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Abandonada à sua sorte

Recém-nascida está bem de saúde e autoridades prosseguem investigações

Uma jovem estudante de fotografia chamada Isaura Madrinha deparou-se com um insólito achado quando saía para mais um dia de aulas. Ao relento, junto à sua casa, estava um bebé recém-nascido abandonado à sua sorte.

Edição de 04.02.2004 | Sociedade
O bebé recém-nascido que foi abandonado na madrugada de sexta-feira na aldeia de Portela, na freguesia de Alvega, concelho de Abrantes, encontra-se internado no Hospital de Abrantes mas está bem de saúde. As autoridades continuam a investigar o caso, que não tem precedentes na zona. E procura-se uma solução para o futuro da criança, que não pode ficar por tempo indeterminado nos serviços de pediatria.Quem deu o alerta para o insólito achado foi uma estudante chamada Isaura Madrinha, que se converteu nesse dia numa espécie de fada protectora da desprotegida criança do sexo feminino. Foi junto à sua casa, perto da barraca que serve para guardar lenha, que Isaura deparou com o bebé envolto em camisolas usadas de adulto. Eram seis e meia da manhã quando a jovem, acabada de sair para mais um dia de aulas, reentrou em casa com uma recém-nascida nos braços. A avó, Leonilde Calhoa, nem queria acreditar. Mas a verdade nua e crua era essa: a neta tinha encontrado uma criança junto à casa onde vivem em Portela. Um acaso do destino que pode ter valido uma vida.“Tenho 62 anos e nunca me lembro de acontecer ou de ouvir dizer alguma coisa parecida como esta por estes lados”, comentava Leonilde Calhoa, recordando a história ocorrida naquela sexta-feira, 30 de Janeiro. A neta, Isaura Madrinha, tem 16 anos e anda a tirar um curso de fotografia em Tomar. Como habitualmente, saiu de casa às 06h30 – “até ia um bocadito atrasada”, conta a avó – passou pela barraquita da lenha e quando começou a descer a ladeira pareceu-lhe ouvir um choro de criança.“Ouvi um choro e fiquei assustada, voltei atrás e vi um bebé, embrulhado numas roupas, deitado no chão junto à lenha. Peguei nele e fui para casa chamar a minha avô”. Da porta da casa à ladeira distam uns escassos 10 metros.“A minha neta saiu e eu deixei-me ficar deitada, quando ela voltou a bater à porta fiquei surpreendida e quando a vi com a bebé nem queria acreditar”, conta. E prossegue o seu relato: “Quando peguei nela e a pus em cima da mesa para ver se era um menino ou uma menina, vi que os pezinhos, as mãozitas e os lábios estavam roxinhos com frio”. Embrulhada em duas camisolas de adulto já usadas, sem fraldas e ainda com restos de sangue na cabecita e na cara, a bebé continuava a chorar.“Fui buscar um cobertor e envolvi a menina, aconcheguei-a e ela sossegou um bocadinho. É muito bonitinha”, continua LeonildeEntretanto, Isaura foi telefonar para a GNR do café onde a avó trabalha. “Daí a nada já estava aqui a guarda. Chamaram a ambulância mas não explicaram bem que era Portela de Alvega e eles foram para o lado das Fontes. Foi a GNR que acabou por levar a criança para o hospital”.O estado de saúde de Maria Ana, que se encontra internada no hospital de Abrantes à guarda do Ministério Público, não oferece cuidados. Fonte do serviço de Pediatria desta unidade hospitalar disse à Agência Lusa que, quando chegou, “a criança pesava 2,475 quilos e estava bem de saúde, apresentando apenas uma temperatura um pouco abaixo do normal”.Na passada terça-feira, a bebé continuava internada no hospital a aguardar a resolução do tribunal: “Neste momento não sabemos de mais nada, alguma solução terá de ser dada porque a criança não poderá continuar por muito mais tempo na pediatria”, disse Cidalina Oliveira, assistente social do hospital de Abrantes.Entretanto, a equipa do hospital que acompanhou o caso atribui o nome de Maria Ana à criança. “Não é um baptismo, porque a menina não está registada. Isso terá de ser o tribunal, mas é um nome que estreita os laços de afectividade e qualquer cidadão tem direito a um nome”, continuou Cidalina Oliveira.Leonilde Calhoa, no fim de contas uma das salvadoras da criança, gostou da escolha: “É um nome bonito, mas há quem diga por aí que se devia chamar Aurora, por ter sido encontrada de madrugada, ao romper da aurora”.De um momento para o outro, a família de Leonilde Calhoa passou para as páginas dos jornais nacionais e das televisões. O caso é insólito e a avó de Isaura de tantas vezes contar a história não esquece os mais pequenos pormenores. Diz que, se no hospital deixarem, quer ir ver a criança que, apesar do infortúnio nas primeiras horas de vida, acabou por ter sorte. “Isto é um crime, mas ainda bem que a bebé está bem”.Para Isaura Madrinha esta também é uma história que nunca vai esquecer. “Quando cheguei a Tomar e contei aos meus colegas o que me tinha acontecido pensavam que estava a brincar, depois acreditaram”, conta a jovem que além de cursar fotografia toca clarinete na Sociedade Filarmónica Alveguense. O caso de Maria Ana foi entregue ao Ministério Público e à GNR, que procedem a investigações. “Daqui da Portela não é, não andava aí ninguém de barriga. Pode ser de longe ou de perto”, diz Leonilde Calhoa.A mesma moradora diz que durante essa madrugada ouviu os cães a ladrar e uns carros, mas não se levantou: “Nem sei que horas eram, não olhei para o relógio. Era de madrugada. Nunca pensei que fosse uma coisa destas... Já tenho ouvido na televisão casos desse, mas por aqui nunca tal se viu”.

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