oliveiras, não há azeitonas...nem azeite. Alpiarça e Mação também ostentam o símbolo, nem que sejam apenas uns ramos (Alpiarça).Em Constância, três peixes cor de prata demonstram que a terra é de pescadores, são peixes praticamente idênticos aos que o brasão de Alpiarça apresenta. Na terra de Camões a oliveira marca presença, ao lado de duas romãs, fruto que também se encontra no brasão da Chamusca.Se as terras são férteis, o povo tira delas a sua subsistência. E a agricultura funciona como a principal riqueza do concelho. Como fica demonstrado no brasão da Golegã, com as suas espigas de trigo, bastante mais volumosas do que as de Salvaterra de Magos, que “convivem” com um cacho de uvas (mais um...) e, como não podia deixar de ser em terra de aficcionados, um majestoso toiro bravo, que é aliás o centro das atenções do brasão municipal.E o que dizer do sardão, figura central do brasão do Sardoal? Pouco se conhece o seu significado embora lendas populares atribuam ao grande lagarto a origem do nome da vila. É que, antes de existir a povoação, parece que a zona era governada por aquele tipo de animais rastejantes. Ali perto, o concelho de Mação mostra outro animal como símbolo – a ovelha, que representa uma terra desde sempre dedicada à tecelagem de lãs e exportação de gado, enquanto em Ourém, a águia é rainha.Mas uma agricultura só é forte se por perto passar um rio, ribeiro ou riacho. E água é o que não falta nos brasões de grande parte dos concelhos de Santarém. O Tejo, o Zêzere o Nabão e o Almonda surgem com mais ou menos ondas nos brasões de Almeirim, Alpiarça, Golegã, Constância, Ferreira do Zêzere, Vila Nova da Barquinha, Torres Novas e Tomar.No brasão de Rio Maior está bem demonstrado quão importante foi a água para a sobrevivência da sua maior indústria, com as salinas a aparecerem em primeiro plano. E se do rio dependia a agricultura, a sobrevivência do povo deve ter sido muitas vezes salvaguardadas pelos castelos, símbolos centrais dos brasões de Santarém, Tomar, Torres Novas e Coruche.Diz a lenda que a estrela de prata sobre fundo azul que aparece no brasão de Abrantes simboliza a Virgem Maria, comemorando a edificação da igreja de Santa Maria do Castelo sobre as ruínas da mesquita dos mouros. Mas há os que acreditam que a estrela representa a conquista da cidade aos muçulmanos.Como concelho novo que é, o Entroncamento apresenta também um brasão com uma história mais recente – o seu desenvolvimento enquanto maior pólo ferroviário do país. Sobre fundo negro, surgem alinhados os perfis da linha férrea. Ao centro um sinal luminoso.No final da “visita” aos brasões do distrito fica uma certeza – sejam baseados em históricas verídicas ou apenas em lendas populares, a verdade é que os símbolos dos concelhos ribatejanos reflectem as vivências das suas gentes e marcam significativamente a identidade de cada um dos 21 concelhos.Major Euclides Reis tem mais de 600 brasõesO coleccionador de heráldicaO major Euclides Reis sempre teve queda para o trabalho artístico, mas a vida trocou-lhe as voltas e em vez de entrar em Belas Artes seguiu a carreira militar. Isso não o impediu de aproveitar todos os seus tempos livres para dar corpo à sua paixão. Hoje, na pequena oficina que tem em Abrantes, Euclides Reis tem uma colecção de cerca de 600 brasões, mas falta-lhe fazer outro tanto para considerar a sua colecção terminada. Os brasões que o major produz têm todos origem na monarquia e nas ilustres famílias portuguesas e estrangeiras.A falta de espaço é o maior problema do major Reis, e por mais voltas que dê não encontra solução para ele. “Nenhuma entidade parece ter muito interesse em divulgar a minha arte”, diz, criticando de forma implícita a autarquia abrantina.“Mesmo que quisesse levar avante uma exposição – um sonho de muitos anos – não tenho hipóteses porque preciso de ter condições de trabalho diferentes das que tenho aqui na oficina”, diz o major, adiantando – “Graças a Deus não estou à procura disto para comer mas fico triste porque não dão o devido valor ao trabalho que tenho efectuado, não se faz eco”, diz Euclides Reis, adiantando que isso “lhe revolta os fígados”. E a pequena oficina contígua à sua habitação, mesmo no centro histórico de Abrantes, não tem mesmo espaço para acolher mais nada. Os brasões amontoam-se nas prateleiras, nas paredes, pelo chão. Muitos têm a pintura por acabar, a outros faltam-lhes pequenos pormenores.Há uns tempos o major Euclides deixou de fazer brasões só para si – “as pessoas iam-me pedindo e acabei por aceder”. Hoje faz brasões por encomenda, para famílias que no passado usaram emblemas brasonados. “O último que fiz foi para um senhor inglês, que comprou o Palácio Mata Fome, em Alvega”.Fazer a reprodução exacta de brasões requer não só disponibilidade e paciência mas também uma grande atenção aos pormenores. É que se há brasões com símbolos idênticos, outros são bastante mais originais. Por exemplo, cada país tem armas e símbolos diferentes.Grande parte dos brasões que as unidades militares nacionais ostentam foram também feitos por Euclides Reis. A menina dos seus olhos não é todavia um brasão mas sim um painel de madeira onde o major esculpiu uma réplica da batalha do Buçaco, feita a três dimensões, que está exposta no Regimento de Cavalaria 4, em Santa Margarida. “Está uma maravilha”, diz Euclides Reis com um brilhozinho nos olhos.Margarida Cabeleira
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