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Quem quer trabalhar?

Em época de desemprego há empresas com dificuldades em recrutar pessoal

Numa altura em que a taxa de desemprego está a aumentar em todo o páis há empresas no distrito com dificuldade em arranjar trabalhadores. A firma de curtumes “Couro Azul”, em Alcanena, é o melhor exemplo do que se passa. Recentemente precisou de pessoal e contratou 28 imigrantes de leste. Mas não foi por opção. Só houve um português a concorrer e foi enviado pelo Centro de Emprego de Torres Novas.

Edição de 19.03.2003 | Economia
A empresa de curtumes “Couro Azul”, em Alcanena, contratou há cerca de sete meses, numa altura em que o volume de trabalho aumentou, 28 trabalhadores imigrantes de leste.A firma solicitou ao Centro de Emprego de Torres Novas trabalhadores para o lugar, mas apenas um compareceu à entrevista. O candidato português acabou por não ser admitido por não corresponder ao perfil desejado.O director de produção da empresa garantiu a O MIRANTE que se tratava de funções simples. “Era um trabalhador para todo o serviço”. O horário de trabalho para a função era diurno, entre as 8h00 às 17h00, a remuneração rondava os 450 euros, o contrato tinha a duração de seis meses e não se tratava de uma função de grande esforço físico, no entanto a resposta não correspondeu às necessidades da empresa, que teve que optar por trabalhadores estrangeiros.O responsável da “Couro Azul” adianta que são normalmente os trabalhadores que se apresentam na empresa voluntariamente e acabam por ser integrados na empresa de acordo com as necessidades.A Couro Azul trabalha essencialmente com exportação de curtumes (90 por cento). A altura em que a empresa admitiu os 28 trabalhadores coincidiu com um época alta em termos de produção, mas o responsável admite que entretanto a procura diminuiu e já foram obrigados a dispensar seis pessoas. Mas neste momento necessitam de mais três funcionários de serviços gerais.O delegado regional de Lisboa e Vale do Tejo do Instituto de Emprego e Formação Profissional, Octávio Oliveira, adiantou ao nosso jornal que a empresa em questão pediu trabalhadores ao Centro de Emprego de Torres Novas para uma função específica da indústria de curtumes, para a qual foram convocados nove candidatos que correspondiam ao perfil.Desses nove candidatos, cinco não compareceram. O Centro de Emprego avaliou a situação e a dois dos cinco inscritos foi-lhes anulada a candidatura. Actualmente estão inscritos no Centro de Emprego de Torres Novas 25 pessoas que reúnem condições para ocupar o lugar. Mas na faixa etária exigida para o lugar - entre os 25 e os 45 anos – existem apenas nove pessoas inscritas, das quais seis se inscreveram depois da oferta de trabalho. “Há um relativo envelhecimento”, interpreta Octávio Oliveira.A Couro Azul tem 160 funcionários, alguns dos quais são estrangeiros. “Há casos em que os imigrantes são mais empenhados que os portugueses”, admite o responsável pela produção da empresa. Na opinião do empresário não aparecem mais candidatos porque há pessoas com pouca disponibilidade para trabalhar.Uma opinião partilhada por Octávio Oliveira, que sublinha três requisitos fundamentais para quem quer ser integrado no mercado de trabalho: “interesse, capacidade e disponibilidade”.UM TRABALHO À MEDIDAOctávio Oliveira explica que as empresas que fazem ofertas de emprego têm que caracterizar o tipo de trabalho, o horário e a remuneração. Cabe ao centro de emprego fazer o trabalho de ajuste e confronto dos dados da oferta com a procura registada para depois convocar as candidaturas.O responsável revela que normalmente as condições apresentadas não podem causar “prejuízo sério” ao trabalhador. De acordo com a lei o trabalhador pode recusar a proposta se não existirem, por exemplo, transportes para o local ou se não forem disponibilizados pela empresa ou ainda se a função não for compatível com o histórico de antecedentes profissionais para que não haja “desajuste ao nível da carreira profissional”, elucida. Quando se rejeitam as propostas adequadas os desempregados podem ver o subsídio ou a inscrição cancelados.Octávio Oliveira garante que há a preocupação de “fazer o máximo para apoiar as empresas”, mas enquanto “serviço público de emprego” têm também uma “atitude de protecção dos cidadãos”.Em 2002 o Centro de Emprego de Torres Novas (que engloba também a Chamusca, Golegã, Entroncamento, Alcanena e Vila Nova da Barquinha) recebeu 1148 ofertas de postos de trabalho, nos quais colocou 637 pessoas.Para este ano o Centro de Emprego daquela área tem como objectivo a recolha de 1200 postos de trabalho, onde deverá depois integrar 650 pessoas. “Pela primeira vez foi definida uma meta”, sublinha.Para as 1200 ofertas que pretende receber o centro de emprego deverá chamar 3600 pessoas. Em Janeiro e Fevereiro de 2003 receberam 105 ofertas, que permitiram integrar 69 desempregados. Nos últimos dois meses o centro de emprego já indicou 1032 pessoas para empregos, tendo anulado 733 inscrições por terem faltado à convocatória. Actualmente o centro de emprego de Torres Novas tem 3295 pessoas inscritas.Dezasseis mil desempregados no distritoNos cinco centros de emprego do distrito de Santarém estão inscritos actualmente 16.081 pessoas. Santarém reúne a maior fatia de inscritos com 5046 desempregados. Segue-se Salvaterra de Magos, com 3665 inscritos, e Torres Novas, com 3295.Abrantes, com 2173 desempregados, e Tomar, com 1902, são as áreas que apresentam o menor índice de desemprego. Apesar dos números serem elevados na região a taxa de desemprego está a baixo da média nacional.Um caso de dinamismo Ana Frazão, 32 anos, residente em Frade de Cima, Alpiarça, cansou-se de esperar a oportunidade de emprego que nunca conseguiu e, há cerca de um ano, decidiu pôr mãos à obra e criar uma pequena empresa de prestação de serviços.Nos últimos três anos quando procurava uma ocupação esbarrava sempre no problema da falta de experiência e das poucas habilitações literárias (12º). Do seu currículo constam apenas contratos precários de pouca duração como administrativa.Há uns meses o pai, reformado de uma autarquia, a única pessoa com que vive, financiou-lhe a compra de um computador para que pudesse fazer processamento de texto e transcrever relatórios e trabalhos. Ainda dactilografou o folheto que andou a distribuir pela rua e nas escolas. No Verão, época de férias, a procura baixou e foi então que decidiu tirar partido dos seus conhecimentos de trabalhos manuais. Dedicou-se aos arranjos de flores secas e brindes para casamentos e baptizados. O interesse das pessoas começou a aumentar a partir do momento em que participou na Feira de Alpiarça. O dinheiro que conseguiu reunir com a venda dos trabalhos permitiu-lhe comprar um tecto falso para o atelier onde trabalha.“O problema é que estou em casa e não tenho uma montra. As pessoas não se apercebem do meu trabalho”, afirma. Para divulgar a sua actividade colocou um anúncio no jornal e espera que comece a aparecer mais trabalho. “A informação que passa de boca em boca é a melhor maneira de divulgar”.Um ano depois o volume de trabalho não é muito e não lhe permite subsistir sem a ajuda do pai, mas mesmo assim não desiste. Mas já alargou o rol de serviços: faz encadernações, convites e fotocópias na sua própria impressora.Ana Frazão confessa que já teve vontade de desistir, mas o alento acaba sempre por prevalecer. Aceita trabalhos por encomenda (email: frazaofrazao@oninet.pt/ 243 599923) e está disposta a ir até ao cliente. Se o empenho fosse o único factor para singrar no negócio o sucesso estava garantido.

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