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“O perigo é que mantém o toureiro vivo”

Pedro Salvador enfrenta os toiros na arena

Pedro Salvador benze-se antes de pisar a arena. Só entra na Praça de Toiros com o pé direito, não deixa o tricórnio em cima de cama e dispensa o amarelo como cor do fato de toureiro. São superstições tauromáquicas que o jovem cavaleiro de Samora Correia, 23 anos, respeita com a mesma solenidade com que se arrisca a controlar na arena um animal que é incontrolável, fazendo vibrar os amantes da festa brava.

Edição de 11.06.2003 | Identidade Profissional
Antes de pisar a arena o toureiro leva a mão direita da testa até ao peito. Depois toca no ombro esquerdo e direito. O gesto da benção é quase um ritual da tauromaquia que o jovem cavaleiro Pedro Salvador, 23 anos, cumpre antes de iniciar a lide.O toureiro é católico, reza com regularidade e frequenta a igreja sempre que pode. Mas existem outros rituais, quase sagrados, que não ficam para trás – as superstições. Pedro Salvador tem o cuidado de não colocar o tricórnio em cima da cama, não entra com o pé esquerdo na praça de touros e, no que diz respeito aos trajes de toureio, o amarelo é uma cor proibida.A casaca bordada que o cavaleiro enverga, inspirada nos tempos de Luís XV, é verde. Cor do seu clube do coração. O seu fato de cavaleiro é confeccionado pelo alfaiate do Biscainho, Coruche, que talha muita da indumentária tauromáquica.Pedro Salvador divide-se entre o toureio e o curso de psicologia na Universidade Lusíada, em Lisboa. Monta a cavalo de manhã e à tarde. Os seus dias são passados com o treino da técnica, aperfeiçoamento dos cavalos e preparação psicológica para que possa atingir os seus objectivos. “É um trabalho de esforço e muito sacrifício”, resume.O cavaleiro pratica um tipo de toureio frontal, que transmite emoção e medo. “Sempre gostei muito do risco. O perigo é que mantém o toureiro vivo. É o que leva pessoas às praças. Quando a praça está cheia ou estão bons cavaleiros ou estão toiros que metem medo”.Cada lide demora cerca de 15 minutos. Quando há o pedido de mais um ferro pode prolongar-se até aos 20 minutos. O cavaleiro chega a tourear duas corridas por dia – uma à tarde e outra à noite – quando as solicitações aumentam.A temporada abre oficialmente na época da Páscoa e prolonga-se até 1 de Novembro no Cartaxo. O Inverno é a época de maior intensidade de trabalho para o cavaleiro. “Temos que ter uma preparação muito rígida para que as coisas corram bem no Verão e estejamos em condições de triunfar”.O que mais lhe agrada na profissão é a adrenalina. “Saber que conseguimos controlar uma coisa fora de controle. Ter a sensação de que conseguimos controlar um animal que é completamente descontrolado e fazer com que o público goste”, descreve. O toureiro tem oito cavalos à manjedoura que têm que ser montados todos os dias, cerca de uma hora cada um. No seu trabalho não há hora de entrada ou saída. Os cavalos, cúmplices do toureiro, são mais que companheiros de trabalho. “Não há um cavalo que não relinche quando me ouve chegar”. A grande dificuldade do toureiro é conseguir formar o conjunto: cavalo – cavaleiro. O desempenho do duo depende da relação que existe fora do picadeiro. “Tem que haver muita cumplicidade entre o ser humano e o animal”.Pedro Salvador recusa o rótulo dos cavaleiros como pessoas bárbaras. “Também sentimos a dor e o sofrimento, mas a dor e o sofrimento transformam-se em bravura”. A manutenção dos cavalos custa-lhe mais de dois mil euros por mês. Os rendimentos do toureiro dependem da percentagem que recebem por corrida, mas não acredita que existam cavaleiros que tenham enriquecido no mundo dos touros. Tal é a paixão do toureiro pela profissão que não encontra nada a apontar à arte que o ocupa. “Tudo o que envolve os touros, desde que nascem até que morrem – o que infelizmente não acontece nas nossas praças – é bonito. Um toureiro que viva a festa não pode deixar de gostar seja daquilo que for”. Pedro Salvador nasceu em Lisboa, reside em Santo Estevão, Samora Correia, mas sente-se ribatejano de gema. Em pequeno a família já lhe adivinhava o gosto pela lide quando imitava o mestre Joaquim Bastinhas empurrando uma bicicleta de duas rodas. Começou a montar a cavalo aos três anos. Em 1994 foi apresentado como cavaleiro amador e em 1999 tirou prova de praticante. O toureiro tem ainda o sonho de alcançar o lugar de topo no mundo da tauromaquia em Portugal e além fronteiras. A demonstrar a sua arte percorre as praças de todo o país: Castelo de Vide, Vila Franca de Xira e Santarém, onde irá tomar a alternativa durante a Feira Nacional da Agricultura. “É o doutoramento”, esclarece o toureiro.Ana Santiago

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