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A terra que foi capital do reino

Vale do Paraíso é a freguesia mais pequena do concelho de Azambuja

No Vale do Paraíso a rede de esgotos está praticamente completa, as estradas alcatroadas e há médico quase todos os dias. A grande dificuldade da população maioritariamente idosa é ter que enfrentar os longos degraus do edifício da junta que funciona no primeiro andar.

Edição de 17.12.2003 | O poder local aqui tão perto
Quem sobe pela serpenteada estrada de alcatrão vislumbra ao alto um povoado de pequenas casas brancas. Lá em cima fica o Vale do Paraíso. O nevoeiro da manhã ainda esconde a paisagem que deu nome à freguesia e que é o orgulho das gentes da terra.Em frente à igreja, no ponto mais alto da povoação, um grupo de homens enfeita o templo de luzes coloridas. São os preparativos para a Festa da Confraria de Nossa Senhora do Paraíso, a santa padroeira da terra. O dia da procissão, 18 de Dezembro, é uma das alturas mais esperadas do ano.No alto da torre pendura-se o relógio da Igreja que ainda serve de orientação aos mais velhos. José Pedro Pechoro, 71 anos, olha-o com nostalgia. No final dos anos 50 o pedreiro ajudou a construir a torre de um dos ex-libris da freguesia.O jardim perto da igreja serve de ponto de encontro dos anciãos da terra. Descansam nos bancos dos jardins enquanto aguardam que o centro de dia, com vista para a paisagem frondosa do vale, esteja concluído. Será um dos próximos equipamentos a estrear.Em frente à junta de freguesia, que funciona no primeiro andar de um edifício há vinte anos, meia dúzia de idosos aguarda pela hora de abertura. Espera-os um lanço de escadas apertado que torna o espaço público inacessível a pessoas com dificuldades de locomoção. Por vezes espera-se que alguém suba e dê um recado na secretaria da junta. Em breve os serviços vão mudar-se para o rés-do-chão do edifício que está a ser acabado do outro lado da rua.Apesar do espaço ser apertado é no edifício da junta que se fazem análises clínicas duas vezes por semana, serviço de correio, registo de cartas e pagamento de energia eléctrica, água e telefone. No imóvel há uma caixa multibanco e dois postos de acesso à Internet gratuitos.A mais pequena freguesia do concelho, com 460 hectares e cerca de 1200 habitantes, está bastante envelhecida. A freguesia já foi predominantemente agrícola, mas agora já ninguém vive do trabalho no campo. A maioria são reformados das duas grandes fábricas de automóveis de Azambuja, que abrigaram muitos dos trabalhadores do campo. A cultura do trigo e a vinha já foram duas grandes riquezas da povoação. Na terra chegou a fazer-se duas mil pipas de vinho, mas hoje esse número não chega aos 200.Pela freguesia espalham-se pequenas parcelas de terreno abandonadas, divididas por vários proprietários, que já ninguém cultiva. Nos últimos tempos os jovens casais não se têm fixado na terra e procuram outras localidades para viver. Alguns estudantes estão espalhados por universidades em todo o país, mas são poucos os que regressam à terra. Na freguesia não há emprego. O comércio resume-se a um pronto a vestir, cabeleireiro, loja de electrodomésticos, cooperativa, duas mercearias e três cafés. Falta uma farmácia. Uma exigência que ainda não conseguiram porque existem duas a menos de cinco quilómetros.No Vale do Paraíso os 25 alunos do ensino pré-escolar e os 43 estudantes do primeiro ciclo têm cantina, refeições gratuitas e Atelier de Tempos livres. A maior parte dos habitantes possuem transporte próprio, mas os autocarros públicos começam de madrugada a percorrer as apertadas ruas de Vale do Paraíso, onde é quase impossível dois veículos cruzarem-se.Na extensão de saúde de Vale do Paraíso há médico quase todos os dias da semana. A freguesia tem casa mortuária e mercado diário, mas é a única do concelho que não possui pavilhão polidesportivo. A rede de esgotos está praticamente concluída e as ruas estão todas alcatroadas. As acessibilidades não podiam ser melhores. A povoação fica a apenas três quilómetros do nó da Auto-estrada do Norte, em Aveiras de Cima, e a cinco de Azambuja.Parte do lugar de Casais dos Penedos também integra Vale do Paraíso, mas os 50 habitantes contam apenas para a freguesia por questões de recenseamento, já que vivem mais virados para Aveiras de Cima e Pontével (Cartaxo).Nos tempos livres os habitantes da freguesia dividem-se pela escola de música, banda, danças de salão, grupo de teatro, equipa de futebol da Associação Desportiva e Recreativa de Vale do Paraíso e Rancho Folclórico. Lá em baixo, no fundo do vale, encontra-se o tanque onde algumas mulheres ainda lavam a roupa à mão. O som do bater de umas calças na pedra, ali perto, ecoa em todo o vale. Perto do tanque ergue-se o que resta de uma torre de uma casa de fidalgos onde se abrigou D. João II em 1493 em plena época de peste. A freguesia foi capital do reino durante alguns dias. Dizem os historiadores que El Rei recebeu Cristovão Colombo em audiência e soube das boas novas das descobertas. E que “Val de Paraíso” foi por uns tempos “centro de governação dos territórios portugueses”.Tantos anos depois, a freguesia, um dos lugares mais antigos do concelho, continua a ser local de refúgio dos que abandonam a desenfreada corrida e procuram a pacatez da vida no campo. Onde o paraíso está ali tão perto.Ana Santiago

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