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O lapso que pôs o país em alvoroço

O lapso que pôs o país em alvoroço

Aumento do pão vai ficar muito abaixo dos 35 por cento

Afinal, o pão não vai aumentar 35 por cento. A garantia é deixada pelos industriais do sector, que dizem que tudo não passou de um lapso. Mas os aumentos, mesmo mais reduzidos, já aí estão – de 8, 10 ou 15 por cento, há para todos os gostos.

Edição de 07.01.2004 | Economia
“Um lapso” terá estado na origem do anunciado aumento do preço do quilo do pão em 35 por cento. O facto é que o assunto tem enchido as páginas dos jornais, embora as panificadoras considerem que nada justifica, na actual conjuntura, um acréscimo desta grandeza. O pão aumentou, ou vai aumentar, mas em percentagens muito mais baixas, na ordem dos 10 a 15 por cento. Mais do que os aumentos dos combustíveis, da electricidade, do gás ou da água, mexer no preço do pão é sempre uma situação polémica. E quando o aumento atinge os 35 por cento é um escândalo é nacional. O pão, apesar da alteração progressiva dos hábitos alimentares, continua a ser parte importante na dieta dos povos mediterrâneos. Aumentar 35 por cento o quilo de pão é injusto. Esta é a opinião dos responsáveis pelas panificadoras da região de Santarém, contactadas por O MIRANTE. A maioria ainda não fez qualquer aumento, embora considere que o preço do pão tem de subir, mas nunca para os valores anunciados.Na Chamusca, a União de Padarias Chamusquense continua a vender o pão ao mesmo preço, mas vai aumentá-lo: “Ainda não sabemos quando, nem quanto, mas vamos ter de aumentar porque as farinhas já estão mais caras”, afirma José Eusébio, que acrescenta: “Faremos o aumento justo”.As primeiras notícias sobre o aumento de 35 por cento do preço do pão começaram a surgir na comunicação social em Novembro do ano passado. Na origem desta informação esteve o acréscimo de idêntica percentagem do preço do trigo. Portugal importa quase todo o trigo que consume, a produção nacional é inexpressiva. O excesso de calor que se fez sentir na época da colheita, nomeadamente em França, de onde importamos a maior parte do trigo, reduziu a produção e diminui-lhe a qualidade, fazendo aumentar o preço do cereal. Devido a esse facto, as moagens aumentaram as farinhas logo em Dezembro, mas as repercussões sobre o preço do pão ao consumidor só começaram a alarmar a população no final do ano.“A notícia do aumento de 35 por cento do preço do pão foi um lapso da jornalista que falou comigo”, diz Fernando Trindade, presidente da Associação de Industriais de Panificação de Lisboa que abrange os distritos de Santarém, Setúbal, Leiria e Lisboa. O mesmo responsável esclarece: “Disse-lhe que o pão iria aumentar porque o trigo tinha aumentado e os moageiros também já tinham aumentado a farinha, mas fiz questão de frisar que o aumento do pão não podia ser igual ao do trigo. Ela não entendeu assim”.A opinião de Fernando Trindade é corroborada pelos responsáveis das panificadoras da região, a maioria delas a venderem o pão ao mesmo preço de 2003: “Trinta e cinco por cento de aumento é um autêntico disparate”, afirma Jorge Andrade, da Liga Panificadora Salvaterrense, ressalvando a actual conjuntura: “Nós vamos aumentar o pão cerca de 10 por cento, se houver novos aumentos da farinha daqui a uns meses poderemos rever a situação. Mas para já será assim”.O novo aumento das farinhas é igualmente referido por Fernando Trindade. Segundo o presidente da Associação de Industriais de Panificação de Lisboa é previsível que haja uma subida de 25 cêntimos em quilo dentro de pouco tempo e ainda novo acréscimo daqui a alguns meses: “Fala-se nisso. Para já o certo foi o aumento de quatro escudos em quilo em Dezembro e o pão só em Janeiro foi aumentado”.A farinha de trigo é a base fundamental da produção de pão em Portugal, mas os aumentos verificaram-se também noutras farinhas, nomeadamente centeio – utilizada no pão de mistura – e milho. A Panificadora Alcanhões irá alterar o preço do pão no próximo dia 12. O aumento não é uniforme para todo o tipo de pão, variando entre os 10 por cento, no caso dos paposseco, e 15 por cento para o pão maior. “Só em casos muito particulares de pão com mais mão-de-obra poderemos aumentar 20 por cento”, esclarece Manuel João Gaspar, responsável por esta panificadora do concelho de Santarém.Além do aumento da matéria prima, todos os restantes factores de produção sofreram acréscimos de preço no início de 2004 e os industriais de panificação têm de fazer contas a estes novos encargos.“Vamos aumentar o preço do pão em cerca de 8 por cento - um cêntimo nos papossecos e 5 cêntimos no pão”, diz Pedro Pires, da União Panificadora de Abrantes, que prossegue: “Temos de fazê-lo porque já começámos a pagar tudo mais caro”.Também a Sociedade Industrial de Padarias do Concelho do Cartaxo vai proceder a aumentos dentro de dias. Os papossecos sofrem um acréscimo de 15 por cento e o pão de mistura aproximadamente 14 por cento: “Os novos preços ainda não estão rigorosamente definidos mas não andarão longe destes valores”, confirma Rogério Luís Paulo. Se toda a polémica em torno do aumento do pão surgiu por lapso a situação é quase caricata. Mas o facto é que o próprio Ministério da Economia pediu à Autoridade da Concorrência para investigar o anunciado aumento de 35 por cento.Margarida Trincão
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