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À volta da aldeia só se vê terra queimada

“Hoje, sou o mais pobre da aldeia”

Elias Carmo Francisco, Vale do Açor, Fontes, concelho de Abrantes
Edição de 13.08.2003 | Incêndios
Elias Carmo Francisco, de 65 anos, viu os seus pinhais e terras arderem três vezes. O último fogo foi definitivo. “Fiquei sem nada, era um dos que mais tinha na aldeia, hoje sou o mais pobre”. Foi agricultor durante muitos anos, mas a força das chamas obrigou-o a mudar de vida: “Tive de me dedicar às obras, o dinheirito era pouco e agora ainda pior”.“Quando vimos como a coisa estava, tentámos salvar as casas, os pinhais deixámos arder. Não havia nada a fazer”. No cimo da ladeira que leva a Vale do Açor, concelho de Abrantes, a aldeia surge como um oásis no meio de um cenário negro de terra queimada.“Os coelhos e galinhas salvámos. Os pinhais trinta e tal arderam, as oliveiras ainda estão a arder, meteu-se o lume lá dentro e vão caindo. Devo ter 30 ou 40 no chão e tudo para cima de 100 videiras”.Elias Francisco era agricultor, mas perante a adversidade dedicou-se às obras: “Já é o terceiro fogo. O primeiro foi há 20 anos, o outro há 6 anos, quando morreram queimados três homens em Vale de Tábuas, e foi este. É muito difícil, estava agarrado àquilo, o rendimento estava ali, não empreguei o dinheiro em qualquer profissão. Depois de velho é que tenho de andar nas obras. O dinheiro sempre foi pouco, agora é pior... Até que eu puder vou indo, depois não sei como há-de ser”. O desespero alia-se à revolta: “Era o que mais tinha aqui na zona e hoje sou o mais pobre. Dá-me vontade não sei de quê quando oiço os vizinhos dizerem “agora é que estamos bem, estamos todos iguais. Como eles não tinham, não queriam que eu tivesse.. Ando variado de todo”. Foram anos de vida ligados à agricultura, os pinhais, o azeite, o vinho e as culturas sazonais davam para sustentar a casa. Elias Francisco já casou os filhos, mas tem de ganhar para si e para a mulher cuja saúde não ajuda: “Sou só eu a ganhar. Tipos da minha idade que foram para a Suíça, hoje são uns senhores e eu para aqui estou. Não tenho nada, o dinheirito que tinha era pouco, comprei uns tractores, porque vivia da agricultura. Comprei três tractores, mal empregado dinheiro... Não sei o que hei-de fazer. Para o meu lado está mau”.
À volta da aldeia só se vê terra queimada

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