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Matar a fome aos outros

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Beatriz Barroco é empregada de mesa num restaurante de Tomar
Edição de 03.12.2003 | Identidade Profissional
Beatriz Barroco nasceu numa pequena aldeia do distrito da Guarda, emigrou para França e decidiu assentar arraiais em Tomar há dez anos, depois de uma visita turística que fez à cidade. Conheceu o marido, italiano, em França, para onde foi com vinte anos. Quando vinham a Portugal tinham por hábito visitar uma irmã de Beatriz, que vive em Torres Novas. Numa visita turística pela região o casal apaixonou-se primeiro pelo Convento de Cristo, depois pela cidade.De tal modo que deixaram França e decidiram começar uma nova vida em Tomar. Há dez anos que serve à mesa num dos restaurantes da cidade. Encontrar trabalho na mesma área que fez carreira além fronteiras – a restauração – não foi difícil.Muito pelo facto de Beatriz Barroco falar várias línguas. “Falo um bocadinho de espanhol, francês, inglês e italiano e isso é muito importante numa cidade turística como Tomar”, revela a empregada de mesa.Há uma década que se mantém fiel ao mesmo restaurante que a contratou para o primeiro e único emprego que teve em Portugal. Diz que gosta de servir à mesa porque lhe possibilita o contacto com as pessoas, todo o tipo de pessoas. E também porque pode praticar as línguas que aprendeu. “No restaurante, recebemos muitos clientes estrangeiros, mas a grande maioria é francês”, afirma, adiantando que nessas alturas se sente como peixe na água.Entendida no assunto, Beatriz diz que em Portugal a generalidade dos empregados de mesa tratam muito bem os clientes, o que não acontece em outros países.“No estrangeiro não somos assim tão bem recebidos. Enquanto os empregados portugueses tentam ser simpáticos para com os clientes, nomeadamente ,os estrangeiros, lá fora, salvo raras excepções, são todos muito frios, não dão a atenção que nós damos aqui”.Mas há clientes e clientes. E há clientes que também não são fáceis de tratar. “Há de tudo um pouco, mesmo entre os estrangeiros”, refere a empregada de mesa, adiantando que alguns chegam, sentam-se e querem logo ser servidos.Não que Beatriz Barroco seja lenta. Pelo contrário, na hora do serviço diz que é preciso correr para atender às mesas. Mas não é por correr que os clientes ficam mais agradecidos. Pelo menos a fazer fé nas gorjetas.“O tempo é de crise e os clientes já não dão grandes gorjetas. Ficam-se pelos vinte cêntimos, cinquenta cêntimos”. Apesar de ser pouco, Beatriz acha mal que, em outros países como os Estados Unidos, as gratificações aos empregados sejam obrigatórias.“Nós já temos o nosso ordenado ao fim do mês e as pessoas também têm despesas mensais. Se já pagam a refeição, não devem ser obrigados a pagar também gorjetas”.Em dez anos de serviço no restaurante Tomás, a empregada de mesa nunca teve nenhum percalço, como, por exemplo, entornar comida para cima de um cliente. “O que pode acontecer é trocar o serviço de uma mesa porque aqui não tomamos nota dos pedidos por escrito, é tudo de cabeça”.Qualquer cliente que entre no restaurante, seja novo ou velho, rico ou pobre, é sempre recebido pelo sorriso contagiante de Beatriz Barroco. Mesmo naqueles dias em que anda triste com a vida.“Às vezes sabe Deus como estamos, mas temos de ter sempre um sorriso nos lábios e ser agradável para com o cliente, que não tem culpa do nosso estado de espírito”.Durante seis dias por semana, a empregada de mesa só consegue tomar uma refeição com o marido. Como entra às 11 horas, o pequeno almoço é feito em casa. Das quatro às sete e meia da tarde Beatriz tem um intervalo, que aproveita para fazer algumas coisas em casa. À noite, o regresso ao lar é feito só depois das 23 horas.“Temos apenas o domingo para nós os dois”, refere, adiantando que nesse dia aproveita para comer fora. Ser servida em vez de servir. E admite que, nessas alturas, repara no serviço do restaurante que escolhe. “Acontece quase sem querer, se calhar é defeito da profissão”, diz, adiantando que “não são tão rápidos como nós aqui”. Mas não reclama porque diz compreender as dificuldades do serviço.Há muitos clientes fidelizados, que quase todos os dias almoçam no restaurante. E algumas vezes esquecerem-se da carteira no emprego, ficando a refeição para pagar depois. Mas nunca houve qualquer problema por causa disso. “O cliente é sério e nós confiamos. Nunca ficou nada por pagar”.Beatriz Barroco só come depois de satisfazer o apetite de todos os clientes. É de pouca alimentação e diz não ser esquisita. Está habituada a todo o tipo de comida, embora haja algumas coisas que não aprecie, como morcela. Se puder escolher prefere peixe à carne e não morre pelos doces.Aberta na conversa, Beatriz só faz “caixinha” quando se lhe pergunta a idade. “Tem mesmo de ser”, questiona, acabando por desvendar já ter entrada na casa dos cinquenta. “Mas ponha menos dez para os clientes não acharem que sou velha”, pede com um sorriso maroto.Margarida Cabeleira
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